Booktokers: Saiba quem são os jovens que falam de literatura na rede social da moda

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SÃO PAULO – Quando o paulistano Tiago Valente baixou o TikTok, em 2018, a rede social chinesa ainda era o “matagal” onde os adolescentes se escondiam se quando seus pais descobriam o Facebook. Valente é um booktoker. Ele compartilha vídeos de 30 segundos nos quais resume um livro e ainda interpretar os diferentes personagens que aparecem na história. Para resumir “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, escalou até um Mickey de pelúcia como Ezequiel, o filho de Capitu e Bentinho (ou será de Capitu e Escobar?).

– Percebi que o que funcionava era usar aqueles poucos segundos para criar uma narrativa, uma historinha cômica com começo, meio e fim – diz Valente, que tem 22 anos, gosta de romances policiais e literatura juvenil (hoje chamada de Young Adult ou YA) e tem quase 140 mil seguidores no TikTok. – Me organizo para fazer os vídeos. Escrevo o roteiro, gravo a locução, as participações dos personagens, edito e posto. Dá umas quatro horas.

Estima-se que o TikTok já tenha sido baixado mais de 2 bilhões de vezes – 315 milhões entre janeiro e março – e some 800 milhões de usuários ativos pelo mundo, mas a empresa não confirma. A rede social chinesa já incomoda Mark Zuckerberg e acirrou os atritos entre China e Estados Unidos.

Depois que fãs de k-pop se mobilizaram via TikTok para esvaziar um comício do presidente americano Donald Trump, ele ameaçou proibir a rede social no país em nome da privacidade e da segurança nacional. O Departamento de Justiça dos EUA também investiga se TikTok violou leis de privacidade ao coletar dados de menores de 13 anos sem o consentimento dos pais.

A tensão cresceu na última semana, quando Trump renovou ameaças e o “New York Times” anunciou que a ByteDance, empresa chinesa dona do app, chegou a cogitar vender a operação americana para a Microsoft. “Estamos aqui para ficar”, foi a resposta de Vanessa Pappas, encarregada do aplicativo nos Estados Unidos.

Atentos ao noticiário, os booktokers seguem publicando seus vídeos — e o mercado editorial acompanha de perto o fenômeno nascente. Segundo o TikTok, a hashtag #booktoker já foi visualizada mais de 14,5 milhões de vezes em todo o mundo. Diferentemente do YouTube, a rede social chinesa não remunera criadores de conteúdo de acordo com o número de visualizações, mas, como o Instagram, permite posts patrocinados.

As editoras já estão de olho nos booktokers. Se há alguns anos livros de youtubers inundaram as livrarias e ajudaram o mercado editorial a fechar as contas, não estranhe se, daqui a pouco, você começar a tropeçar em livros de tiktokers por aí.

– Os novos influenciadores digitais formados pelo TikTok são também potenciais autores – afirma Nathalia Dimambro, editora da Seguinte, selo YA da Companhia das Letras.

Valente assinou contrato com a editora Burn Books para publicar um romance que ele ainda está escrevendo. “O conselheiro” é a história de um rapazinho que dá conselhos amorosos num podcast, mas não tem sorte do amor.

– Quero que seja um projeto multimídia, que o livro se desdobre numa série de podcasts e de vídeos no TikTok – diz.

Aceite os desafios

O baiano Nadson Oliveira, de 22 anos, está na rede social desde 2017, quando ela ainda se chamava Musical.ly. Ele sempre gostou de ler e, depois de assistir aos resumos de Valente, passou a postar vídeos literários – antes, ele compartilhava apenas coreografias e alongamentos. O forte de Oliveira são os vídeos nos quais ele aborda dilemas de leitores – como frete caro e livro longo – ao som de hits do TikTok.

– Esses dias, usei o remix da música “Na conta da loucura”, de Bruno e Marrone, num vídeo em que brinco que quando o livro custa R$ 30 e o frete está R$ 10, é caro, mas se o livro custa R$ 40 e o frete é grátis, é barato. Muita gente se identificou – explica Oliveira, que acumula mais de 12 mil seguidores.

Um booktoker de respeito precisa embarcar nos famosos “desafios” da rede social, ou seja, fazer mais ou menos o mesmo vídeo que todo mundo está fazendo, mas falando de livros. São muitos comuns os vídeos em que booktokers brincam de “eu já / eu nunca” listando os livros que lleram e os que ainda não, e também as “check lists”, nas quais são desafiados a mostrar um livro de capa vermelha, um livro que faz chorar ou m livro que todo mundo gostou e eles não.

– Temos que estar atentos às possibilidades criativas dos desafios. Se percebo uma música que todo mundo no TikTok está usando, penso: como posso embarcar nessa onda sem copiar ninguém? – diz a curitibana Ivana Amaral, de 28 anos, seguida por mais de 21 mil tiktokers. – A comunidade booktoker é muito do bem. Muitos mandam mensagem agradecendo. Teve pai que disse que não pegava um livro desde a escola e agora voltou a ler.

Jéssica Martins, de Novo Gama (DF) resolveu falar sobre livros no TikTok e também no Instagram para “desmistificar” a leitura. Ela faz sucesso com vídeos em que encena os hábitos estranhos de leitores, recomenda romances eróticos e dá dicas como higienizar os livros (com um pano seco).

Segundo Ronaldo Lemos, pesquisador da cultura digital, os booktokers se beneficiam do sofisticadíssimo algoritmo da rede social chinesa, que entrega ao usuário exatamente o que ele quer, ainda que seja um conteúdo de nicho, como literatura. Não é preciso sequer criar uma conta para acessar o conteúdo do TikTok. Lemos alerta: o TikTok não é só uma modinha adolescente.

– O TikTok vem crescendo desde 2019 e, no primeiro semestre de 2020, se tornou o aplicativo mais baixado da história. Ele criou uma nova linguagem e agora está atraindo também o público adulto. Não é uma onda passageira – afirma.

Veronica Gonzalez, editora da Alt, selo YA da Globo Livros, deseja vida longa ao TikTok. Para ela, os booktokers podem ajudar a “Geração Z” (os nascidos pós-2000) a tomar gosto pela leitura.

– Não devemos subestimar o poder dessa nova plataforma. Jovens que não se interessam por literatura estão descobrindo que ler é legal e talvez comecem a fazer seus próprios vídeos para compartilhar suas experiências de leitura – diz Veronica, que tem um conselho às editoras e aos autores: corram para o TikTok.

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