Boris muda estratégia e implementa medidas de distanciamento social no Reino Unido

ANA ESTELA DE SOUSA PINTO

BRUXELAS, BÉLGICA (FOLHAPRESS) - Avôs não devem ir ao almoço de domingo com a família e britânicos só devem fazer viagens estritamente necessárias.

Essas foram as duas novas voltas do primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, no torniquete pelo qual tem apertado lentamente as restrições de contato para combater a pandemia de coronavírus no país.

Enquanto todos os grandes países europeus fechavam fronteiras e suspendiam aulas nas últimas duas semanas, Boris resistia. Medidas drásticas não deveriam ser tomadas "antes da hora", segundo o primeiro-ministro.

"A hora" chegou na segunda (16), quando ele proibiu eventos públicos e recomendou trabalho remoto e saída às ruas só para o indispensável, e hoje ganhou tons mais fortes com a declaração de que "o Reino Unido está numa guerra contra a doença e temos que vencê-la".

Em entrevista à tarde, ele deu a entender que o fechamento das escolas no país não é uma questão de se, mas de quando, e que esse quando é iminente. Questionado sobre como ficariam as crianças que dependem a merenda, respondeu "quando anunciarmos o fechamento, teremos também a solução para isso".

Apesar da fama de excêntrico, Boris não estava tentando ser do contra. Seguia as orientações de seu principal (e respeitado) conselheiro científico, Patrick Vallance, que defendia uma estratégia de longo prazo, conhecida como "imunidade de rebanho".

A ideia é que se o vírus puder circular entre a população e uma parcela grande dela adquirir imunidade (entre 60% e 70%, segundo epidemiologistas), a transmissão seria bloqueada, porque a chance de encontrar alguém imune seria muito maior que a de cruzar com um doente e ser contagiado.

Ainda que o número de casos no curto prazo fosse maior do que se adotasse quarentenas, proibições de eventos ou fechamento de lojas, no longo prazo a população britânica estaria mais protegida.

Mas argumentos de centenas de médicos e cientistas e, principalmente, um estudo estatístico divulgado na segunda por um dos principais centros de epidemiologia do mundo, o do Imperial College parecem tê-lo convencido a mudar de rumo - ou, como dizem integrantes do governo, a trocar a marcha e acelerar a implantação das medidas.

Os cálculos feitos por uma equipe de 30 cientistas do Imperial College mostravam que, sem uma quarentena drástica e prolongada, o Reino Unido pode assistir a no mínimo 250 mil mortes provocadas pela doença.

O estudo também afirma que dados da Itália mostram que a porcentagem de doentes que precisa de equipamento de ventilação se mostrou maior que a esperada.

Com más notícias desse porte, na segunda Boris foi à TV dizer que "chegara a hora" de evitar qualquer contato não essencial. Proibiu eventos públicos, determinou que idosos fiquem em autoisolamento por quatro meses e pediu à população que adote o trabalho remoto e só saia à rua se for absolutamente indispensável.

Na terça, o governo foi mais longe. As medidas de restrição não tem prazo de validade e "podem durar meses", e viagens serão reduzidas apenas às essenciais por um período inicial de 30 dias. Segundo o secretário de Relações Exteriores, Dominic Raab, a medida entraria em vigor imediatamente.

Segundo Vallance, as restrições devem reduzir as mortes para um patamar de 20 mil no Reino Unido, e foram aceleradas porque a transmissão do coronavírus no país estava se dando de forma mais rápida que o inicialmente previsto. "Nosso objetivo é salvar o maior número de vidas

O cientista-chefe afirmou também que o pico da epidemia poderia ser reduzido em cerca de 20% com a redução no contato entre as pessoas.

Vallance também deixou claro que o distanciamento social dos idosos significa que ele devem evitar contato também com seus filhos e netos. "Avós não devem participar dos almoços de domingo com a família."

As regras ficaram mais duras nesta terça também na Itália, que já está em quarentena total há oito dias. Os italianos terão que avisar se estão em autoisolamento ou se ainda não fizeram o teste para o coronavírus, sob pena de pegar até 12 anos de prisão por "participação culposa na epidemia", segundo o Ministério do Interior.

Quem sair de casa sem motivo justo pode pegar até três meses de prisão. Segundo jornais italianos, a polícia já intimou mais de mil lojas e quase 28 mil pessoas por desrespeito às restrições.