250 mil mortos em 1 ano: que os responsáveis não sejam esquecidos

Matheus Pichonelli
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BRASILIA, BRAZIL - FEBRUARY 2: A Rio da Paz member fixes the Brazilian flag during an installation of white plates with a red cross in favor of the return of emergency aid from the government amidst the coronavirus pandemic in front Brazilian Congress on February 02, 2021 in Brasilia. There are 594 plates painted with red crosses, each representing a member of the National Congress. Brazil has over 9,229,000 confirmed positive cases of Coronavirus and has over 225,099 deaths. (Photo by Andressa Anholete/Getty Images)
Membro da ONG Rio da Paz protesta em Brasília pelos mortos da covid-19. Foto: Andressa Anholete/Getty Images

Com os polegares e indicadores apontados para cima, como a simular uma arma de fogo, símbolo da campanha e da trajetória de Jair Bolsonaro, o humorista Marcelo Adnet, usando terno azul e gravata verde-amarela, desfilava a sua paródia presidencial na escola de samba São Clemente, no Rio.

A foto da performance estampava a capa da Folha de S.Paulo em 25 de fevereiro de 2020.

Há exato um ano, o personagem real era notícia, na mesma edição, por distribuir um vídeo convocando a população a ir às ruas em sua defesa, contra o Congresso, em um ato marcado para dali a 20 dias. A primeira página do jornal, que acabava de completar 99 anos, trazia ainda resquícios de um outro tempo: uma entrevista coletiva de Roberto Carlos em um cruzeiro, a polarização da eleição americana com o avanço de Bernie Sanders e a morte de Hosni Mubarak, no Egito.

Na manchete em seis colunas estava a notícia que pautaria os 12 meses seguintes. “Brasil tem 1º caso de coronavírus”.

Tratava-se de um homem de 61 anos que estivera na Itália, então o epicentro da doença, a trabalho. Era o primeiro caso confirmado na América Latina.

Um ano depois, o país observa o número de contaminações ultrapassar 10 milhões de habitantes em uma curva ascendente e acelerada desde o fim de 2020.

Na véspera do aniversário do primeiro registro de infecção, o país enterrava, sem velório, homenagem e aglomeração, a sua 250.000ª vítima da Covid-19. É como se uma cidade do tamanho de Araraquara, onde nasci e que desde sexta-feira 19 está em lockdown total, tivesse desaparecido numa versão ampliada do filme “Bacurau”, sobre uma localidade condenada a ser suprimida do mapa a tiros.

Se este país, no futuro, tiver algum compromisso com a memória que hoje lhe falta, é necessário deixar à frente de museus e memoriais dedicados às vítimas da Covid-19 as caras e as frases dos responsáveis diretos e indiretos pela carnificina. Será preciso lembrar que em abril do ano passado, quando todos os sintomas da grande tragédia estavam diagnosticados, havia conselheiro com trânsito livre no Planalto “apostando” que no Brasil morreria menos gente por coronavírus do que por gripe comum.

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Ainda hoje há quem atribua a simples divulgação dos estragos da doença e dos riscos de contaminação a uma conspiração global comuno-qualquer-coisa para prejudicar o presidente do Brasil. Outros se armaram para boicotar os esforços para a contenção do vírus e passaram o ano acusando médicos e autoridades públicas de notificarem qualquer morte, como estouro de pneu e outros acidentes, tendo a covid-19 como causa. Tudo para sacanear o mito que só existe em suas cabeças. A esses idiotas é preciso dedicar uma ala sobre como a supressão da inteligência nos levou à asfixia.

Até lá, a relação entre História e memória será, a cada dia, uma experiência pessoal registrada em cada corpo, cada ferida e cada lembrança.

Das minhas, guardo como marco o dia 3 de junho de 2020, quando meus editores no Yahoo Notícias me pediram fazer e analisar um compilado de declarações de Jair Bolsonaro desde o início da crise.

Voltar àquele texto é voltar a uma espécie de feitiço do tempo, como no filme em que o personagem de Bill Murray está aprisionado ao dia anterior ao acordar no dia seguinte.

Dias após a confirmação do primeiro caso, e com a experiência dos países europeus berrando em nossas caras, Bolsonaro ainda dizia que, “no meu entender, está superdimensionado o poder destruidor desse vírus”. “Então talvez esteja sendo potencializado até por questão econômica, mas acredito que o Brasil, não é que vai dar certo, já deu certo.”

Desde então ele já declarou que:

“No meu entender, muito mais fantasia, a questão do coronavírus, que não é isso tudo que a grande mídia propala ou propaga pelo mundo todo”.

“Não podemos entrar numa neurose como se fosse o fim do mundo”.

“Pode ter aproveitamento político em cima disso, a gente não quer pensar nisso daí, mas tem que ter calma. Vai passar. Desculpa aqui, é como uma gravidez, um dia vai nascer a criança. E o vírus ia chegar aqui um dia, acabou chegando.”

“Depois da facada, não vai ser uma gripezinha que vai me derrubar”.

“O brasileiro precisa ser estudado. Ele não pega nada. Você vê o cara pulando esgoto ali. Ele sai, mergulha e não acontece nada com ele”.

“Vem aí a cloroquina na área. Na região norte, (a quantidade de infectados) tá pequena. Grande parte (da população) usa (cloroquina) pra malária. Está vacinada (sic)”.

“O coronavírus parece que está começando a ir embora”.

“Eu não sou coveiro”.

“E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre”.

“Quem for de direita, toma cloroquina; quem for de esquerda, toma tubaína”.

“No meu entender, houve uma propaganda muito forte em cima disso. Trouxe o pavor para o seio da família brasileira”.

“A gente lamenta todos os mortos, mas é o destino de todo mundo”.

Revendo hoje, a lista de declarações, somadas a outros absurdos repetidos a respeito da vacinação, distanciamento e uso de máscaras, que nos impediriam de combater a pandemia “como homens”, não como “bundões” ou “maricas”, parece explicar não apenas os 30 mil óbitos registrados até aquele 3 de junho, mas as cenas dos meses seguintes seguintes que fizeram o morticínio se multiplicar por oito.

O número, então, era cabalístico. Em seus tempos de deputado, Bolsonaro defendia um golpe seguido de uma guerra civil para resetar o Brasil em cima de 30 mil cadáveres, entre eles inocentes. Os 250 mil mortos desde fevereiro lembram a Bolsonaro aos versos de Raul Seixas: sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só, mas sonho que se sonha junto é realidade. Pois o que não falta ao deputado caricato alçado à Presidência no momento mais grave do novo século são cúmplices. Talvez, como o ídolo, eles também não sejam capazes de sentir ou lamentar pelos compatriotas.

“Colapso” se tornou pleonasmo no país que, quando a crise ainda era controlável, viu dois ministros da Saúde deixarem os postos pelas portas dos fundos por se negarem a seguir o charlatanismo sanitário do presidente que viu na cloroquina o seu emplastro Brás Cubas.

Não seria justo, porém, atribuir à má fé dos governantes, que minimizaram a tragédia, desdenharam as mortes e apostaram na imunidade do rebanho para salvar a economia e a popularidade, todo o flagelo dos governados. Há também muito de incompetência.

No dia em que o país chegou a 250 mil mortos em apenas um ano, soube-se que o Ministério da Saúde, comandado hoje por um general, Eduardo Pazuello, enviou 2 mil doses de vacinas contra Covid-19 para o Amazonas, que havia solicitado 78 mil. O Amapá, que solicitou 2 mil doses, foi o destino das 78 mil. A conta é tão básica quanto entender como chegamos até aqui.

Como diria um aspirante a comediante, e daí?