Brasília é 'inundada' por outdoors pró-Bolsonaro em afronta à lei

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Outdoors de grupos bolsonaristas que convocavam as pessoas para as comemorações do 7 de Setembro foram substituídos por imagens com frases idênticas e design similar, promovendo, na prática, uma propaganda que é proibida por lei.

Com as cores da bandeira do Brasil, há mensagens inclusive de incentivo ao voto de idosos e outras com slogans repetidos pelo presidente Jair Bolsonaro (PL) e seus apoiadores.

Às vésperas do Dia da Independência, líderes do Movimento Brasil Verde e Amarelo assumiram, em entrevista à Folha de S.Paulo, a autoria e o custeio de outdoors com a frase "É agora ou nunca" --repetindo o ultimato dado por Bolsonaro para que os apoiadores fossem para as ruas pela última vez.

Um lema presente em praticamente todas essas propagandas, "brasileiros pelo Brasil", se repete nos novos outdoors, que se espalharam por várias vias da capital federal.

A lei eleitoral, no parágrafo 8º do artigo 38, diz que "é vedada a propaganda eleitoral mediante outdoors, inclusive eletrônicos, sujeitando-se a empresa responsável, os partidos, as coligações e os candidatos à imediata retirada da propaganda irregular e ao pagamento de multa no valor".

Procuradas novamente nos últimos dias, lideranças do Movimento Brasil Verde e Amarelo afirmaram que não estão por trás das novas mensagens.

Pessoas do setor ouvidas de forma reservada, no entanto, confirmam que após os atos do 7 de Setembro empresários envolvidos com as placas decidiram manter os outdoors, com novo conteúdo.

A mudança começou no dia 8 de setembro.

Apesar das novas frases, todos os novos outdoors mantiveram a assinatura "Brasileiros pelo Brasil".

Em um deles, a placa convoca: "Leve seus avós para votar, o Brasil precisa deles!". De acordo com a última pesquisa do Datafolha, porém, entre os eleitores acima de 60 anos Bolsonaro tem uma de suas mais baixas intenções de voto, 28% (contra 33% na população em geral).

Outro outdoor exibe o slogan utilizado por Bolsonaro desde a campanha de 2018: "Deus, pátria, família e liberdade". O lema é uma versão ampliada da frase adotada por fascistas brasileiros da Ação Integralista e pela ditadura Salazar em Portugal, "Deus, pátria e família".

Proibidos no centro da capital federal devido às regras de tombamento do Plano Piloto, os outdoors estão espalhados pelo pelas principais vias de acesso às outras regiões do Distrito Federal, como na BR 020, na BR 040, na EPTG e na EPGU.

Além do tom patriótico, com o verde e amarelo da bandeira do Brasil, os outdoors apelam para temas caros ao bolsonarismo, como a defesa da família. Um deles diz: "Eu apoio o Brasil" e outro, "Eu apoio a família".

Procurada, a campanha de Bolsonaro não respondeu, até a publicação dessa reportagem, se estava envolvida com a veiculação dos painéis.

No final de agosto, a Justiça Eleitoral de Santa Catarina determinou a retirada de um painel semelhante aos vistos em Brasília, com as cores do Brasil e o slogan "Deus, pátria, família e liberdade".

Além dos outdoors, o Movimento Verde e Amarelo também custeou, por meio de seus empresários, a presença de tratores no desfile militar de Brasília --o que serviu como um aceno de Bolsonaro para o setor do agronegócio.

Recentemente, o principal concorrente do presidente nas eleições e atual líder nas pesquisas do Datafolha, Lula, tem tentado angariar votos do setor, que tradicionalmente é mais alinhado à direita.

O candidato petista tem apoio de aliados do PP e também de seu vice, Geraldo Alckmin (PSB), para a empreitada, mas ainda enfrenta resistência de seus empresários, que dizem preferir Bolsonaro.

O Movimento Brasil Verde e Amarelo diz que representa cerca de 200 associações e sindicatos rurais do país. O grupo foi responsável por mensagens de ataques ao STF (Supremo Tribunal Federal) na mobilização dos atos de 7 de Setembro do ano passado.

Um dos principais expoentes do grupo é o produtor rural Antônio Galvan (PTB), presidente licenciado da Aprosoja (Associação Brasileira dos Produtores de Soja) em Mato Grosso e alvo de investigação do STF sobre atos antidemocráticos.

O movimento não informou quanto gastou para divulgar as mensagens do 7 de Setembro. Segundo pessoas do segmento, o aluguel de um outdoor na região de Brasília custa em média R$ 2.000 por mês de exposição, variando de acordo com o local e o período.

No início do governo, o Movimento Brasil Verde e Amarelo defendeu pautas e reformas de interesse do Palácio do Planalto, como a da Previdência e a tributária.

Desde 2020, a agenda das manifestações tem mudado, dando impulso aos ataques de Bolsonaro às instituições e às urnas. O grupo também defende o voto impresso.

Campanha eleitoral a favor de Bolsonaro por meio de outdoors tem sido uma tônica entre seus apoiadores desde a campanha de 2018, quando eles se espalharam pelo Brasil, também em um ato contrário à lei.

Naquela eleição, Bolsonaro estava no até então nanico PSL (hoje União Brasil) e tinha um minúsculo tempo de propaganda no rádio e na TV. Agora, o atual presidente da República tem a segunda maior fatia de propaganda eleitoral, atrás apenas da de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).