Brasil não é brinquedo: erros e acertos do vídeo do 'meninão' na Presidência

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BRASILIA, BRAZIL - OCTOBER 07: President of Brazil, Jair Bolsonaro, accompanying the Minister of Health of Brazil, Marcelo Queiroga, ceremony for the Modernization of Occupational Health and Safety Regulation, at Planalto Palace in Brasilia, Brazil October 7, 2021. (Photo by Mateus Bonomi/Anadolu Agency via Getty Images)
Legenda autoexplicativa. Foto: Mateus Bonomi/Anadolu Agency (via Getty Images)

O Brasil não é brinquedo.

A mensagem, em forma de hashtag, se espalhou pelas redes sociais na terça-feira, 12 de outubro, Dia das Crianças. Ela acompanhava um vídeo de pouco mais de dois minutos em que uma paródia infantilizada de Jair Bolsonaro preenchia os momentos de tédio com seus brinquedos no gabinete presidencial. Mais ou menos como faz com o país, o menino levado da peça botava os amigos para brigar, numa simulação de guerra com bonecos e inimigos reais e imaginários. Só interrompia a brincadeira quando a primeira-dama o chamava para tomar banho. Ele ia, mas sob protestos e bicos de garoto emburrado.

Difícil não rir com a postagem.

Difícil também não chegar à conclusão de que o Brasil está sequestrado pelas obsessões de um presidente preso a seus traumas de infância, que o impediriam a agir como adulto em momentos-chave da vida pública.

Foi Elio Gaspari quem classificou o presidente como um sexagenário com fantasias infantis. Só isso pode explicar a transformação não de um gabinete em uma brinquedoteca, mas de um país inteiro em coletânea de figure action do tipo G.I Joe.

Essas fantasias infantis do presidente, grifo meu, parecem reforçadas pela sua notória fixação por orifícios do corpo humano e seu deslumbramento com a fantasia de onipotência, seguida de uma insegurança patológica que se manifesta pelas descomposturas típicas do jovem imberbe que declara odiar o mundo e seus pais quando contrariado.

A última do meninão foi ter evitado comentar a marca dos 600 mil mortos na pandemia por não querer se aborrecer enquanto passeava no feriado. Parecia adolescente que bota o travesseiro na cara e manda a mãe sair do quarto quando ela avisa que é hora de levantar e ir pra escola.

Expor o absurdo da situação levada ao ridículo é um dos muitos acertos do vídeo. O deboche é a linguagem que o presidente infantilóide teme e entende. Ponto.

Só que a chave de compreensão implícita na peça não deixa de ser também uma busca infantil por consolo. Ao associar a perversidade do presidente ao blefe juvenil, desses que declaram guerra contra o mundo não por sadismo, mas por não ter a noção exata das palavras e suas consequências, damos a Bolsonaro a isenção de responder por seus atos, gestos, discursos e omissões. É o preço a ser pago por não aceitar que alguém seja vil o suficiente a ponto de fazer o que faz e dizer o que diz. Como quando declarou torcer para uma rival e antecessora na presidência morrer de câncer. "Não foi de coração", costumam justificar seus apoiadores.

Fenômeno parecido se deu quando um psiquiatra lançou, em artigo em jornal de alta circulação, uma hipótese segundo a qual Bolsonaro se comportava como se comportava porque tinha um traço de psicopatia em sua personalidade. Este traço explicaria a ausência de remorso ou empatia manifestada pelo chefe do Executivo desde o início de sua vida pública e reforçada ao longo da pandemia, quando lamentava as mortes dos compatriotas de forma protocolar, quase decorada, enquanto mandava um país inteiro largar de frescura e parar de chorar.

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Em março, publiquei neste espaço um resumo de uma conversa com o psiquiatra e professor da Unicamp Luís Fernando Tófoli, para quem o “caminho psiquiátrico” tomado para explicar as decisões do presidente era na verdade um grande equívoco. Isso porque o suposto transtorno, se houver, não mudaria a imputabilidade e a capacidade de Bolsonaro tomar decisões para a vida civil. Esta não seria afetada pelo fato de ele ser ou não um psicopata.

A hipótese, segundo Tófoli, mostrava apenas a carência de parte dos brasileiros que esperavam alguém vir a público com uma formulação supostamente científica para explicar que o presidente era um “canalha” —algo que, afirmou, todo mundo sabe que ele é, inclusive o próprio. “O que a gente precisa é entender por que o país aceita uma pessoa assim no poder”, disse o especialista.

Ouso dizer que o mesmo vale para a chave de compreensão baseada na suposta falha de formação na travessia do presidente em direção ao mundo adulto, o que exige responsabilidade e responsabilização.

De onde estamos, parece óbvio o contraste de um corpo sexagenário preso a conversas e obsessões que não fariam sentido a um estudante ginasial. O desafio, novamente, é entender por que boa parte do país aceita uma pessoa assim no poder.

Como bem lembrou meu amigo Maurício Savarese, em seu Twitter, crianças são inimputáveis. Associar o presidente a um infante levado é até engraçado, mas serve apenas para colar em sua testa a pecha de líder que não sabe o que fazer, que ataca e recua e depois explica que tudo foi no calor da hora. Tudo para fugir da responsabilização. Bolsonaro pode ser tosco. Mas não é inimputável. Nem está sozinho, sem amigos ou aconselhamentos, paralelos ou oficiais, a influenciar e endossar tudo o que faz, fala e pensa. Não há inocentes nesta história. Nem criança birrenta e isolada com seus brinquedos e obsessões no quarto.  

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