Sob chuva de críticas, Boris Johnson esclarece seu plano de desconfinamento

Por Anna CUENCA
Ciclista passa por loja fechada com uma pintura em homenagem ao Sistema Nacional de Saúde em Hull, norte da Inglaterra

O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, foi duramente atacado nesta segunda-feira (11) pela oposição e sindicatos devido ao seu plano de desconfinamento anunciado no dia anterior, qualificado por eles como "contraditório" e perigosamente "confuso", apesar de suas explicações diante do Parlamento.

Downing Street publicou um documento de 50 páginas com os detalhes sobre o que Johnson defendeu e sobre o que não mencionou, como as ligas profissionais de futebol que, de acordo com o texto, serão capazes de retomar as competições sem público a partir de 1º de junho.

Com 32.065 mortes até esta segunda-feira, o Reino Unido é o segundo país do mundo mais atingido pelo coronavírus, atrás apenas dos Estados Unidos, cuja população (327 milhões) é quase cinco vezes superior.

Diante das sérias consequências econômicas do confinamento - o Banco da Inglaterra prevê uma queda de 14% no PIB -, o governo convocou a retomada do trabalho a partir de segunda-feira para quem não puder trabalhar em casa.

Mas Johnson pediu para evitar o transporte público, onde o governo aconselha agora cobrir o rosto, assim como nos comércios, mas não ordenou que usem máscaras cirúrgicas.

A secretária-geral do Congresso dos Sindicatos TUC, Frances O'Grady, lamentou que o governo não tenha dado tempo para preparativos e chamou o plano de "receita para o caso".

- Mensagens contraditórias -

"O país precisa de clareza e garantias e, neste momento, temos escassez de ambas", afirmou o líder da oposição trabalhista, Keir Starmer, quando Johnson apareceu diante do Parlamento.

O plano do governo causou "considerável confusão", insistiu ele, ao que o primeiro-ministro respondeu assegurando que as pessoas usariam o "bom e sólido senso comum britânico".

Dado o peso psicológico do confinamento, a partir de quarta-feira, as pessoas também serão incentivadas a "fazer exercícios ilimitados ao ar livre", tomar sol, dirigir para destinos afastados e até jogar em equipes, mesmo que apenas entre "membros da mesma casa".

Além disso, o governo mudou seu slogan de "fique em casa para salvar vidas" para "permanecer alerta para salvar vidas".

Segundo uma pesquisa do YouGov, apenas três em cada dez britânicos dizem entender a nova mensagem.

"É preciso ser um gênio para entender o que temos que fazer", se queixou à AFP o londrino Pete Elliott. "É muito confuso quem deve ir trabalhar e o que fazer se tiver filhos", acrescentou Alexandra Logan, gerente de marketing, nas ruas da capital.

- Quarentena com exceções -

As medidas decididas por Johnson serão limitadas à Inglaterra, já que a Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte determinam o seu próprio desconfinamento e rejeitam este plano, considerado por eles como perigosamente confuso.

Por outro lado, o país estabelecerá "em breve" um isolamento de 14 dias às pessoas que chegarem do exterior, anunciou Johnson sem maiores detalhes, despertando duras críticas do setor aeroportuário.

A regra, no entanto, terá uma "lista curta de exceções" não divulgada, da qual se sabe apenas que inclui viajantes da França.

Apesar dessas mudanças, o país permanecerá confinado até pelo menos 1o de junho, quando se espera que lojas e escolas primárias possam reabrir. Depois, em julho, é prevista a retomada de "estabelecimentos públicos", como salões de beleza, cafés e restaurantes, se a evolução da pandemia permitir.