Braga Netto acena a mulheres e abraça pauta conservadora em 1ª viagem solo na campanha

*Arquivo* BRASÍLIA, DF, 31.03.2021 - O general Walter Braga Netto durante evento em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
*Arquivo* BRASÍLIA, DF, 31.03.2021 - O general Walter Braga Netto durante evento em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

SINOP E SORRISO, MT (FOLHAPRESS) - Em viagem para tentar consolidar alianças com o agronegócio em Mato Grosso, o general Walter Braga Netto (PL), candidato a vice na chapa do presidente Jair Bolsonaro (PL), fez acenos ao eleitorado feminino, foi recebido por pastores e abraçou a pauta conservadora.

Ainda que a ida do general a Sinop e Sorriso tenha mobilizado menos pessoas do que o esperado pelos organizadores, líderes ruralistas dizem que o general passou o recado que o setor queria ouvir: que o agronegócio é uma prioridade para Bolsonaro, assim como os investimentos em infraestrutura para escoamento da safra.

Mato Grosso foi a primeira agenda de Braga Netto fora de São Paulo e Rio de Janeiro desde o início do período eleitoral. Ele tem despachado de Brasília, sede da campanha à reeleição de Bolsonaro.

Foram nove compromissos em um único dia em Sinop e Sorriso, no norte de Mato Grosso, região de forte presença agropecuária e onde diferentes políticos locais disputam o capital eleitoral do bolsonarismo.

Os encontros e eventos do general foram acompanhados por líderes e candidatos a diferentes cargos no estado, entre eles o vice-governador, Otaviano Pivetta (Republicanos).

O objetivo da viagem foi se apresentar ao eleitorado e ouvir as demandas do setor. Houve um reduzido esquema de segurança para a comitiva, que viajou em voo comercial.

Nas conversas, que tiveram clima mais formal do que agendas de Bolsonaro, o candidato a vice buscou adotar tom mais descontraído, ao falar sobre futebol (ele é mineiro e torce para o Cruzeiro) e ao contar histórias e experiências da carreira militar (ele diz conhecer bem a Amazônia e morou em países como Polônia, Timor Leste e Estados Unidos).

Mas o que mais empolga nos redutos bolsonaristas é a pauta conservadora, incorporada por Braga Netto durante a viagem.

"Os senhores têm que pensar o seguinte: o que eu quero para a minha família? Eu quero que meu neto tenha a oportunidade de crescer o que eu já tenho, de não ter ideologia de gênero na escola, de não ser agnóstico, de ensinar para ele sobre Deus?", disse Braga Netto, em meio a uma apresentação sobre os planos de governo da chapa.

Antes de alguns discursos, ele chamou jovens e crianças para o palco, reforçando a imagem de que Bolsonaro prioriza a família.

Apesar de o ambiente ser dominado por homens, o general deu destaque para planos de interesse de mulheres -o eleitorado feminino tem sido uma das preocupações de aliados de Bolsonaro.

"Então educação básica é uma de nossas prioridades. Quem aqui tem filho? Nós vamos investir em creches para que mais mulheres possam trabalhar", afirmou ele, olhando em direção a funcionárias de um frigorífico.

Com pouca vivência política nas ruas e sem ter disputado eleições no passado, a interação com o público colocou em evidência as principais diferenças de perfil entre Bolsonaro e Braga Netto.

O candidato a vice pediu que as pessoas evitassem gravar algumas de suas palestras. Também disse que prefere tirar selfies com apoiadores em vez de gravar vídeos.

O general foi interventor na segurança pública do Rio de Janeiro e ministro da Defesa e da Casa Civil. Nesta semana, ele inaugurou uma conta no Twitter com uma curta biografia, num esforço de ficar mais conhecido fora da base fiel do bolsonarismo.

Ele não é unanimidade entre aliados de Bolsonaro.

Integrantes de partidos do centrão defendiam que a ex-ministra da Agricultura Tereza Cristina (PP) fosse escolhida como candidata a vice na chapa. Eles argumentavam que ela já tinha experiência política, é conhecida entre os ruralistas e poderia auxiliar a reduzir a rejeição junto ao eleitorado feminino.

Com Braga Netto oficializado, a estratégia da campanha é que o general tenha como prioridade a busca por votos no Sudeste e em segmentos como ruralistas, jovens, mulheres e católicos.

Para tentar ampliar o apoio de setores ligados ao agro, Braga Netto visitou Mato Grosso acompanhado do secretário de Assuntos Fundiários do Ministério da Agricultura, Luiz Antonio Nabhan Garcia.

"Explica aí a importância da Casa Civil e o que ela faz, que ela coordena todos os outros ministérios", disse Nabhan, ao sugerir que o general desse detalhes das atividades da pasta durante uma das visitas a agroindústrias mato-grossenses.

Apesar de não ser especializado na área rural, o general domina temas que agradam o setor. Ao falar sobre obras, ele prometeu se empenhar pela Ferrogrão (projeto de ferrovia do Mato Grosso ao Pará) e na duplicação de rodovias para escoamento da safra.

Questões como religião, agenda de costumes e segurança pública também foram usadas pelo vice de Bolsonaro. "Alguns valores são inegociáveis: Deus, pátria, família, vida e liberdade", repetiu ao menos em quatro momentos diferentes.

"Temos que ter foco nos nossos direitos, por exemplo, no direito de ter uma arma", declarou em outra ocasião.

Antes de falar sobre planos de governo, líderes evangélicos e católicos fizeram uma oração.

"Que ele [Braga Netto] jamais venha a ceder ao pensamento marxista, que destrói e mata crianças no ventre. [...] Que ele seja libertador e que, junto com nosso presidente Bolsonaro, eles possam, aliançados e alicerçados da Tua palavra, governar com justiça a nação brasileira. Assim nós o abençoamos em nome do Senhor Jesus", disse o presidente do conselho de pastores de Sorriso, João Marçal.

De perfis conservadores, os segmentos evangélico e ruralista formam o núcleo duro da base de apoio de Bolsonaro.

O senador Wellington Fagundes (PL), candidato à reeleição, participou da articulação para a viagem de Braga Netto a Mato Grosso junto com Nabhan e o presidente do Sindicato Rural de Sinop, Ilson José Redivo.

"Essa região será a região onde Bolsonaro terá a maior votação proporcional do Brasil. Tenho certeza disso", disse Fagundes, que recebeu, antes do período eleitoral, o apoio de Bolsonaro para concorrer novamente ao Senado.

Para Redivo, a ida de Braga Netto, ainda que com caráter mais formal que uma visita de Bolsonaro, representa a preocupação da chapa com a região. "Um equilibra o outro", avaliou o presidente do sindicato rural sobre as diferenças entre os perfis de Bolsonaro e do general.

O PT tenta reduzir a vantagem de Bolsonaro no segmento ruralista. Para isso, Lula conta com a ajuda de um grupo de parlamentares do Mato Grosso e da família Maggi, inclusive do ex-ministro Blairo Maggi.

Candidato a vice na chapa de Lula, o ex-governador Geraldo Alckmin (PSB) pretende visitar o estado para encontros com líderes do agronegócio. No entanto, a viagem segue sem data prevista.

A campanha de Bolsonaro, por outro lado, decidiu partir logo para o estreitamento de laços com a região, e tentar fazer Braga Netto mais conhecido no meio rural e político. Em 2018, Bolsonaro obteve 66,42% dos votos em Mato Grosso no segundo turno.