Com reformas, Cuba quer novo rumo sem estremecer alicerces da Revolução

Havana, 17 abr (EFE).- No comando de Cuba desde 2006, após a doença de Fidel, Raúl Castro, que está prestes a deixar o poder, empreendeu reformas na ilha para garantir a sobrevivência econômica da Revolução, mas sem estremecer os alicerces comunistas.

A ascensão do Castro mais novo - confirmado como presidente em 2008 e eleito primeiro-secretário do Partido Comunista em 2011 - ocorreu de maneira suave e sem sobressaltos. Os que imaginaram o fim da Cuba castrista viram que Raúl tinha o governo da Revolução sob controle.

Com o objetivo de "atualizar" o modelo socialista da ilha, um reformista Raúl Castro realizou mudanças impensáveis na era Fidel: abertura do setor privado em meio à economia centralizada, captação de investimento estrangeiro ante a nacionalização de empresas e a entrega em usufruto de terras a camponeses ao contrário de desapropriações latifundiárias.

O trabalho autônomo, que se expandiu por mais de 200 profissões em 2010, modificou gradualmente o panorama econômico da ilha, onde brotaram negócios privados que antes eram raros, como cafeterias, restaurantes, hotéis, salões de beleza e academias.

A abertura do setor privado pretendia reduzir os volumosos modelos das empresas estatais, com salários médios de US$ 20 mensais, insuficientes para enfrentar o alto preço dos produtos básicos em Cuba, onde o nível de vida encareceu ainda mais com a onda de turistas gerada pelo degelo com os Estados Unidos em 2014.

Com o aumento do trabalho autônomo, que criou empregos com um nível salarial mais alto, germinou uma espécie de classe média que começou a frequentar restaurantes, hotéis e academias onde antes só eram vistos estrangeiros.

O surgimento desses empreendedores, que já são mais de 500 mil, contribuiu modestamente para dinamizar uma economia estagnada por décadas e também colocou em evidência desigualdades sociais que, embora sempre tenham existido, se tornaram mais visíveis na Cuba revolucionária que perseguiu a utopia igualitária.

Outra das mudanças mais significativas das reformas foi a abertura da rígida economia centralizada ao capital estrangeiro: uma nova Lei de Investimento Estrangeiro, aprovada em 2014, e o megaprojeto da Zona Especial de Desenvolvimento Mariel (ZEDM) foram as principais iniciativas de Cuba.

Contudo, a vital entrada de moedas na economia da ilha foi muito lenta, afetada pela excessiva burocracia e pelas reticências do setor mais duro do Partido Comunista, temeroso que essas medidas resultassem um capitalismo descontrolado.

Desde 2014, Cuba oferece um leque de negócios abertos ao capital estrangeiro, que atualiza a cada ano em função das necessidades do país e cuja última versão oferece 456 projetos por um montante superior a US$ 10,7 bilhões.

Mas, desde então, só foram aprovados cerca de cem projetos - 20 na ZEDM -, que em 2017 superaram pela primeira vez os US$ 2 bilhões de investimento, a meta de capital estrangeiro anual que Cuba tinha imposto no início das reformas.

Nos últimos anos do mandato de Raúl Castro o turismo se tornou a fonte de investimentos mais estável, sobretudo devido à queda da exportação de serviços profissionais, principalmente médicos para Venezuela e Brasil.

A abertura econômica e o degelo com os EUA impulsionaram as visitas a Cuba e em 2017 a ilha ultrapassou pela primeira vez a marca de 4,7 milhões de turistas, entre eles quase 620 mil americanos.

Apesar das reformas, Raúl Castro deixa uma Cuba em situação econômica crítica - a economia subiu apenas 1,6% em 2017 após ter entrado no ano anterior em recessão pela primeira vez em 23 anos - impactada pela grave crise na Venezuela, o principal sócio comercial e aliado político desde 2003.

Desde então, Cuba envia médicos e professores em troca de mais de 100 mil barris de petróleo por dia, uma fonte que começou a secar em 2016 até cair para menos da metade, o que ocasionou grave problemas de fornecimento de petróleo, que a ilha teve que adquirir nos mercados internacionais.

No plano social, Raúl suavizou restrições que agoniaram os cubanos por décadas como a possibilidade de viajar ao exterior e comprar e vender carros e casas.

A vida do cubano experimentou uma mudança importante com a reforma migratória de 2013, que permitiu que milhares de residentes da ilha - que podiam comprar passagens e torcer para obter vistos - saíssem do país e em muitos casos reunissem famílias fragmentadas durante anos pelo exílio.

Cinco anos depois dessa reforma, quase 820 mil cubanos viajaram ao exterior, 80% deles pela primeira vez na vida; uma mudança que contribuiu para que muita gente conhecesse outras formas de vida, costumes e sistemas políticos.

A possibilidade de adquirir carro e moradia, entrar em hotéis que antes só admitiam estrangeiros e se conectar à internet - ainda com muitas limitações e com preços elevados - também aliviou parte da pressão que os cubanos sentiam no dia a dia.

Contudo, devido aos baixos salários e às dificuldades econômicas que muitas famílias ainda atravessam, as reformas não conseguiram tirar milhares de famílias da pobreza nem frearam o êxodo de cubanos, especialmente aos Estados Unidos, alentados pelos benefícios migratórios que mantiveram até janeiro de 2017.

Entre o final de 2014, quando foi anunciado o degelo entre Cuba e EUA, e janeiro de 2017, quando o então presidente Barack Obama revogou a política "pés secos, pés molhados" para destravar a normalização de relações com a ilha, mais de 100 mil cubanos tinham emigrado ao território americano.

Sob o mandato de Raúl Castro e com o temor de perderem os benefícios migratórios nos EUA, esses cubanos protagonizaram um dos maiores êxodos da Revolução, que superou a "Crise dos Balseiros" de 1994, quando 37 mil emigraram pelo mar aos EUA devido à grave crise do Período Especial em Cuba nos anos 90. EFE