Brandon Flowers: ‘É estranho ver as pessoas tão nostálgicas em relação ao começo dos anos 2000’

Em 2023, completam-se 20 anos que uma banda americana, de Las Vegas, assinou contrato com um selo fonográfico inglês e teve sua primeira música, “Mr. Brightside”, tocada no programa do DJ Zane Lowe na Radio 1 da BBC. Em pouco mais de um ano, os Killers se tornariam um dos maiores sucessos do rock mundial, com o álbum “Hot fuss” (2004), que escalou as paradas de sucesso com “Brightside” e com outras músicas repletas de teclados, guitarras e emoção, como “Somebody told me” e “All these things that I’ve done”.

De repente, eles se juntavam ali, em 2004, aos nova-iorquinos Strokes numa onda de novas bandas que soavam, ao mesmo tempo, frescas e muito influenciadas pelo rock alternativo inglês e americano dos anos 1980. Uma turma que, passados 18 anos, acabou virando, ela mesma, objeto de revival.

— A gente sabia que os Killers eram vistos com um pouco de suspeita naquela época (por serem revivalistas), mas por sorte conseguimos passar por tudo isso. Fizemos um trabalho do qual nos orgulhamos e seguimos trabalhando. É estranho ver as pessoas tão nostálgicas em relação ao começo dos anos 2000, não parece que passou tanto tempo assim. Acho que ainda é meio cedo para ser nostálgico! — defende Brandon Flowers, cantor, tecladista, compositor e líder dos Killers, em entrevista por Zoom.

Há mais de década, o grupo entrou para o seleto time de estrelas do rock (geralmente mais velhas que eles) capazes de lotar arenas ao longo do mundo. Algo do qual seus integrantes foram privados (assim como todos) durante a pandemia de Covid-19, mas ao qual retornaram este ano, com o repertório de nada menos que dois álbuns: “Imploding the mirage” (2020) e “Pressure machine” (2021).

Formação flutuante

Conhecidos dos palcos brasileiros desde 2007, quando estrearam num Tim Festival, os Killers voltam agora para dois shows: nos próximos dias 12 (No Allianz Park, em São Paulo) e 14 (no Estádio Mané Garrincha, em Brasília).

— “Pressure machine”, é um disco mais intimista, com canções que não foram feitas para festivais e estádios. Talvez toquemos uma ou duas canções dele. Para nós, essa é, na verdade, a turnê do “Imploding the mirage”, o disco que saiu bem no meio da pandemia. As músicas dele foram compostas tendo mais em mente a ideia da banda de shows que somos— esclarece Flowers.

Para ele, hoje em dia, o alto nível de energia do show dos Killers é resultado do equilíbrio, no set list, entre as músicas antigas e as novas:

— Acho bem boa a forma a que conseguimos chegar nessa turnê. As pessoas ficaram muito tempo trancadas em casa... não sei se estamos tocando melhor ou se as pessoas estão mesmo é felizes de poder sair! Até agora, essa é a melhor turnê que já fizemos!

Na teoria, o Killers conserva em 2022 a formação do primeiro álbum: Brandon Flowers, Ronnie Vannucci Jr. (bateria), Dave Keuning (guitarra e backing vocals) e Mark Stoermer (baixo e backing vocals). Stoermer se afastou dos shows em 2016 e só eventualmente participa dos discos. Já segundo o líder, Keuning “vai e volta” da banda (e não estará no Brasil).

— Acho que essa é a única maneira que temos para que a coisa funcione sem que a banda se desfaça — diz Flowers. — Somos quatro pessoas diferentes, e manter todas elas felizes é bem complicado. Muitos casamentos terminam, e as bandas não duram muito tempo, mas a gente está sempre pensando em arranjos que permitam seguir em frente. Até aqui tem funcionado!

No começo do mês passado, a turnê contou com a injeção de energia de um convidado muito especial: Bruce Springsteen, com quem os Killers tinham gravado em 2021 uma nova versão da canção “Dustland”. Ele se juntou ao time em Nova York, no Madison Square Garden, para um bis com as suas “Born to run” and “Badlands” e a “Badlands” do grupo. O encontro foi puro êxtase para Brandon Flowers.

— É difícil de exprimir em palavras, a música do Bruce mudou a minha vida lá pelos meus 25 anos de idade. Porque você geralmente se apaixona pela música pela primeira vez quando tem 13 anos, o que aconteceu comigo e foi uma paixão concentrada nas bandas inglesas. As coisas que elas diziam tinham uma ressonância na minha cabeça, mas eram uma fantasia. E aí aos 25 eu tivesse um renascimento, quando me apaixonei pela música americana, começando por Bruce Springsteen. De repente, eu sabia exatamente sobre o que ele estava cantando — conta ele. — Sob essa nova lente, uma porta se abriu. E eu não a fechei, porque quero ser um artista autêntico. À medida em que você vai ficando mais velho, é imprescindível ser verdadeiro consigo mesmo. Devo muito disso ao Bruce. Poder conhecê-lo um pouco mais e agora ficar cara a cara com ele e cantar algumas músicas no Madison Square Garden... é algo que eu nunca mais vou esquecer!

Quem também andou participando dos shows dos Killers foi Johnny Marr, guitarrista dos Smiths, uma das tais bandas do rock inglês dos 80 que influenciaram decisivamente os Killers.

— Se ele estivesse com a gente aí no Brasil, certamente tocaríamos alguma dos Smiths! Hoje tem dia, tem umas que nós tocamos muito bem, como “Stop me if you think you’ve heard this one before” ou “You just haven’t earned It yet, baby”, e, claro, “This charming man”. Mas quem sabe teremos alguma dessas aí? — deixa no ar Flowers.