Botijão de gás mais caro muda rotinas de famílias em todo o país

Preço do gás fez brasileiro buscar outras alternativas no fogão (FreeImages.com/dknudsen)
Preço do gás fez brasileiro buscar outras alternativas no fogão (FreeImages.com/dknudsen)

Por Mariana Janjácomo

Há dois meses, um fogão a lenha passou a fazer parte do dia a dia na casa do empresário João Charles Cardoso (54). O utensílio, um presente do primo de sua esposa, foi o meio que ele encontrou de economizar ao cozinhar para a família: com o casal, moram ainda dois filhos e uma neta, de dez anos de idade. “Todo mundo almoça e janta por aqui”, conta.

João diz que resolveu utilizar o fogão a lenha depois de encontrar botijões de gás à venda por 80 reais. “Não tem como”, afirma. “Diminuí bastante o uso e, agora, um botijão, que durava um mês, dura dois”. O empresário é morador de Rio Pomba, cidade de Minas Gerais com pouco mais de 18 mil pessoas. De acordo com a ANP (Associação Nacional de Petróleo), em maio, o custo médio do botijão de gás de 13 kg no estado mineiro foi de R$68,97 — na região, o valor máximo registrado foi de R$100.

No Brasil todo, a associação estima que, em maio, o preço médio do produto foi de R$66,96, o que significa um aumento de 17% em relação ao mesmo mês do ano anterior, em que o botijão de 13 kg custava, em média, R$ 57,20.

“O aumento se deu principalmente por causa da mudança na política de preços da Petrobras, que passou a atrelar os preços dos combustíveis diretamente às flutuações do barril de óleo bruto negociado no mercado internacional”, explica William Nozaki, cientista político e professor da FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo).

Nozaki esclarece que o conturbado cenário geopolítico atual, com as tensões na Síria e na Venezuela, países produtores de óleo, levaram à alta no preço do barril. Com a política de repasse desses valores, a alta acabou se refletindo em todo o Brasil.

Em busca de economia, cada vez mais brasileiros vêm adotando a saída encontrada por João Charles. Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostram que, em 2017, moradores de mais de 12 milhões de domicílios no país utilizaram lenha ou carvão para preparar alimentos. O número representa aumento de 1,5% em relação a 2016, quando pouco mais de 11 milhões de residências estavam nessa situação.

Enquanto isso, outras pessoas investem em um método ainda mais arriscado: tentam substituir o gás de cozinha por álcool. “A troca é extremamente perigosa e pode até mesmo levar à morte”, alerta Marcos Barretto, médico-chefe da Unidade de Tratamento de Queimados do Hospital da Restauração, em Recife, capital do estado de Pernambuco. Ele conta que 90% dos pacientes internados nesta unidade do hospital machucaram-se enquanto tentavam cozinhar com álcool. No total, são oito mulheres e 13 homens com queimaduras, que deram entrada no pronto-socorro entre a última semana de maio e os primeiros dias de junho.

Segundo Barretto, esses pacientes podem passar até três meses internados. Dependo do local onde aconteceram as lesões, talvez seja necessário fazer tratamentos fisioterápicos que levam até dois anos para a recuperação completa dos movimentos. “As queimaduras com álcool são graves porque, quando o combustível explode, gera lesões de terceiro grau, que não se regeneram espontaneamente, só com curativos”, esclarece o médico. “É preciso fazer cirurgias reparadoras.”

Além disso, Barretto destaca que as ações tomadas imediatamente depois dos acidentes são fundamentais para o sucesso da recuperação a longo prazo. Ele explica que o melhor a se fazer após uma queimadura é deixar o membro afetado debaixo de água corrente por cerca de vinte minutos, até aliviar a dor. Depois, é indicado colocar um pano limpo sobre a lesão e se dirigir a um hospital.

O médico informa que colocar elementos como pomadas ou pasta de dente em cima do machucado, e demorar para buscar atendimento são fatores que pioram ainda mais a situação. “Isso pode dar origem a inflamações e infecções que podem levar à morte”, completa.

Cleide Soares de Oliveira (23), é uma das pacientes internadas no hospital, sem previsão de alta, até o fechamento desta reportagem. Ela sofreu queimaduras nas coxas ao tentar ajudar a amiga, Aleksandra, que se queimou nas pernas, costas, nos braços e no pescoço ao tentar usar álcool para fazer o jantar.

“A gente achou que o fogo estava fraco, e que precisava colocar mais álcool. Nisso, explodiu tudo”, relata. Cleide lembra que a greve dos caminhoneiros ocorrida no fim de maio tornou o botijão de gás escasso na cidade, e diz que o produto estava à venda por R$150 — preço inviável para ela, que está desempregada, e para a amiga, que trabalha como cuidadora e tem uma filha de 12 anos.

Especialistas alertam para cuidado redobrado ao trocar gás por outras alternativas (FreeImages.com/GabriellaFabbri)
Especialistas alertam para cuidado redobrado ao trocar gás por outras alternativas (FreeImages.com/GabriellaFabbri)

Para não pagar esse mesmo valor pelo gás, o administrador Fábio Glad (40), morador de São José do Rio Preto, cidade do interior de São Paulo, investiu em uma panela de pressão elétrica. “Custou 300 reais, o que também não foi barato”, comenta. Ele, que cozinha alimentos para almoçar no trabalho, conta que a falta do gás prejudica sua alimentação. “Para dar tempo de fazer tudo, enquanto eu cozinho o feijão na panela elétrica, faço o arroz no micro-ondas e alguma mistura na fritadeira; andei comendo muitas frituras”, declara.

O nutrólogo Celso Cukier avisa que esse tipo de escolha traz riscos à saúde. “Procurando gastar menos, o brasileiro acaba optando por pratos de preparação mais rápida, como macarrão e carnes processadas, do tipo hambúrguer, salsicha e linguiça”, diz. Ele relata que as refeições compostas por esses alimentos são ricas em carboidratos, gorduras e sais. Em excesso, esses itens tornam-se inimigos de uma nutrição adequada. “É por isso que temos cada vez mais casos de obesidade em crianças e adultos”, conclui o nutrólogo.

Para o economista André Braz, coordenador do IPC (Índice de Preços ao Consumidor) do FGV IBRE (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas), o preço do gás traz impactos principalmente para as famílias mais pobres.

“Se uma família que ganha 900 reais por mês precisa gastar 90 em um botijão de gás, 10% do orçamento mensal já está comprometido por esse único item”, reflete.

De acordo com a Petrobras, o preço final do GLP (Gás Liquefeito de Petróleo) é definido pelo valor do produto nas refinarias, por tributos estaduais e federais, e pelos custos das distribuidoras e dos pontos de revenda.

O Sindigás (Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Gás Liquefeito de Petróleo) esclarece que o preço do GLP é livre e pode variar dependendo da região do país, por causa de fatores como custos de logística e transporte.

Em janeiro, a Petrobras anunciou que os reajustes do GLP de uso residencial deixariam de ser mensais e passariam a acontecer apenas a cada três meses. André Braz esclarece que a medida não deve servir para baixar os preços, mas, sim, para dar maior previsibilidade ao consumidor, que terá mais tempo para planejar o orçamento, sem sofrer os golpes dos reajustes mensais.

Dados da ABEGÁS (Associação Brasileira das Empresas Distribuidoras de Gás Canalizado) mostram que, dos 69,8 milhões de domicílios brasileiros estimados pelo IBGE, apenas 3.319.369 têm acesso ao gás natural encanado.

Para o cientista político William Nozaki, uma política de construção de dutos e de ampliação do acesso ao gás canalizado poderia diminuir a dependência da população em relação ao GLP. “Estamos falando de obras de infraestrutura que exigiriam volumes significativos de recursos, mas são totalmente viáveis para um país com as dimensões continentais do Brasil”, explica ele.

Nozaki ainda afirma que não tem visto a modernização do acesso ao gás como elemento central nos projetos que estão sendo apresentados pelos candidatos às eleições de 2018. O cientista político acredita que, talvez, os efeitos da greve dos caminhoneiros mudem esse cenário e coloquem o assunto em pauta.

“Por enquanto, só estamos vendo medidas paliativas, que podem gerar impactos negativos em outras áreas”, comenta. “Infelizmente, chegamos a uma situação em que o preço do gás se transformou em uma questão de segurança nacional e de saúde pública. O desafio do próximo governo será o de encontrar uma política energética e de preços que não transfira diretamente para o consumidor final todo o ônus das flutuações do mercado internacional”, conclui ele.

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