Boris Johnson se despede do governo falando em energia nuclear e Ucrânia

MADRI, ESPANHA (FOLHAPRESS) - Pode parecer estranho para nós, brasileiros, que o primeiro-ministro Boris Johnson ainda esteja no cargo após ter renunciado há quase dois meses. Mas assim são as coisas no Reino Unido. Nesta segunda (5), o novo, ou, mais provavelmente, a nova primeira-ministra será anunciada, após eleições indiretas entre os cerca de 160 mil filiados do Partido Conservador.

Com Elizabeth Truss liderando as pesquisas --sempre na casa dos 60%, cerca de 30 pontos à frente de Rishi Sunak--, Boris Johnson se dedica a seus últimos atos como líder máximo do país. Nesta semana, anunciou investimento de £ 700 milhões (R$ 4,2 bilhões) para a construção de uma usina nuclear em Sizewell, na costa lesta da Inglaterra. O valor, entretanto, não é suficiente, e o governo ainda precisa atrair investidores privados para o projeto.

"Nós vamos conseguir, pois seria absolutamente loucura não o fazermos", disse o primeiro-ministro no evento. Boris se refere ao fato de o Reino Unido buscar mais independência na energia após o aumento no gás e na gasolina, consequência da Guerra da Ucrânia, ter deixado milhões de famílias em situação de fragilidade para enfrentar o que vem sendo chamado de "catástrofe de inverno", com contas de luz subindo de uma média anual de £ 2.000 (R$ 12 mil) para £ 3.600 (R$ 21,5 mil).

Já na semana anterior, Boris fez uma visita surpresa à Ucrânia, no dia em que o país comemorava seu dia de independência --e que também marcava seis meses da invasão russa. "A Ucrânia pode e vai vencer esta guerra", disse o britânico no Twitter da rua Downing Street, 10 (sede do governante em Londres). Foi sua terceira visita ao país, e Boris foi um dos poucos líderes que voaram para a Ucrânia em momentos mais perigosos na primeira parte da guerra. O Reino Unido colocou cerca de £ 2,3 milhões (R$ 14 milhões) em ajuda financeira e militar no país.

Boris Johnson se elegeu primeiro-ministro em julho de 2019 com uma campanha que prometia o brexit imediatamente. Aconteceu após sua antecessora, Theresa May (2016-2019), enviar ao Parlamento três versões do plano de saída do Reino Unido da União Europeia --e ter sido por três vezes negada. Boris apresentou um plano de saída imediata, que aconteceria em 31 de outubro, mas essa tentativa naufragou após perda de maioria e dissolução do Parlamento. Em dezembro, no entanto, ele conseguiu reunir novamente a maior parte das cadeiras nas eleições legislativas: seu Partido Conservador ganhou 43,6% dos assentos, contra 32,1% dos trabalhistas.

Com isso, a saída da comunidade foi oficializada em 31 de janeiro de 2020. Desde então, entretanto, a opinião pública britânica mudou, com maioria entendendo que o reino deveria ter ficado na União Europeia e dizendo que a saída foi um erro. Mas a pandemia foi a crise mais séria enfrentada por Boris em seus quase três anos de governo -e, por fim, uma das responsáveis por sua queda.

O primeiro caso confirmado de Covid-19 no país aconteceu no mesmo dia em que o Reino Unido saiu da União Europeia. Nos primeiros meses, Boris não foi a diversas reuniões do comitê de emergência para combate da pandemia e, segundo cientistas, a falta de um lockdown imediato, assim como demora para fechamento de escolas e locais públicos, contribuiu para que o país tivesse taxas muito altas de transmissão e mortes.

Até o mês passado, o Reino Unido teve 205 mil mortos, atrás apenas da Rússia entre os países da Europa. Em março, após Boris decretar o lockdown, seu chanceler Rishi Sunak anunciou que o governo iria pagar 80% dos salários para que as pessoas ficassem em casa. Já o primeiro escândalo envolvendo a pandemia aconteceu em maio de 2020, quando o principal assessor político de Boris resolveu visitar seus pais no interior em pleno lockdown.

Dominic Cummings havia sido o ideólogo da campanha vitoriosa pelo brexit em 2016 e foi visto como o grande responsável pelo triunfo nas eleições legislativas de dezembro de 2019, que deram a Boris tranquilidade para governar. Foi ainda o responsável por slogans como "take back control" (retomar o controle), usado no referendo, quanto o "let's get brexit done" (vamos fazer o brexit acontecer), nas eleições nacionais de 2019.

Boris resistiu a decretar uma nova quarentena em setembro de 2020, quando a segunda onda se avizinhava. Recordes de mortes, entretanto, o obrigaram a aceitar o pedido das autoridades sanitárias em 31 de outubro. Em 8 de dezembro, por outro lado, a Inglaterra se tornou o segundo país do mundo a vacinar contra a Covid-19, três dias após a Rússia ter dado início à imunização com sua controvertida vacina Skylab.

O Reino Unido alcançou a marca de 1.328 mortos em pleno terceiro lockdown. Boris pediu desculpas e disse assumir toda a responsabilidade. Em maio, Dominic Cummings testemunhou no Parlamento e disse que Boris não era adequado para o cargo de primeiro-ministro e que dezenas de milhares de pessoas morreram na pandemia por seus desmandos.

No fim do ano passado, circularam vídeos mostrando o primeiro-ministro em uma festa nos jardins de Downing Street em maio de 2020, durante a primeira quarentena. O escândalo ficou conhecido como "partygate". Boris inicialmente disse que não houve festa e, em janeiro deste ano, se desculpou por ter ido a uma reunião que acreditava ser de trabalho. Uma investigação foi aberta e, em abril, o primeiro-ministro foi multado pela polícia (£ 50, ou R$ 300), se tornando o primeiro na história britânica a ser condenado por infringir a lei no cargo.

Pesquisas na época davam que apenas 28% dos eleitores acreditavam na justificativa de Boris de que pensava ser um evento de trabalho, enquanto que, para 63% (incluindo 52% dos eleitores do Partido Conservador), ele estava mentindo. Pressionado por parlamentares e ministros, ele recebeu, em junho, um voto de confiança para continuar no governo.

Mas no último dia daquele mês, o chefe parlamentar conservador de Boris, Chris Pincher, renunciou dizendo que havia bebido demais num clube privado na noite anterior e "envergonhado a si mesmo e a outras pessoas". Surgiram denúncias de que ele tinha atacado sexualmente dois homens e, quando ficou claro que Boris conhecia detalhes do comportamento privado de Pincher, 13 ministros e outros políticos renunciaram de seus cargos. No dia 7 de julho, foi a vez de o encurralado Boris Johnson anunciar sua renúncia, abrindo caminho para uma nova liderança do Partido Conservador.