Cuba de Raúl Castro usou "diplomacia furtiva" para se aproximar dos EUA

Havana, 17 abr (EFE).- Depois de meio século de tensa inimizade, a Cuba governada por Raúl Castro se reconciliou com os Estados Unidos em dezembro de 2014, como resultado de uma "diplomacia furtiva" tecida nos bastidores com reuniões às escondidas, cartas entre cardeais e gestões secretas.

No dia 17 de dezembro de 2014, Raúl Castro e o então presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, pegaram o mundo de surpresa ao anunciar o restabelecimento de relações bilaterais, rompidas desde 1961, em um giro diplomático que colocava fim a meio século de agravos, tensões e enfrentamentos.

Em seu discurso desse dia, Raúl Castro propôs ao outrora inimigo imperialista a adoção de "medidas mútuas para melhorar o clima bilateral e avançar para a normalização", uma linguagem conciliadora que contrastava com a retórica beligerante do passado.

O velho discurso de confronto reviveu no último ano, com o magnata Donald Trump se elegendo presidente dos EUA e adotando medidas de endurecimento do "bloqueio" e freando o diálogo, embora os laços diplomáticos tenham sido mantidos.

O anúncio do que se batizou como "degelo" foi a culminação com sucesso dos contatos secretos que enviados dos dois países mantiveram entre junho de 2013 e novembro de 2014, a maioria deles em território canadense, com o apoio do Vaticano e do papa Francisco.

As conversas começaram para buscar uma solução para a situação dos prisioneiros políticos de um e outro lado: o funcionário terceirizado americano Alan Gross, preso na ilha desde 2003 por "atividades subversivas"; e Gerardo Hernández, Antonio Guerrero e Ramón Labañino, os três agentes cubanos do grupo de "Los Cinco" que permaneciam aprisionados nos EUA por espionagem.

Obama, consciente de que a mudança de política com a ilha que tinha prometido no início de seu mandato não podia ficar em uma simples troca de prisioneiros, introduziu a possibilidade de restabelecer laços diplomáticos com a Cuba das reformas de Raúl Castro e, com esse árduo propósito, se negociou em segredo durante 18 meses.

Raúl Castro encomendou essa missão a uma pessoa da sua estrita confiança, seu filho Alejandro Castro Espín, um coronel pouco visível na vida pública da ilha que está à frente da Comissão de Defesa e Segurança Nacional, de onde se controla a inteligência e a contrainteligência.

Castro Espín negociou com uma equipe americana formada pelo assessor adjunto de segurança do presidente Obama, Ben Rhodes, e o diretor para o Hemisfério Ocidental do Conselho Nacional de Segurança, Ricardo Zúñiga, de origem hondurenha e bom conhecedor de Cuba, onde trabalhou na Seção de Interesses.

Após vários encontros em Ottawa e com o diálogo atolado, os EUA propuseram em março de 2014 a mediação do papa Francisco através de uma série de mensagens que iniciou com o senador democrata Patrick Leahy, que tinha visitado Cuba em várias ocasiões para melhorar as condições da detenção de Gross e tinha inclusive se reunido com Raúl Castro.

O destinatário da carta de Leahy foi o cardeal Jaime Ortega, arcebispo de Havana naquela época, a quem solicitava que transmitisse ao papa o desejo dos EUA de contar com sua colaboração para melhorar a relação com Cuba, algo que aconteceria em um encontro no Vaticano em maio de 2014.

O papa aceitou seu papel de mediador e encorajou os dois presidentes a resolver "temas humanitários pendentes" em diversas cartas, que antes de chegar aos seus destinatários passaram pelas mãos do cardeal Ortega, do cardeal Theodore McCarrick - bem relacionado com a Casa Branca desde seus tempos de arcebispo de Washington - e do senador Leahy, entre outros.

Castro e Obama aceitaram de bom grado o pedido papal e em outubro de 2014 as conversas clandestinas se mudaram para o Vaticano, onde limaram os últimos detalhes dos acordos de 17 de dezembro com vários cardeais próximos ao papa como mediadores.

Enquanto a intervenção do papa rendia frutos, também era desenvolvida o que ficou conhecida como a "diplomacia da cegonha": Cuba aceitou aliviar as condições da detenção de Gross - médico próprio, computador e ligações diárias - em troca de que Adriana, esposa do agente Gerardo Hernández preso nos EUA durante 15 anos, pudesse ficar grávida do marido.

Descartada a possibilidade de um encontro, uma vez que Gerardo estava condenado a duas prisões perpétuas, a insistência do senador Leahy conseguiu com que o Departamento de Justiça aceitasse enviar o sêmen do cubano a uma clínica do Panamá, onde Adriana foi inseminada em março de 2014, uma gravidez que manteve oculta até a libertação do seu marido no histórico 17 de dezembro.

Como resultado deste enxame secreto de reuniões e cartas, os dois países alcançaram um inédito acordo que, além de restaurar os laços diplomáticos e a troca de presos, se traduziu rapidamente na suspensão de sanções econômicas à ilha, como a flexibilização das viagens, a ampliação do limite de remessas e da exportação em alguns setores.

Até o fim do mandato de Obama em janeiro de 2017, os EUA aprovaram seis pacotes de medidas executivas para aliviar o embargo econômico sobre Cuba e a sua administração assinou com a ilha governada por Raúl Castro pelo menos 20 acordos em setores como telecomunicações, meio ambiente, saúde e aviação civil.

Em julho de 2015, ambos países reabriram suas respectivas embaixadas e, um mês depois, o então secretário de Estado americano, John Kerry, visitou Havana para acompanhar a bandeira dos EUA ser içada sobre o emblemático Malecón da capital cubana.

Ambos presidentes se encontraram frente a frente em três ocasiões: na Cúpula das Américas do Panamá, em abril de 2015; durante a Assembleia Geral da ONU em York, em setembro desse ano; e na histórica visita de Obama a Cuba, em março de 2016.

O mais novo dos irmãos Castro recebeu calorosamente na ilha comunista o primeiro presidente americano que pisava em solo cubano em 88 anos: dialogaram sobre o embargo, sobre direitos humanos e liberdades, além de assistir juntos a uma simbólica partida de beisebol entre a seleção cubana e o time americano Tampa Bay Rays.

A chegada à presidência do polêmico Trump representou uma reviravolta radical ao clima de distensão promovido por Obama: devido a misteriosos "ataques acústicos" a diplomatas americanos, seu governo decidiu em setembro do ano passado retirar mais da metade de seu pessoal na embaixada em Havana.

Além disso, expulsou 17 diplomatas cubanos de Washington, deixando ambas embaixadas com capacidade mínima, o que provocou uma quase que completa paralisia consular.

Obrigado a cumprir suas promessas eleitorais ao exílio anticastrista, Trump também recrudesceu o embargo, ao impor em novembro do ano passado novas restrições que impedem negócios com empresas do conglomerado Gaesa, vinculado às forças armadas, além de dificultar as viagens para a ilha.

Apesar destes atritos, a conquista de Raúl Castro e Obama de retomar laços diplomáticos segue vigente e a bandeira das barras e estrelas ainda tremula no Malecón. EFE