Boris Johnson deseja novo acordo de divórcio da UE

Por Pauline FROISSART
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O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, durante seu primeiro conselho de ministros, em 25 de julho de 2019, em Londres

O novo primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, classificou os termos do acordo do Brexit negociado por sua antecessora Theresa May como "inaceitáveis" e pediu a Bruxelas que reconsidere sua recusa em renegociar o texto.

Johnson também disse que o governo estabelecerá como preparativos de "alta prioridade" a saída sem um acordo da União Europeia, se um pacto não for alcançado antes do prazo de 31 de outubro.

O líder, que tomou posse como primeiro-ministro na quarta-feira, substituindo Theresa May, enfatizou que prefere deixar a UE com um acordo. Acrescentou, porém: "O acordo foi rejeitado três vezes, [...] seus termos são inaceitáveis para este Parlamento e para este país".

"Estamos dispostos a negociar, de boa-fé, uma alternativa" ao acordo concluído em novembro, após 17 meses de negociações, frisou Johnson, que reiterou seu desejo de deixar o bloco comunitário na data prevista de 31 de outubro.

Do lado europeu, a resposta continua a mesma: "não reabriremos o acordo", afirmou a porta-voz da Comissão Europeia, Mina Andreeva, informando que Boris e o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, vão conversar por telefone nesta quinta à tarde.

- 'Expurgo' -

Esta manhã, o primeiro-ministro liderou seu primeiro conselho de ministros.

Em uma guinada à direita, o conservador se livrou de uma grande parte do time de sua antecessora e nomeou para os principais ministérios fervorosos defensores do Brexit, como Dominic Raab, de 45 anos, que herdou a diplomacia britânica; Priti Patel, de 47, nova ministra do Interior; ou Jacob Rees-Mogg, de 50, encarregado das relações com o Parlamento.

"É o expurgo mais brutal da história política moderna", disse o jornal conservador Times. "Massacre ministerial", comentou o tabloide Daily Mail.

Este governo é "o mais à direita desde os anos 1980", observou o Daily Mirror (esquerda).

Entre os ministros do gabinete anterior, Steve Barclay, outro eurocético, será encarregado do Brexit, e Matt Hanock ficará na Saúde.

Fiel a seu estilo impulsivo, Boris Johnson prometeu "deixar a União Europeia [UE] em 31 de outubro, sem condições", durante seu primeiro discurso em Downing Street na quarta-feira.

Nesta quinta, no final da manhã, falará aos deputados britânicos antes do recesso de verão, que começa à noite e termina em 3 de setembro.

O dia 31 de outubro é o prazo-limite fixado após duas extensões do Brexit, inicialmente previsto para 29 de março e adiado depois que os deputados rejeitaram o acordo concluído por Theresa May com Bruxelas.

Boris Johnson reiterou que está disposto a deixar o bloco europeu sem acordo, para responder à frustração dos 52% dos britânicos que votaram pela saída da UE em junho de 2016.

O novo primeiro-ministro diz que é capaz de obter um "acordo melhor" do que o negociado por May, sem a polêmica cláusula do "backstop" irlandês. A cláusula é uma solução de último recurso que visa a evitar a reimposição dos controles na fronteira entre a província britânica da Irlanda do Norte e a República da Irlanda após o Brexit.

- Menos de 100 dias -

Para Anand Menon, professor de Política Europeia no King's College de Londres, é "difícil ver como será possível alcançar suas reivindicações" no período de tempo que ele tem.

O prazo para o Brexit é de menos de 100 dias, e Boris Johnson descartou qualquer novo adiamento.

"Sugerir que pode haver um novo acordo, negociado em poucas semanas, ou meses, não é realista", reagiu o primeiro-ministro irlandês, Leo Varadkar, que espera para ver se Johnson "poderá fornecer detalhes sobre alguns de seus slogans".

"Estou ansioso pelo nosso encontro para discutir - em detalhes - nossa cooperação", escreveu em uma pequena carta Donald Tusk, que supervisiona o Conselho Europeu, a instituição que reagrupa os chefes de Estado e de governo da UE.

Enquanto Boris Johnson é muito popular entre os membros do Partido Conservador, que o elegeu com 66% dos votos, gera grande divisão entre a opinião pública e dentro de sua bancada parlamentar.

O agora ex-ministro das Finanças Philip Hammond, que retornou às suas funções como deputado, prometeu impedir uma saída do Reino Unido sem acordo.

O líder do Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn, convocou uma manifestação na tarde desta quinta-feira para pedir eleições legislativas antecipadas.

Embora tenha apenas uma maioria de dois assentos no Parlamento, graças ao apoio dos dez deputados do partido unionista norte-irlandês DUP, é improvável que Boris Johnson convoque essas eleições.

John Curtice, professor de Política na Universidade de Strathclyde, estima que este seria um "erro terrível para os conservadores", em uma análise publicada no site do jornal conservador "The Telegraph".

Os conservadores mal alcançam 25% das intenções de voto, de acordo com pesquisas recentes.