Boric e Kast encerram campanha no Chile com troca de provocações

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SANTIAGO, CHILE (FOLHAPRESS) - Os dois candidatos que se enfrentam no domingo (19) no segundo turno das eleições presidenciais no Chile fizeram seus eventos de encerramento de campanha nesta quinta (16) para audiências animadas e numerosas. Durante todo o dia era possível ver gente carregando bandeiras e usando camisetas das duas candidaturas por Santiago.

Nos discursos finais, ambos fizeram alguns acenos à moderação -uma estratégia para tentar conquistar eleitores de centro e a grande parcela dos que ainda se dizem indecisos-, mas não pouparam provocações ao respectivo rival.

O segundo turno opõe o ultradireitista José Antonio Kast, que venceu a primeira rodada com 28% dos votos, ao deputado de esquerda Gabriel Boric, que marcou 25,6%. A última pesquisa que pôde ser divulgada sobre as intenções para domingo, do instituto Cadem, mostrava Boric com 40% da preferência, contra 35% de Kast e mais 25% de indecisos.

O esquerdista organizou seu evento no começo da noite desta quinta, no parque Almagro, tentando se mostrar mais moderado -como fizera no último debate na campanha, três dias antes. Se durante toda a corrida eleitoral ele iniciou seus atos dizendo "companheiros e companheiras", desta vez apostou em uma saudação mais ampla: "chilenos e chilenas".

Em sua fala, Boric colocou ênfase principalmente em dois temas, o da Previdência e o da diversidade. Voltou a defender um sistema de pensões e aposentadorias diferente do atual, que tem a administração privada. Ele quer uma gestão de fundos pública, por uma entidade do Estado.

Disse ainda que está atento a pedidos feitos nos grandes protestos que chacoalharam o país em 2019. "As manifestações estão vivas, pedem respostas e nossa candidatura é a que pode fornecer isso", afirmou.

Os atos desembocaram, entre outras coisas, na criação da Assembleia Constituinte ora em atuação e renderam especial desgaste para o presidente de centro-direita Sebastián Piñera.

Ao falar sobre diversidade e temas de gênero, Boric atacou Kast, afirmando que as políticas propostas pelo ultradireitista em relação às mulheres são "discriminatórias" e que o rival condenaria "mulheres estupradas a serem mães contra a vontade". Também afirmou que, diferentemente do oponente, está no ano de 2021, "onde ser contra o casamento igualitário é um retrocesso".

Kast, por sua vez, reuniu apoiadores no parque Araucano, no bairro de Las Condes, e também lançou ataques a Boric. Disse que o deputado não era "má pessoa, mas anda em má companhia e tem más ideias". Também reforçou a crítica que fez nos últimos debates, de que o esquerdista havia mudado muito sua imagem, em uma estratégia eleitoral, e que isso "é uma falsidade".

Voltou a reforçar suas bandeiras de maior investimento em segurança e na "estabilidade econômica" e afirmou que combateria o narcotráfico e a imigração ilegal.

Fez um gesto com relação à diversidade, afirmando que não terminaria com o Ministério da Mulher -algo que, na verdade, foi uma exigência do candidato governista derrotado em primeiro turno, Sebastián Sichel, para declarar apoio na rodada decisiva-- e elogiou mulheres que se incorporaram à sua campanha, como a atual subsecretaria de Saúde, Paula Daza.

Por fim, chamou ao palco seus nove filhos, para dizer que o Chile era "uma grande família" e, assim, seria "um país de família, não comunista ou marxista". Depois, ainda puxou um coro com seu mote de campanha, a expressão "atreva-se", sendo muito aplaudido.

Em meio aos eventos de campanha, a capital chilena ainda teve uma grande manifestação na praça Baquedano (também chamada de Dignidad), no centro, reunindo opositores da ditadura de Augusto Pinochet. Isso porque nesta quinta morreu aos 99 anos a viúva do general, Lucía Hiriart.

O fato foi comentado pelos candidatos. Kast, que já defendeu a ditadura de Pinochet, tentou se descolar do ditador. "Não quero fazer disso um tema de campanha, não conhecia a senhora Lucía Hiriart de Pinochet e não sou próximo à família", afirmou. Boric foi pelo lado oposto. "Lucía Hiriart morre impune apesar da profunda dor e da divisão que causou em nosso país. Meus respeitos às vítimas da ditadura da que ela foi parte", tuitou.

Na concentração na praça Baquedano, cartazes defenderam o voto no deputado de esquerda e criticaram o ultradireitista que chegou a dizer durante a campanha que a ditadura não foi uma ditadura.

À meia-noite, os candidatos passaram a ficar proibidos de realizar atos de campanha ou de falar publicamente. Um pedido em comum, feito por ambos, foi para que as pessoas saíssem para votar no domingo -o Chile tem um alto histórico de abstenção eleitoral.

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