Boris obtém vitória ampla no Reino Unido e tem caminho livre para o brexit

ANA ESTELA DE SOUSA PINTO
*ARQUIVO* LONDRES, REINO UNIDO, 24.07.2019: Boris Johnson, discursa na Downing Street após assumir o cargo de premiê do Reino Unido, substituindo sua correligionária Theresa May, em Londres. (Foto: Romena Fogliati/Folhapress)

LONDRES, REINO UNIDO (FOLHAPRESS) - Faça-se o brexit! Foi essa a mensagem que os britânicos deram na eleição desta quinta-feira (12) ao garantir ao primeiro-ministro Boris Johnson a maioria das cadeiras do Parlamento.

Às 5h30 (horário do Brasil), com a apuração concluída em 649 distritos, o Partido Conservador, do qual Boris é líder, conquistara 364 cadeiras, mais que as 326 necessárias para aprovar suas políticas.

Os trabalhistas, que garantiam 203 assentos, ficaram com a sua menor bancada desde quando conquistaram apenas 154 cadeiras em 1935.

Com o resultado, o primeiro-ministro Boris Johnson continuará à frente do governo e deve aprovar com facilidade o divórcio entre o Reino Unido e a União Europeia até 31 de janeiro, como prometeu.

Boris falou sobre a vitória logo após às 7h (horário de Londres), dizendo que o brexit era "irrefutável, irresistível, uma decisão indiscutível do povo britânico". Acrescentou que os eleitores de regiões trabalhistas que deram seus votos aos conservadores não seriam decepcionados.

O presidente dos EUA, Donald Trump, congratulou Boris, afirmando que o Reino Unido e os EUA "agora estarão livres para firmar um maciço novo acordo comercial após o brexit. Este acordo pode ser muito maior e mais lucrativo do que qualquer acordo que possa ser feito com a União Europeia", escreveu o republicano em uma rede social.

Jair Bolsonaro também parabenizou Boris em uma rede social, chamando o resultado das eleições de "grande vitória" e afirmando que "Brasil e Reino Unido compartilham o apreço à auto-determinação e à soberania".

Considerada catastrófica, a derrota do Partido Trabalhista, liderado por Jeremy Corbyn, se deu principalmente em distritos do centro e do norte da Inglaterra, cidades de tradição industrial que eram território trabalhista, mas majoritariamente favoráveis ao brexit.

Um dos distritos que está sendo apontado como símbolo da virada no centro-norte inglês é Workington, que teve um representante trabalhista em 97 dos últimos 100 anos.

Desta vez, o candidato conservador venceu por uma diferença de 4.000 votos. "Workington man" é o apelido dado pela imprensa ao tipo de eleitor que Boris tentava conquistar nessa eleição: homens brancos mais velhos, da classe trabalhadora e a favor do brexit.

O partido de Boris também venceu no distrito leste de West Bromwich, onde os trabalhistas jamais haviam perdido. A conquista era chamada de "escalpo dos escalpos" pela mídia conservadora.

​Em entrevista na madrugada, o primeiro-ministro disse que o resultado demonstra legitimidade para que ele avance na retirada do Reino Unido da União Europeia.

Já o principal derrotado, o líder trabalhista Jeremy Corbyn, afirmou que não voltará a liderar seu partido em outras eleições, mas deve continuar no posto até que a agremiação discuta os rumos futuros. Na sexta, Corbyn afirmou que isto deve acontecer no começo de 2020, e que ele se afastará da liderança logo em seguida.

Vários fatores podem explicar a derrocada histórica dos trabalhistas, segundo cientistas políticos, e o principal deles pode ser o sucesso de Boris Johnson, diz Patrick Dunleavy, professor da LSE (London School of Economics).

"O acordo costurado por Boris Johnson não é muito diferente do proposto por sua antecessora, Theresa May, e apesar disso ele parece ter garantido um resultado avassalador em relação ao dela. Isso mostra que o carisma do primeiro-ministro teve papel fundamental nas eleições", afirma o cientista político.

Outro fator foi a batalha travada nas regiões centro-norte da Inglaterra, território tradicionalmente trabalhista, mas onde cerca de 70% dos eleitores votaram pelo brexit em 2016, afirma o pró-reitor de Pesquisa da LSE, Simon Hix.

A campanha de Boris, que repetiu à exaustão o slogan "Let´s get brexit done" (vamos resolver o brexit de uma vez), parece ter garantido a virada de votos na região industrial de Midlands, onde o primeiro-ministro passou os últimos dias antes da eleição.

Segundo Hix, o sucesso eleitoral do premiê deve garantir a ele hegemonia na política britânica "talvez não por cinco, mas pelos próximos dez anos".

Também parece ter sido um tiro pela culatra a campanha pelo voto útil, que tentou fazer liberais democratas votarem em trabalhistas e vice-versa nos distritos em que isso poderia tirar um conservador do Parlamento.

"As bases dos partidos são muito diferentes, seria difícil ocorrer essa transição", afirmou o especialista em pesquisas Joe Greenwood. Jo Swinson, líder do partido Liberal Democrata, sofreu também uma derrota pessoal ao não ser reeleita em seu distrito.

Outro motivo para a votação decepcionante dos trabalhistas é a rejeição a Corbyn, da ala mais radical do partido e defensor de um ideário socialista, entre os eleitores e até entre correligionários.

Para Tony Travers, diretor da escola de política pública da LSE, o resultado pode deixar ainda mais estridente a verdadeira "guerra civil" entre a ala mais ao centro e a esquerdista liderada por Corbyn.

Pesquisas recentes mostram que a maioria dos membros do partido é hoje "corbynista". Foi uma mudança nas regras internas que permitiu o voto de todos os filiados que o levou ao poder, contra políticos mais centristas.

As reações de políticos trabalhistas na noite de quinta já expunham os conflitos internos. Enquanto políticos do centro culpavam abertamente o líder trabalhista, a ala mais à esquerda atribuía responsabilidade ao brexit.

Quase invisível nas ruas de Londres, a campanha seguiu intensa até a última hora por meios menos públicos.

Nas seções eleitorais, representantes dos partidos conferiam a lista de quem havia comparecido e convocavam por telefone conhecidos que ainda não haviam votado.

A batalha foi acirrada também nas mídias sociais. A estimativa é que os dois principais partidos tenham gasto 2 milhões de libras (cerca de R$ 11 milhões) em anúncios no Facebook e no Instagram desde o final de novembro.

De terça-feira (10) até a manhã da quinta, a propaganda dos trabalhistas havia sido vista 4,9 milhões de vezes, contra 2,7 milhões dos anúncios conservadores, segundo dados das redes sociais.

Primeira a acontecer em dezembro desde 1923, esta foi a terceira eleição britânica em menos de cinco anos —período pelo qual deveria durar a legislatura.

O pleito anterior, em 2017, foi convocado para resolver impasse em relação ao brexit, mesmo motivo da votação atual.

Apesar do clima desfavorável —temperatura entre 4ºC e 8ºC, chuva e vento— e de o voto não ser obrigatório no Reino Unido, o comparecimento às urnas foi descrito como surpreendente.

Filas se formaram em várias seções ao longo da tarde e à noite, e a espera chegava a meia hora em alguma delas.

Eram 13 as pessoas que esperavam às 14h na fila de identificação da escola em que votou a enfermeira aposentada Marilyn Murray, 76.

Mesmo com dificuldades para caminhar por causa dos efeitos secundários de uma quimioterapia que lhe tiram o fôlego, Marilyn preferiu percorrer a pé os 300 metros que separam sua casa da escola primária em que votou (pelo sistema britânico, ela poderia ter recorrido ao correio).

Como cerca de 60% dos eleitores de seu distrito (Bethnal Green), Marilyn e sua neta, Savanah, 22, votaram nos trabalhistas.

A maioria dos britânicos com mais de 60 anos, porém, prefere os conservadores, segundo as pesquisas. Em Uxbridge, distrito por que concorre Boris Johnson, a aposentada Diana Luxton, 74, declarou não confiar inteiramente no primeiro-ministro, mas preferir seu partido ao dos opositores.

Enquanto os britânicos decidiam o destino da saída da União Europeia, líderes dos outros 27 países que formam o bloco se reuniam em Bruxelas, capital da UE, para um encontro de dois dias.

Após a divulgação da pesquisa de boca de urna, a nova presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou que a União Europeia está preparada para qualquer que seja o resultado das eleições.

Nesta sexta (13) os 27 líderes vão se reunir com Michel Barnier, negociador da UE para o brexit.

As principais promessas dos conservadores nesta eleição são apresentar o acordo de divórcio de Boris Johnson até o Natal, para cumprir a promessa de alcançar o brexit até o final de janeiro, destinar mais 20,5 bilhões de libras (cerca de R$ 112 bilhões) ao sistema público de saúde (NHS) nos próximos cinco anos e contratar mais 50 mil enfermeiros e 20 mil policiais na Inglaterra e no País de Gales.

Os conservadores também prometem implantar um sistema de imigração semelhante ao da Austrália, que atribui pontos para quesitos como idade, escolaridade, experiência e profissão. Na prática, isso deve dificultar a entrada de estrangeiros menos qualificados, a não ser para trabalhos sazonais, como nas épocas de colheita.

​​Boris também prometeu não elevar o Imposto de Renda, as contribuições previdenciárias e o imposto sobre consumo.

Além dos conservadores, outro vencedor da eleição desta quinta é o Partido Nacional Escocês (SNP), que conseguiu ampliar sua presença no Parlamento, com 48 distritos. O resultado aumenta a chance de um novo referendo pela independência da Escócia, algo a que Boris se opõe depois de país ter votado para ficar no Reino Unido no referendo de 2014.

A líder do partido, Nicola Sturgeon, disse que lhe foi conferido um mandato para oferecer aos escoceses a possibilidade de escolha. "Boris Johnson pode ter um mandato para tirar a Inglaterra da União Europeia. Ele enfaticamente não tem um mandato para tirar a Escócia da União Europeia. A Escócia deve ter uma escolha sobre o nosso próprio futuro."

A permanência na União Europeia foi um dos motivos que levaram os escoceses a continuar no Reino Unido no último referendo, e a pressão aumenta com a provável vitória ampla de Boris Johnson e o brexit.

Boris, no entanto, já afirmou que não permitirá uma nova votação sobre a independência escocesa.

Para o cientista político Patrick Dunleavy, da LSE, a probabilidade de um novo referendo dependerá do sucesso do SNP na votação para o Parlamento escocês, em maio de 2021.

Se eles repetirem o desempenho desta eleição, diz ele, será difícil para o primeiro-ministro britânico impedir a votação.


COMO FICARÁ O PARLAMENTO

- 364 deputados formarão a maior bancada conservadora na Câmara dos Comuns desde 1987, no governo de Margaret Thatcher;

- 66 vagas a mais do que têm hoje;

- 203 deputados vão compor a bancada trabalhista na Câmara dos Comuns, no pior resultado para a legenda desde 1935;

- 42 vagas a menos do que têm hoje;

- 48 dos 59 assentos em jogo na Escócia serão ocupados pela sigla local SNP.