Bope: esquema de 'venda de operações' continuou mesmo após prisão de caveiras

Rafael Soares
·4 minuto de leitura

Um esquema de corrupção e vazamento de informações no Batalhão de Operações Especiais (Bope) que levou cinco caveiras para a cadeia em 2015 continuou ativo mesmo após as prisões. O Ministério Público do Rio descobriu que as “vendas de operações” por PMs em troca de pagamentos realizados por traficantes continuaram acontecendo por pelo menos quatro anos depois das prisões dos agentes — atualmente condenados a penas de até 80 anos. A investigação, ainda em andamento, revela que o bando usava um guardador de carros para monitorar a saída de viaturas da sede do Bope, em Laranjeiras, na Zona Sul do Rio.

Interceptações telefônicas mostram que o esquema seguiu de pé graças à ex-mulher de um dos PMs presos. Carla Oliveira de Melo, que foi casada com o cabo Silvestre André da Silva Felizardo — apontado, em 2015, como chefe da quadrilha de policiais —, foi flagrada, em diversas ligações, recebendo informações sobre operações do Bope.

Num dos diálogos, um policial diz para Carla que estavam “seguindo para Santa Cruz ‘duas cheias’” — referência a duas viaturas que saíram do batalhão rumo ao bairro da Zona Oeste. Antes de desligar, o agente ainda chamou Carla de “chefe”. Para os investigadores, a expressão indica que a mulher herdou o comando do bando do ex-marido preso. A conversa aconteceu no segundo semestre de 2018, três anos depois da operação que revelou o esquema.

Uma pesquisa feita no Livro de Partes Diárias do Bope confirmou que, de fato, no dia da ligação, viaturas da unidade saíram do quartel em direção a Santa Cruz. Na época, as favelas do Rola e Antares — as únicas da região que ainda estavam sob domínio do tráfico — eram palco de uma guerra entre traficantes e milicianos. Após semanas de tiroteios, as duas comunidades passaram para as mãos dos paramilitares.

As escutas também revelaram que a quadrilha tinha um informante que monitorava a saída de viaturas do batalhão. Durante uma vigilância feita nas proximidades do quartel, os investigadores descobriram que o homem responsável por passar informações sobre a saída dos veículos é um guardador de carros que trabalha próximo ao viaduto que dá acesso ao Túnel Santa Bárbara, por onde os carros do Bope têm que passar a caminho de favelas nas zonas Norte e Oeste da cidade.

A investigação também apura se operações do Batalhão de Choque foram vazadas para a quadrilha. Após a prisão do cabo Felizardo, Carla Melo passou a se relacionar com outro PM, o também cabo Franco Guayanaz Maurício, oriundo do Choque. O MP descobriu que Guayanaz foi apresentado a Carla por intermédio do ex-marido preso.

No último dia 14, Felizardo, Guayanaz e Carla foram alvos de mandados de busca durante a operação Rainha de Copas, decorrente de uma outra investigação da Polícia Civil que apura o crime de lavagem de dinheiro. O padrão de vida de Guayanaz, que segue solto, chamou a atenção dos investigadores. O cabo tem uma lancha avaliada em R$ 510 mil, que fica ancorada num resort de luxo em Mangaratiba, e fazia uma série de viagens com a mulher para o exterior.

Em dezembro de 2019, por exemplo, o casal passou o Natal em Nova York. Em novembro do ano passado, o PM recebeu R$ 2.920 líquidos de salário da PM. O MP investiga se os bens do agente são fruto da venda de operações.

Mesmo condenado a 80 anos de prisão, o cabo Silvestre Felizardo continua nas fileiras da PM. Em março passado, ele recebeu R$ 4.547 de salário. De acordo com a sentença que o condenou, Felizardo “era o líder do grupo, sendo o responsável pelo recrutamento dos policiais do Bope para a estrutura criminosa”.

Felizardo e seus comparsas seguem na PM graças a uma decisão que paralisou, por dois anos, o processo administrativo que pode resultar em suas expulsões da corporação. Em setembro de 2016, o juiz Marcelo Barbosa, então titular da Vara de Mangaratiba, determinou a suspensão do processo que avaliava a conduta ddos cinco caveiras presos. A decisão foi derrubada meses depois, mas o procedimento ficou parado até dezembro de 2018. Atualmente, Barbosa é alvo de uma investigação no Tribunal de Justiça do Rio por assinar uma série de decisões que permitiam o retorno de agentes expulsos à PM.

O julgamento que levou à condenação dos cinco PMs do Bope trouxe à tona a proximidade entre o grupo e um dos chefes do tráfico da maior facção do Rio. Leonardo Barbosa da Silva, o Léo do Aço, foi chamado para depor como testemunha de defesa dos policiais — ou seja, os advogados dos caveiras tinham como objetivo que o bandido desmentisse a acusação. Léo do Aço, no entanto, admitiu que fazia pagamentos semanais de até R$ 70 mil a um policial do Bope.

Durante seu depoimento, o chefe do tráfico afirmou que havia uma relação de “respeito” entre policiais e traficantes. Ele chegou a ordenar que os PMs, ao se dirigirem aos bandidos, deveriam dar sempre “bom dia” ou “boa noite” e determinou que os policiais deveriam pedir desculpa quando não avisassem sobre alguma operação.

Em agosto de 2019, Léo do Aço foi executado com uma série de tiros de fuzil na porta de um motel. Até hoje, o crime não foi esclarecido.