Pandemia? Peste? Bolsonaro? Quem abriu essa caixa de pandora?

Apoiador de Bolsonaro em ato em Brasília. Foto: Sergio Lima /AFP (via Getty Images)

Jovens, bonitos e felizes, eles desciam as escadas ao encontro de outros jovens bonitos e felizes. Um tocava um pianinho. Outra, uma harpa. Giravam em círculos, celebravam a amizade, o ar puro e o amor. Não pouco amor. Um amor que cabia em três vidas inteiras. Cabia na penteadeira.

Tudo era lindo naquele casarão colonial, inclusive rima ruim. 

Os fãs vomitavam arco-íris como se houvesse amanhã naquela metade da 2011, quando oficialmente a década desabrochava numa estética que gourmetizava tudo, de brigadeiros a quitanda.

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Em tempos de paz, encontrar onde coubesse tanto coração parecia uma missão inglória para quem chegava à vida adulta desfilando sobre a carcaça cansada de quem naquela idade estava ocupado, em outros tempos, berrando contra a guerra do Vietnã, o fim da ditadura, o impeachment do caçador de marajás, a Alca, o FMI e outros perigos à sobrevivência.

Aquele clipe provocou, talvez, o primeiro grande racha da era Facebook, opondo quem reivindicava um retorno ao arcadismo com a flauta do deus pã e os que ouviam a sabedoria ogra dos pais ou avós e repetiam: “comemora sem alarde que a zica dorme cedo”.

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Sem provas, mas com muita convicção, foi mais ou menos isso o que meu amigo, isolado desde março, mandou por áudio para nosso grupo de WhatsApp nas primeiras horas do dia. “Mas era isso que era a juventude que tomou o poder?”, perguntou. “Ali a galera que não sabia nem tocar uma flauta percebeu que esse mundo estava desguarnecido. Que era possível botar um iceberg na frente do navio que ninguém perceberia, de tanta alegria ébria que estava no ar.”

Meu amigo, nota-se, é do tipo que celebra sem alarde.

E ele é testemunha do caminhão de desmontes que atropelou o mundo no começo da década para cá.

Desde que viu o Bolsonaro subir no cavalo e posar de napoleão entre manifestantes que exigem o direito de apanharem e serem silenciados em paz, ele se atormenta tentando entender quem abriu a caixa de pandora que nos trouxe até aqui. Nessa caixa de pandora saíram a Sara Winter, um cover de Roberto Carlos metido em encrenca, empresários vestidos de Zé Carioca, youtubers terraplanistas, secretários da Cultura fãs de ditadura ou de ídolos nazistas, ministros fugitivos que não sabem escrever. Está difícil botar tudo de volta na caixa de onde saíram. Alexandre Moraes que o diga.

O mundo em 2020, e o Brasil em particular, conheceram a duras penas o que as análises mais sensatas chamam de “tempestade perfeita”. A gente achava que já tinha visto de tudo quando um amigo em apuros do presidente foi encontrado pela polícia no cafofo do advogado da família em Atibaia, perto do sítio que levou o ex-presidente Lula a ser condenado em duas instâncias. A cota de realismo fantástico foi celebrada com taças de laranja na frente do imóvel: ele foi delatado pela filha do guru de um governo que atravessa a pandemia sem ministros da Saúde nem da Educação.

“Mas não é só isso”, gritam as nuvens da tempestade perfeita, prenhas de todas as desgraças de uma pandemia. Essa nuvem traz agora uma praga de gafanhotos.

Parece vingança divina depois que o Eduardo Cunha se ajoelhou e pediu misericórdia para a nação no sessão de impeachment de Dilma Rousseff.

Só que a coisa não começou ali.

Meu amigo do WhatsApp está convicto de que tudo começou com a Banda Mais Bonita da Cidade. Para ele, aquele clipe zicou a década que estava sendo gestada e explodiu na placenta de silicone da Grávida de Taubaté exatos nove meses depois. Coincidência? Ele acha que não. 

Para ele, estava gestada ali uma experiência para a abertura de um portal de fake news que nem os maias foram capazes de prever. Um portal do qual nunca mais conseguimos sair. 

Se jornalistas isentos e a audiência cativa acreditaram que aquela bola de quermesse sob o vestido eram quadrigêmeos, seria fácil transformar um deputado do baixo clero, expulso do Exército, com seus filhos encostados, em “mito”. Foi o que os roteiristas macabros dessa década sacaram.

Bastava decorar um único versículo bíblico, ressuscitar fantasmas da guerra fria e prometer bala e atos institucionais dos anos 1960 sobre quem passasse à sua frente para convencer uma multidão de que o messias era a pessoa certa para o desafio do novo século. Ele e seu exército de Abrahams, Damares, Salles, Postos Ipiranga e Reginas, a que voltou sem quase ter ido. 

A falsa grávida de Taubaté, insiste meu amigo, abriu jurisprudência para todo tipo de lorota, do kit gay à cura de Covid-19 na base do alho, passando pelo compromisso do combate à corrupção. Era o castigo para uma geração que só queria cantar que o coração não é tão simples quanto pensa, nele cabe ou que não cabe na despensa.

De lá pra cá, uma multidão cantou o hino em frente a um ralador de queijo da Paulista, a Copa acabou no 7 a 1, o Batman do Leblon entrou em cena, um gângster virou presidente da Câmara, a República da Cobra foi exorcizada, um apresentador de O Aprendiz virou prefeito e, depois, governador, o Rio elegeu um prefeito que detesta carnaval, Alexandre Frota se elegeu deputado, uma ativista que vigiava banheiro em manifestação ganhou o poder de  indicar ministros do Supremo e prever operações policiais, um sargento foi preso na Espanha com 40 quilos de cocaína em avião oficial, golden shower virou tema de debate político, um senador usou uma retroescavadeira para acabar com uma greve de policiais, um dublê de comediante vestido de presidente repercutiu o PIB e Olavo de Carvalho levantou o cajado dizer que derruba o governo quando quiser -- ele não, ao menos até agora, mas sua filha está perto disso.

O Brasil sempre flertou com o realismo fantástico -- e isso muito antes de um papagaio verde começar a entrevistar personalidades em programas de receita na TV. 

Há quem diga que tudo começou quando a Coroa portuguesa desembarcou por aqui com um príncipe medroso, uma rainha fora do juízo e uma corte corrupta para driblar Napoleão e mudar a História, como resume Laurentino Gomes em “1808”.

A década que começou festiva caminha para um fim melancólico, em que já não se pode adoecer num leito de hospital de campanha ou lamentar pelos mortos numa pandemia sem que algum psicopata de boné e óculos escuros que se intitula “O Brasil” enfie o dedo na sua cara dizendo que luto e solidariedade são coisas de comunistas.

Parece realismo fantástico, mas é só perversidade.

É esse tipo que saiu empoderado do armário enquanto a gente dormia pensando que a guerra estava ganha e botando o coração na penteadeira, encerrava o nosso amigo, aos berros, no seu áudio de WhatsApp. Acho que ele não está bem. Mas quem está?