'Botafogo será o próximo': o que alvinegros podem esperar da SAF após venda do Cruzeiro a Ronaldo

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A venda do Cruzeiro ao ídolo e ex-jogador Ronaldo Fenômeno, anunciada no último sábado, inaugurou uma nova era do futebol brasileiro. Movimentando-se simultaneamente a clubes como Botafogo e América-MG para alterar o seu futebol ao modelo de Sociedade Anônima do Futebol (SAF), o clube mineiro foi o pioneiro a encontrar um investidor disposto a assumir as operações — e entrar como solidário às dívidas. Agora, os torcedores do alvinegro carioca, animados por uma declaração de executivo da XP Investimentos, contam as horas para saber quando será sua vez.

“O Cruzeiro é só o primeiro. Muitas outras negociações semelhantes envolvendo os clubes brasileiros estão por vir. O Botafogo será o próximo, também assessorado pelo nosso Investment Banking”, afirmou José Berenguer, CEO da XP, banco que vem intermediando a venda das ações da SAF alvinegra.

Assim como aconteceu no Cruzeiro, a instituição não faz comentários públicos sobre interessados no processo de aquisição. Mas os cariocas têm uma situação um pouco mais avançada que o clube mineiro tinha até a última quinta-feira. O Botafogo já aprovou, em assembleia geral, a possibilidade de venda de até 100% de suas ações.

Na última sexta, os mineiros ampliaram o escopo de ações à venda de 49% para 90%, uma curva rumo às fatias majoritárias preferidas pelo mercado, segundo representante da própria XP.

Porém, o valor de R$ 400 milhões divulgado como o envolvido na negociação do clube celeste, em investimentos a serem feitos por Ronaldo, não pode ser utilizado como base para outras negociações, diz Eduardo Carlezzo, advogado especialista em direito desportivo:

— Cada clube tem um determinado montante de dívida, uma infraestrutura, um tamanho de torcida e uma capacidade de gerar receitas. Isso pesa na avaliação do valor da SAF e de quanto o investidor está disposto na colocar na operação.

Consultor do Itaú BBA, Cesar Grafietti explica que o valor não pode nem ser usado como uma espécie de precificação ao clube.

— Temos que ter cuidado. Ronaldo não pagou R$ 400 milhões pelo Cruzeiro. Na prática, ele recebeu o clube de graça e vai aportar R$ 400 milhões no seu ativo para recuperá-lo. E ainda lidar com uma dívida de R$ 1 bilhão ou algo perto disso.

Dívidas altas

Lidar com as cobranças será um desafio para os investidores que assumirem o Botafogo, que já tem dívida superior ao bilhão.

O clube aderiu ao Regime Centralizado de Execuções (RCE), um mecanismo proporcionado pela lei do clube-empresa que permite uma reorganização da ordem e parcelamento de pagamento de parte das dívidas. No caso da solicitação do alvinegro, mais de R$ 170 milhões em dívidas cíveis e administrativas.

— Os novos donos precisam colocar a operação de pé, então a primeira coisa a fazer é apagar incêndios, como atrasos e dívidas que a comprometem, como aquelas que resultam em sanções da FIFA. É o caminho natural em qualquer processo de aquisição de empresas em dificuldades— explica Grafietti, ressaltando que a ordem dos pagamentos pode até resultar em questionamentos dos credores.

O Vasco, com dívida de cerca de R$ 831 milhões, também aderiu ao RCE, mas segue longe de definição sobre constituir uma SAF. No fim de novembro, o presidente Jorge Salgado enviou carta aos Conselhos Deliberativo e de Beneméritos com pedido e justificativa para iniciar o processo de abertura da sociedade, sem especificar percentuais disponíveis aos “novos acionistas”. O processo ainda precisa de alteração estatutária e votação entre os sócios para seguir em frente.

Além de Botafogo e Cruzeiro, outros clubes avançam no tema. Já aprovaram a constituição de SAF América-MG e Cuiabá, que já é um clube-empresa desde sua fundação. O Atlético-GO é outro que segue com procedimentos internos adiantados para a conversão. Envolvido no projeto dos goianos, Carlezzo vê com otimismo a negociação do Cruzeiro:

— Tudo isto está, aos poucos, chegando aos ouvidos do investidor internacional e creio que com isso o Brasil passa a entrar no radar de uma forma efetiva.

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