Bráulio Bessa: 'Parte do nosso povo tem um problema que é gostar de famoso e não de artista'

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O poeta Bráulio Bessa escreveu, certa vez, que “quem menos tem, mais divide”. O significado real da frase, no entanto, ele entendeu em meados deste ano, quando gravou a série documental “Poesia que transforma”, com estreia na próxima quarta-feira no Globoplay. Ele e a equipe foram para a reserva ambiental do Amanã, próxima à confluência dos rios Solimões e Japurá, no Amazonas, para conhecer o trabalho do professor Alex Alves, que usa a poesia popular de Bráulio nas salas de aula improvisadas na comunidade.

— Ficamos três dias lá (no meio da Floresta Amazônica), e pude sair de uma bolha. E olha que sou um brasileiro do sertão do Ceará e mesmo assim estou falando “sair de uma bolha” — diz o escritor, de 35 anos. —Encostamos o barco e imediatamente todo mundo já chegou para ajudar a descarregar, levar equipamentos, nos instalar. Foi uma das experiências mais bonitas da minha vida.

A poesia do cearense de Alto Santo inspirou Alex, que virou poeta também e, por sua vez, transforma a vida das várias crianças que assistem às aulas que ele dá mesmo com o tão pouco suporte do Estado. E é exatamente esse círculo virtuoso de Bráulio impactando histórias de vida e sendo impactado por outras tantas que a série apresenta. São cinco episódios, com os temas raízes, amor, igualdade, fé e recomeço, todos bastante recorrentes na obra do escritor.

A ideia da série documental veio a partir do rico material enviado pelos telespectadores do programa “Encontro com Fátima Bernardes”, que projetou a figura de Bráulio nacionalmente no quadro “Poesia com rapadura”.

— Eu trabalhava no CAT (Central de Atendimento ao Telespectador) e comecei a perceber que chegava uma enxurrada de mensagens sobre ele, falando do carisma, da simplicidade, e de como a poesia dele havia impactado a vida das pessoas de forma concreta — diz Duda Martins, que idealizou a projeto e o dirigiu em parceria com Chico Walcacer. — Ficava chocada com a força dos relatos e comecei a coletar as histórias. Bráulio ficou cabreiro, falava que não queria um documentário sobre ele. Mas eu dizia: “Não é sobre você, é sobre sua poesia”.

A equipe precisou até fazer reunião especial para convencê-lo a se deixar filmar com os personagens, algo que o artista tinha medo de soar sensacionalista.

— Sabíamos que emoção, até certo ponto, era inevitável. Mas não queríamos comoção e tietagem, e sim humanidade — diz Chico.

O cabra é pop

A potência do trabalho de Bráulio não é medida apenas pelo CAT. Segundo a editora Sextante, os livros “Poesia que transforma” (2018) e “Um carinho na alma” (2019) já venderam, somados, mais de 480 mil exemplares, um número impressionante para o gênero. Na Bienal do Livro, que chegou ao fim na semana passada, ele esteve na mesa de abertura, ao lado do também poeta Allan Dias Castro e da cantora Priscilla Alcantara. No Instagram, tem 4,6 milhões de seguidores; no Twitter, 157 mil.

O começo deste sucesso tem dez anos, quando criou a página “Nação nordestina” no Facebook. O perfil foi ganhando lastro pelas redes, até que chamou a atenção do programa matinal da TV Globo em 2015. Seu nome, então, explodiu — e também a poesia popular e a literatura de cordel. Mas Bráulio ainda não está satisfeito com o espaço destinado ao gênero.

—Acho que grande parte do nosso povo tem um problema que é gostar de famoso e não de artista. Digo isso com muita tranquilidade porque estive exatamente nos dois lugares. Sofri por muito tempo uma invisibilidade que a maioria dos artistas populares desse país sofre. Fazer poesia no Brasil, numa cidade do interior do Ceará, é muito complicado. Ao mesmo tempo, também segurei um microfone toda sexta-feira na maior emissora de TV do país e vi minha vida se transformar — diz ele. —Muita gente fala dessa força que a poesia ganhou depois que comecei a fazer TV, mas a luta continua.

Passado e futuro

Nesse esforço, ele dá as mãos a jovens como Quitéria Teixeira, uma poeta de 12 anos, do Rio Grande do Norte, que aparece no primeiro episódio. Ela busca inspiração no trabalho de Bráulio, assim como ele bebeu na fonte de Patativa do Assaré, quando tinha 14, quase a mesma idade da menina potiguar.

Braúlio relembra quando, numa aula sobre poesia, cada aluno recebeu textos diversos para ler. Teve Carlos Drummond de Andrade para um, Manoel Bandeira para outro... Para ele, veio algo do conterrâneo Antônio Gonçalves da Silva, o Patativa do Assaré, seu grande mestre, a quem reservou um espaço do braço esquerdo. Na pele, ele tatuou os versos “Eu sou de uma terra que o povo padece. Mas não esmorece e procura vencer. Da terra querida, que a linda cabocla. De riso na boca zomba no sofrer. Não nego meu sangue, não nego meu nome. Olho para a fome, pergunto o que há? Eu sou brasileiro, filho do Nordeste. Sou cabra da peste, sou do Ceará”.

—Gosto muito de tatuagem. Acho que tenho umas 20. E tatuar um poema de Patativa, além de ser uma homenagem, era para ter essa marca da poesia fora de mim. E isso gera curiosidade. A pessoa olha, e eu falo: “Isso é Patativa do Assaré, conhece?” Aí, declamo o poema — diz o escritor, que também o homenageou no primeiro episódio com uma visita à filha dele. — Fiquei muito feliz em poder ir a Assaré e mostrar essa história. Se era para falar de raízes, as minhas raízes poéticas estão lá.

Como fé também estava na pauta, não deu para deixar de fora a ligação desse assunto com a pandemia. Até porque, em maio, com o projeto em andamento, Bráulio contraiu Covid-19 e foi internado na UTI de um hospital em Fortaleza, cidade onde mora.

— Minha primeira refeição chegou numa marmitinha, cuja tampa tinha um poema sobre esperança, que não era meu. Na hora me deu até fome. Alimentei o bucho e a alma com aquele gesto — relembra.

Transformação

Hoje a tampa da marmita está no escritório do poeta. Em casa, ele descobriu que os versos eram de Allan Dias Castro, seu colega de mesa na Bienal.

— No evento, contei essa história, e Allan ficou muito emocionado. Eu meio que me acostumei a ouvir as pessoas dizerem que a minha arte transforma a vida delas. De repente, espera aí! Eu também estou aqui para ser transformado ainda, não é?

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