Brancos concentram maior número de bolsas na pós-graduação da USP, aponta estudo

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People demonstrate during a strike organized by the National Students Union (UNE) in Sao Paulo, Brazil on May 15, 2019. - Students and teachers from hundreds of universities and colleges across Brazil began a nationwide demonstration on Wednesday in 'defense of education' following a raft of budget cuts announced by President Jair Bolsonaro's government. (Photo by NELSON ALMEIDA / AFP)        (Photo credit should read NELSON ALMEIDA/AFP/Getty Images)
Manifestação de estudantes em São Paulo em 2019 por investimentos na educação e na ciência. Foto: NELSON ALMEIDA/AFP/Getty Images.
  • Pós-graduação da maior universidade do país é majoritariamente branca

  • Levantamento buscou traçar realidade de pós-graduandos durante pandemia de covid-19

  • Autores chamam atenção também para questão da saúde mental

Uma pesquisa desenvolvida por um grupo de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) revelou que, durante a pandemia de covid-19, a maioria das bolsas de pesquisa destinadas à pós-graduação estavam nas mãos de pessoas autodeclaradas brancas.

O levantamento "Comunidade Pós-graduanda da Universidade de São Paulo frente à Pandemia de COVID-19 em 2020" buscou entender a realidade enfrentada por pesquisadores matriculados nos programas de mestrado, doutorado e pós-doutorado da USP durante a pandemia e com a suspensão de aula e atividades presenciais.

Segundo a pesquisa, que foi respondida por 843 pós-graduandos de diferentes campi, dos entrevistados que declararam raça/cor, 72% eram brancos, enquanto apenas 28% eram pessoas pretas, pardas ou indígenas (PPI).

Além da discrepância na representação de diferentes grupos na Universidade, o levantamento também mostrou que o maior número de brancos leva também à concentração de um maior número de bolsas nas mãos desses pós-graduandos.

Em toda a Universidade, cerca de 34% dos pesquisadores realizam suas atividades sem bolsa de pesquisa. Para os autores do estudo, isso é preocupante pois esse é “considerado principal meio de subsistência destes profissionais da ciência que realizam jornadas integrais de trabalho para o desenvolvimento dos projetos de pesquisa”.

Dos entrevistados que se autodeclararam brancos, 67,3% recebem bolsa. Já entre os autodeclarados pardos, são 76,3%, entre os pretos, são 59,1% e entre os indígenas, 100%.

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As porcentagens, no entanto, escondem a realidade da Universidade, afirmam os pesquisadores.

“É uma correlação direta que a gente chama. Quanto maior a quantidade de pessoas dentro de um recorte de autodeclaração [de raça/cor], maior vai ser a quantidade de bolsas que esse grupo vai receber", explicam. "Ou seja, pela pós-graduação ainda ser branca, está ainda se concentrando maior número de bolsas nas pessoas brancas. Como nós temos poucos pretos, poucos pretos recebem bolsa".

A situação é mais preocupante em um cenário de perda de financiamento para a pesquisa, ciência e educação no país. Os pesquisadores defendem que “pós-graduandos de todo Brasil precisam e devem ser valorizados, financiados e respeitados, pois representam parte vital para o desenvolvimento de toda a sociedade, ainda mais na atual conjuntura da pandemia de covid-19, uma vez que além dos cortes de orçamento, enfrentamos uma onda negacionista e de ataque à ciência”.

A saúde mental na pós-graduação

Uma avaliação importante realizada pelo relatório foi em relação ao impacto da pandemia na saúde mental dos pós-graduandos. Uma pesquisa divulgada em 2018 pela revista Nature Biotechnology apontou que 39% dos pós-graduandos têm sintomas de depressão e ansiedade, contra 6% da população geral.

Na USP, os pesquisadores alertam para a crise de saúde mental vivida pelos estudantes de pós-graduação. “Falar sobre saúde mental no ambiente universitário se tornou ainda mais necessário e urgente durante a pandemia”, apontam.

“É muito comum ouvir histórias de colegas que tiveram depressão, crises de pânico, entraram em situações extremamente complicadas envolvendo álcool e outras drogas. Por muito tempo, a saúde mental das(os) pós-graduandas(os) foi ignorada ou nem sequer lembrada”, denunciam os pesquisadores, que são mestrandos e doutorandos da USP.

Uma das questões que tem relação direta com a experiência do pós-graduando na Universidade é a relação com seu orientador. Na pesquisa, 74 entrevistados sugeriram que já sofreram algum tipo de abuso por parte do orientador.

“Essa é uma questão grave, havendo necessidade de atenção dos dirigentes quanto à medidas de prevenção e combate ao assédio, uma vez que uma relação saudável entre o orientador(a) e seus alunos(as) é crucial dentro do contexto da pós-graduação”, declararam os pesquisadores.

Os autores do relatório resumiram os problemas apontados pelos pós-graduandos como os principais no que concerne a saúde mental.

“A ausência de bolsas de estudos, os oito anos sem reajuste nos benefícios, a falta de perspectivas de empregabilidade, as relações conflituosas da academia, além de violências em decorrência de assédios em suas diversas dimensões”.

Durante a pandemia, conforme a pesquisa levantou, pós-graduandos de todas as áreas do conhecimento afirmaram que sentiram impacto na saúde mental. O número de estudantes que responderam que sofreram com questões relacionadas à saúde mental nos últimos dois anos ficou acima de 80% entre todas as áreas de pesquisa.

Retorno às aulas presenciais

No dia 19 de agosto, a Reitoria da USP anunciou o Plano USP para o retorno gradual das atividades presenciais. O documento define protocolos, oferece recomendações e apresenta orientações aos gestores e aos membros da comunidade universitária para a viabilização progressiva das atividades acadêmicas e administrativas. A USP havia suspendido as atividades no dia 17 de março de 2020 por conta da pandemia.

O retorno é criticado por diversos membros da comunidade uspiana e acadêmica em geral, que acreditam que não há condições reais de segurança sanitária para o retorno.

Entre os estudantes das áreas de Ciências Biológicas e da Saúde e da Engenharia, 53,3% acreditam que não há condições de biossegurança para o retorno presencial. Já entre os estudantes de Ciências Humanas, Sociais Aplicadas, Linguística, Letras e Artes essa taca sobe para 68,9%.

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