'Boteiros': como agem os ladrões que roubam cargas de drogas de traficantes na Zona Sul do Rio

Rafael Soares
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O encontro foi marcado às 20h, num prédio de frente para a Praia de Copacabana. Os três homens aguardavam os visitantes na entrada — na mochila de um deles, com sotaque de fora da cidade, havia um quilo de skunk, uma derivação da maconha. Os dois compradores chegaram no horário combinado, numa caminhonete blindada. Na entrada do prédio, quando os visitantes foram convidados a entrar, um deles, de boné e máscara, sacou uma pistola e gritou: “Polícia!”. Dois dos vendedores correram para ruas próximas. O terceiro, com a mochila, se rendeu, entregou a droga e foi liberado em seguida.

Tratava-se da ação dos “boteiros” — numa referência à palavra “bote” —, como são conhecidos os integrantes de quadrilhas especializadas em roubar cargas de entorpecentes de alto padrão na Zona Sul. A ação aconteceu na última semana de setembro de 2020. E foi reconstituída pelo EXTRA com base em depoimentos dados à polícia tanto pelos donos do carregamento quanto pelos ladrões, dentro da investigação da Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense (DHBF) sobre outro crime: o assassinato do estudante de Farmácia da UFRJ Marcos Winícius Tomé Coelho de Lima, de 20 anos — morto em 8 de outubro do ano passado.

Segundo o inquérito, Marcos Winícius foi sequestrado e executado com quatro tiros porque era amigo dos “boteiros” e estava presente quando a venda da droga foi acertada, num encontro na Urca horas antes do roubo. Após o “bote”, os ladrões foram dividir o butim de R$ 40 mil num hotel de São Conrado. Na semana seguinte, fugiram para São Paulo — onde realizaram outros roubos, conforme dito em mensagens a amigos. Marcos Winícius ficou no Rio. Seu corpo foi encontrado em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, no dia 9. Os assassinos pensavam que ele integrava o bando.

O crime foi desvendado graças ao depoimento de um dos “boteiros”, um morador da Urca de 20 anos, amigo do estudante. Ele chegou a ser preso durante as investigações como suspeito do homicídio, mas foi solto ao revelar à polícia como se deu o “bote” e como agia a quadrilha, além de apontar as vítimas do roubo como responsáveis pelo homicídio. Segundo seu depoimento, a quadrilha também pratica golpes convencendo traficantes a entregar os entorpecentes mediante promessa de pagamento — que nunca é cumprida.

O grupo também criou uma estratégia para roubar dinheiro de traficantes que desejam comprar droga. Os integrantes anunciam o entorpecente pela internet e, no encontro com o comprador, entregam uma bolsa pesada, mas sem o produto. Antes que a carga seja examinada, uma falsa ação policial é encenada para que o pagamento seja levado.

O grupo só negocia drogas de alto padrão, como skunk, haxixe e uma variedade de maconha de qualidade superior apelidada de “Colômbia”.

O “boteiro” também explicou à polícia que o grupo tem membros que atuam “na inteligência”, com a função de encontrar novos traficantes sobre os quais aplicam os “botes”. Segundo ele, na maior parte das vezes, policiais militares que integram o grupo são os responsáveis por dar os “botes” — por vezes, até fardados.

A participação de PMs é relatada em outros depoimentos. Uma testemunha, que não faz parte da quadrilha, mas conhece integrantes, afirmou que os traficantes do bando só informam “para policiais que haverá uma compra de entorpecentes em determinado dia” para que os agentes possam dar o “bote” na carga. Mais de uma testemunha ouvida na DHBF afirmou que PMs integraram o “bote” que culminou no homicídio do estudante. Mas não são policiais os homens que um dos traficantes que tiveram a carga roubada reconheceu como os responsáveis pela abordagem. Em depoimento, a vítima do “bote” disse que a dupla que o abordou mencionou ter uma “equipe” na retaguarda, pronta para agir caso necessário.

Quatro homens acusados pelo homicídio de Marcos Winícius tiveram suas prisões decretadas pela Justiça: Denner Dias Barcia Alves, Jaul Carvalho Carneiro de Mendonça, José Ricardo dos Santos Pontes Junior, o Russão da Ilha, e Igor Moreira Dantas. Segundo o inquérito, Denner e Russão são dois dos que levaram o “bote” e mataram Marcos Winícius em represália. Com o inquérito sobre o homicídio finalizado, a DHBF abriu outra investigação que agora tem os “boteiros” como alvo.