Boulos rebate França em sabatina, poupa Tatto e diz ver esquerda no 2º turno em SP

ARTUR RODRIGUES E JOELMIR TAVARES
·7 minuto de leitura
*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 29.10.2020 - O candidato do Psol à Prefeitura de São Paulo, Guilherme Boulos, faz café na cozinha de sua casa. (Foto:  Eduardo Knapp/Folhapress)
*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 29.10.2020 - O candidato do Psol à Prefeitura de São Paulo, Guilherme Boulos, faz café na cozinha de sua casa. (Foto: Eduardo Knapp/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Candidato do PSOL à Prefeitura de São Paulo, o líder de movimentos de moradia Guilherme Boulos rebateu ataques do adversário Márcio França (PSB) em sua participação na sabatina Folha de S.Paulo/UOL, nesta quarta-feira (4), e disse acreditar na ida de um nome de esquerda ao segundo turno na capital paulista.

Um dia antes, também na sabatina, o ex-governador criticou o postulante do PSOL, com quem está tecnicamente empatado em terceiro lugar no Datafolha. Ele sugeriu que a inexperiência de Boulos pode gerar "problemas contábeis" no governo e reavivou o embate de ambos sobre violência contra a mulher.

Na ocasião, França também disse se considerar progressista e negou ter afinidade com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), depois de ter ido ao encontro dele em agosto em um evento no litoral do estado.

Nesta quarta, Boulos repetiu que o postulante do PSB não tem posição clara e questionou sua ideologia. "Ele precisa ter lado. Ele foi vice do [Geraldo] Alckmin, apoiou o [João] Doria em 2016, depois foi correr atrás do [Jair] Bolsonaro, não deu certo, começou a dizer que é progressista de novo. Não pode existir esquerda de ocasião, esquerda de conveniência."

"Eu vi ele me atacando ontem [terça-feira] na sabatina inteira, eu fiquei impressionado, defendendo o Bolsonaro", reclamou, afirmando que "o cara [deve] estar desesperado por não ter as intenções de voto que queria". Boulos tem 14% e França, 10% na mais recente pesquisa Datafolha.

O candidato do PSOL disse que a tradição de um nome da esquerda chegar ao segundo turno na capital deve se manter neste ano e propagandeou que a sua candidatura é a que tem mais condições de derrotar o candidato à reeleição, Bruno Covas (PSDB), e o deputado federal Celso Russomanno (Republicanos).

Os dois, que hoje ocupam as primeiras posições nas pesquisas, têm como padrinhos, respectivamente, o governador João Doria (PSDB) e Bolsonaro.

"A esquerda na história da cidade sempre ou ganhou a eleição ou ficou em segundo lugar. Eu acho que caminha para isso novamente, caminha para que a gente possa construir uma virada na reta final", afirmou Boulos.

"Nossa candidatura tem se mostrado a que tem melhores condições de combater essa tragédia do 'BolsoDoria', de evitar uma dobradinha entre tucanos e o candidato do Bolsonaro no segundo turno."

Boulos manteve a posição de não agressão em relação ao candidato do PT, Jilmar Tatto, com quem disputa espaço na esquerda. Questionado sobre a possibilidade de união dos dois partidos, disse que sempre trabalhou em nome do entendimento e foi cordial ao falar do petista.

Segundo ele, não há conversas para que Tatto (com 4% de intenções de voto, segundo o Datafolha) abra mão da candidatura e o apoie com o objetivo de evitar um segundo turno entre Covas e Russomanno.

"Nós estamos abertos a todas as formas de diálogo, de conversa, para construir unidade", disse, citando momentos em que esteve do mesmo lado do PT, como na resistência ao impeachment da presidente Dilma Rousseff.

"Meus adversários nessa campanha são muito claros. Não é o Jilmar Tatto, não são outros que se colocam no campo da esquerda. Meus adversários são o que a gente tem chamado de 'BolsoDoria', que é quem representa o atraso na cidade de São Paulo", acrescentou.

Ele também incluiu no grupo França, descrevendo-o como o "candidato do Alckmin" —embora o ex-governador tucano esteja apoiando oficialmente o nome de seu partido, Covas.

Para Boulos, o PSDB governa "de costas para a periferia", "só para os Jardins" e "não governa para o Itaim Paulista". Já Russomanno foi definido por ele como representante de um projeto de autoritarismo que poderia se enraizar também na cidade de São Paulo.

Boulos se referiu à sua experiência em movimentos sociais ao falar de como será sua relação com a Câmara Municipal, caso eleito. Ele propõe implementar um modelo de orçamento participativo, com consulta à população, descrito como "um projeto ousado de descentralização do poder".

Em sua visão, o formato tornará mais fácil a tramitação dos projetos do Executivo. "Se as pessoas participam de um processo de deliberação, quando eu mandar um projeto para a Câmara, ele não vai ser só meu. E obviamente os vereadores vão levar isso em conta."

O PSOL tem hoje 2 cadeiras no Legislativo municipal, do total de 55. Boulos disse esperar que não só sua legenda, mas todos os partidos de esquerda ampliem a presença na Casa a partir de 2021. Conforme publicou a Folha de S.Paulo, várias propostas dele esbarram na aprovação da Câmara para serem cumpridas.

Segundo o candidato, em um eventual mandato seu, ele se recusará a fazer acordos espúrios com vereadores. "Eu não aceito fazer toma lá, dá cá para governabilidade. Nós vamos fazer diálogo. Nem sempre o prefeito consegue tudo o que quer. Na democracia você tem que mediar posições."

"Política também se faz com diálogo. Eu não sou o Jair Bolsonaro, que briga com os ministros, briga com o presidente da Câmara [dos Deputados], quer prender ministro do Supremo, quer botar Exército na porta do Supremo. Não é assim que eu entendo a relação democrática entre os Poderes", afirmou Boulos.

Uma das promessas de seu plano de governo é a elevação da alíquota de IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano) para o que chama de mansões. O documento não define quais são os critérios para definir uma mansão. Questionado sobre o tema na sabatina, ele também não explicou o parâmetro.

"Essa medida é muito mais pedagógica do que econômica. Não creio que ela vá trazer um grande caixa, um grande orçamento", afirmou ele, que prega um governo pautado no combate à desigualdade, em uma política tributária progressiva e na prioridade para os mais pobres e a periferia.

"Eu não vou fazer aumento de IPTU na cidade, nós vamos corrigir distorções, de gente que mora em grandes mansões e não paga o IPTU proporcional a isso", prometeu.

O candidato do PSOL afirmou que a volta às aulas, tema central agora que o pior da pandemia de Covid-19 já passou na capital, não pode ser partidarizada e que é a favor do retorno apenas quando houver segurança para isso, sem especificar quais seriam os critérios.

Boulos disse que ficou preocupado com a pressão de setores econômicos para a abertura precoce de alguns espaços. "Sou professor e sou pai. Defendo que o retorno às aulas deva acontecer quando houver segurança para isso."

"Eu, como prefeito, vou ouvir os epidemiologistas, os infectologistas, para definir um momento que seja seguro para voltar às aulas", afirmou.

Apesar da preocupação com a pandemia, ele admitiu que houve aglomeração durante um comício de sua campanha no último fim de semana, o que contraria as orientações de distanciamento entre as pessoas. "Teve um público muito maior do que a gente tinha imaginado e previsto", justificou.

Questionado sobre críticas de apoiadores a reportagens negativas sobre a candidatura, Boulos voltou a questionar reportagem da Folha de S.Paulo sobre a omissão da conta corrente com saldo de R$ 579,53 na prestação de contas dele à Justiça Eleitoral.

"Nunca destratei um jornalista. Bolsonaro faz isso todo dia no cercadinho do Alvorada. Eu nunca tratei a imprensa em bloco como inimiga. Agora, eu, como qualquer cidadão, tenho o direito de questionar algumas abordagens que a imprensa faz", disse, defendendo a imprensa livre e a liberdade de expressão.

Segundo ele, o título da Folha de S.Paulo induzia a erro. "A própria ombudsman reconheceu isso e publicou um artigo no jornal. Eu também não posso ser alvo de uma manchete que não foi correta, não foi honesta naquele momento, e me calar porque isso significaria afrontar a imprensa."

Boulos é coordenador do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) e da Frente Povo Sem Medo. Foi candidato à Presidência da República pelo PSOL em 2018, mas não passou ao segundo turno.