Boric, presidente eleito do Chile, foi roqueiro frustrado e logo despontou no ativismo estudantil

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SANTIAGO, CHILE (FOLHAPRESS) - "Prometo ser um bom presidente. Não vou distribuir chocolates nem completarei seus álbuns de figurinhas, mas prometo recuperar itens perdidos na sala de aula, como lápis, borracha e apontadores."

As palavras foram escritas pelo estudante Gabriel Boric, à época com 9 anos de idade, quando ele promovia uma campanha para se tornar o presidente de sua classe no colégio britânico no qual estudou em Punta Arenas, sua cidade-natal. Na ocasião, foi eleito, assim como neste domingo (19).

Vinte e seis anos depois, Boric chega à Presidência de seu país com promessas bem mais ambiciosas, como reformar o sistema de previdência do país, enfrentar a grave crise econômica e conciliar uma sociedade dividida, que, por meio desta eleição presidencial e do plebiscito pela mudança da Constituição, rejeitou os partidos tradicionais e o modelo chileno vigente desde a redemocratização do país, em 1990.

Boric será o mais jovem presidente do Chile. Conseguiu registrar sua candidatura apenas em 11 de fevereiro deste ano, depois de completar os 35 anos exigidos pela lei. Hoje, é o rosto mais conhecido dos estudantes rebeldes que lideraram os protestos pela gratuidade do ensino universitário em 2011.

Deste grupo fazem parte os deputados Giorgio Jackson e Camila Vallejo. Os três são as estrelas da Frente Ampla, agrupação de esquerda que surgiu em 2017 contestando a tradicional Concertação, aliança de centro-esquerda que governou o Chile por 20 anos. Jackson e Vallejo também têm a popularidade e a ambição de serem presidentes, mas nenhum dos dois chegou, ainda, à idade mínima necessária.

Assim, Jackson, 34, e Camila, 33, participaram ativamente da campanha de Boric e agora são cotados para assumir ministérios e outros cargos da cúpula do governo eleito.

Os Boric (pronuncia-se "bórich"), na grafia original, foram uma das dez primeiras famílias croatas que se instalaram na região do Estreito de Magalhães, no fim do século 19. O bisavô de Gabriel se estabeleceu na ilha Lennox, junto ao canal de Beagle --o local atraía, à época, estrangeiros atrás do ouro da região.

Depois, mudaram-se para Punta Arenas, cidade histórica e turística que liga o Chile à Antártica. Ali nasceu Luis Boric, o pai de Gabriel, que trabalhou a vida toda como engenheiro da Empresa Nacional do Petróleo.

O presidente eleito do Chile tem dois irmãos, Simón e Tomás. Quando o caçula teve câncer, Boric se mudou com ele e a mãe para Santiago, em busca de melhor tratamento médico. Entre as aulas da faculdade de direito da Universidade do Chile e o ativismo estudantil, acompanhava Tomás em suas sessões de quimioterapia e raspava o cabelo do garoto, para lhe dar ânimo. O irmão hoje está recuperado.

Boric chegou a ter o cabelo comprido, além da altura do ombro. De barba e tatuado, mantinha com os colegas de Punta Arenas uma banda de rock cujas referências eram Nirvana e Metallica. Mas o novo líder chileno diz ter abandonado a tentativa de ser roqueiro após receber muitas críticas por não cantar bem.

A carreira na militância estudantil foi diferente. Protagonista nos protestos de 2011, virou presidente da Federação de Estudantes da Universidade do Chile. A passagem para a política foi tão rápida que o impediu de realizar o exame necessário para atuar como advogado, embora tenha se formado em direito.

Estreou como deputado em 2014 e estava em seu segundo mandato como representante da região de Magalhães quando se candidatou à Presidência, derrotando nas primárias da esquerda o até então favorito nas pesquisas Daniel Jadue, do Partido Comunista.

Inspirado na experiência do espanhol Podemos e influenciado pela obra do "pós-marxista" Ernesto Laclau, foi um duro crítico da Concertação, que ele considerava um projeto neoliberal. Depois do primeiro turno da eleição, porém, pediu desculpas a essa força política, recebendo o apoio de ex-presidentes da aliança, como Ricardo Lagos e Michelle Bachelet. Alegou que as críticas eram fruto de "rebeldia geracional".

Embora nenhuma força política tenha capitalizado de modo imediato os protestos iniciados em outubro de 2019, Boric foi um dos líderes políticos responsáveis pelo acordo político que abriu as portas para o plebiscito da Constituinte. Na época, chegou a ser criticado pela ultraesquerda por ter aceitado um pacto com o governo num momento de grande contestação da autoridade do presidente Sebastián Piñera.

Os recuos e os pedidos de perdão são comuns na curta carreira do presidente eleito, que teve de se desculpar mais de uma vez por comportamentos extremos ou inapropriados. Um dos mais recentes foi o caso de assédio sexual apontado pelo seu rival na corrida eleitoral, José Antonio Kast.

Em 2012, uma estudante de antropologia afirmou que Boric a assediou e fez comentários machistas. O esquerdista então pediu desculpas após a acusação. No entanto, a mulher afirmou que a denúncia de Kast era exagerada e estava sendo usada politicamente. Por fim, declarou-se apoiadora de Boric.

Em outro episódio, também se mostrou arrependido por ter visitado um dos guerrilheiros condenados pelo assassinato do senador pinochetista Jaime Guzmán, em 1991.

Apesar de ter crescido numa família católica, Boric é agnóstico. Num programa recente de televisão, afirmou que "ainda está em uma busca espiritual" e que lê a Bíblia com frequência para encontrar respostas. Diz respeitar todas as religiões e defender o Estado laico.

Solteiro, namora há dois anos a cientista política e ativista feminista Irina Karamanos, 32. Discreta na campanha, a descendente de gregos afirma que a figura da primeira-dama "não tem nenhum sentido" e propõe um debate sobre a posição. "Não pode haver cargos no Estado que tenham a ver ou que estejam relacionados ao parentesco ou às relações do presidente."

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