Botos-cinza são flagrados por pescadores na Baía de Guanabara

Gisele Barros

RIO - No último fim de semana, imagens de botos-cinza nadando nas águas da Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, foram compartilhadas por pescadores nas redes sociais. A espécie que faz parte até do brasão do município está ameaçada de extinção e não é mais vista circulando livremente com tanta frequência no local. Para especialistas, além de fatores naturais, as medidas restritivas impostas pela pandemia do novo coronavírus podem explicar a presença ilustre.

O ecologista Sérgio Ricardo Verde, membro-fundador do Movimento Baía Viva, que reúne profissionais e cidadãos que defendem a preservação da Baía, conta que o projeto tem recebido recentemente pelas redes sociais imagens de águas da Baía mais límpidas em diversos pontos, bem como a presença de biodiversidade marinha, como tartarugas-verdes e o botos-cinza. Além das marés oceânicas, ele conta que outros dois fatores podem explicar o cenário.

- O segundo fator é processo de hidrodinâmica da Baía de Guanabara. Estudos do geógrafo Elmo Amador, fundador do Baía Viva, comprovaram que há uma renovação periódica das águas da Baía. Aproximadamente a cada 15 dias, com a entrada da água do oceano, a Baía lança no mar parte dos poluentes presentes na água. O terceiro é que houve uma redução significativa de embarcações no local. Estima-se que cerca de 10 mil navios e rebocadores da indústria petroleira trafegam anualmente na Baía. Além do risco de vazamento de óleo, essas embarcações provocam um revolvimento no subsolo marinho, o que deixa a água turva, e os motores constantemente ligados causam uma poluição sonora que afasta vida marinha. Isso tudo explica as águas mais límpidas e a presença dos animais nesse momento - explica.

O programa de Mamíferos Aquáticos (MAQUA) da Universidade do Estado do Rio de janeiro (Uerj) aponta que a atual população de botos-cinza da Baía de Guanabara é a menor já registrada. Na década de 1990, existiam 800 animais da espécie nas águas da Guanabara e, atualmente, são apenas 28.

Segundo o coordenador do projeto e professor da Uerj, José Lailson Brito Junior, que acompanha a vida dos botos na Guanabara desde a década de 1990, poluentes de três tipos são os que mais influenciam na taxa de mortalidade da espécie. Os conjuntos de pesticidas, o bifenilo policlorado (óleo encontrado em capacitadores e transformadores de energia), e o hidrocarboneto policíclico aromático (presente em combustíveis, petróleo bruto e carvão) que atingem o ambiente marinho através de vazamentos são os mais críticos.

Para Lima, é importante que população e governantes aproveitem o período de pandemia para rever hábitos de consumo e políticas públicas que prejudicam o meio ambiente. Ele espera que a presença de animais não apenas na Baía como em diversos pontos da cidade, sensibilize mais pessoas em relação à causas ambientas.

- Ecologistas alertam há pelo menos 40 anos sobre a possibilidade de vivermos pandemias como essa. Todos esperamos que ao fim desse período ocorram mudanças profundas no modo de vida das pessoas. A população precisa se perguntar qual deve ser o uso da Baía de Guanabara. Um lar para animais, epaço de pesca, ou estacionamento de embarcações e repositório de poluentes? Precisamos de mudanças nessa visão econômica atual de um crescimento sem limites que vem devastando o planeta - alerta.