Falta de doses, logística ou campanha deficiente? Especialista analisa vacinação contra Covid 'truncada' no Brasil

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Idosa é vacinada no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro; País vem sofrendo com vacinação lenta em todas as regiões por falta de doses disponíveis - Foto: AP Photo/Bruna Prado
Idosa é vacinada no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro; País vem sofrendo com vacinação lenta em todas as regiões por falta de doses disponíveis - Foto: AP Photo/Bruna Prado
  • Para especialista, má gestão do governo federal resultou em poucas doses disponíveis de vacina

  • Epidemiologista considera que erros como vacinação por engano em alguns estados são casos pontuais num país que é especialista em imunização em massa

  • Médico ressalta importância da vacinação contra a Influenza, chamada "gripe comum", no cenário atual de pandemia no Brasil

O mundo vem presenciando uma retomada parcial da normalidade em alguns países onde a vacinação pela Covid-19 está avançada, como nos casos dos EUA, Israel e Reino Unido. Na contramão da tendência global, o Brasil não só não conseguiu controlar sua taxa de transmissão do vírus e, portanto, seus índices de casos e mortes, como também padece diante de uma imunização lenta e truncada.

Nas primeiras semanas do mês de abril, o país viu diversas capitais interromperem suas campanhas de imunização por falta de doses disponíveis, registro de aglomeração de idosos numa busca desesperada por imunização, confusão que rendeu até gestantes e crianças vacinadas por engano e até anúncio de que mais de um milhão de brasileiros não voltaram aos postos para receber a segunda dose de seus imunizantes.

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Apesar dos episódios que indicam uma má condução da crise sanitária por aqui, o epidemiologista José Geraldo Ribeiro, especialista em vacinação, não vê falhas graves em relação a conscientização sobre os imunizantes.

"Isso [pessoa não voltar para receber a segunda dose] acontece normalmente em vacina. Quando você tem mais de duas doses e um reforço, por exemplo, o índice de comparecimento vai caindo. Ainda assim, há muitas atividades que podem ser feitas para amenizar esse problema como envio de mensagens alertando a pessoa ou mesmo agentes comunitários de saúde visitando as respectivas casas de quem não foi ao posto", explica Ribeiro ao Yahoo! Notícias.

Para ele, o número elevado de 1,5 milhão de brasileiros que não voltaram para receber a segunda dose deve ser menor, já que depende de uma atualização no sistema de registros que pode atrasar. Tese que foi alegada por diversos estados após a fala do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga.

Para Ribeiro, a Covid-19 é uma preocupação constante do brasileiro há meses e não há deficiência de campanha que possa prejudicar a vontade do cidadão de se vacinar. O especialista, que trabalhou mais de 30 anos na Secretaria da Saúde de Minas Gerais, atesta que o problema da vacinação por aqui é um só: falta de doses disponíveis.

"Informação de que são duas doses e que ambas são importantes há em todo lugar. Já vacinamos milhões em um só dia no Brasil, sem grandes problemas. O sistema é o mesmo, as secretarias são as mesmas. O que difere agora é a distribuição do imunizante. Não existe campanha de vacina sem a vacina", analisa ao comentar as constantes paralisações registradas nas aplicações de doses ao redor do país.

Idosos se aglomeram por vacina no Espaço Cultural José Lins do Rêgo, em João Pessoa, na Paraíba - Foto: Reprodução/ TV Globo
Idosos se aglomeram por vacina no Espaço Cultural José Lins do Rêgo, em João Pessoa, na Paraíba - Foto: Reprodução/ TV Globo

Para Ribeiro, que atua também com assessor de vacinas do Instituto Hermes Pardini, a essa altura, se o país tivesse um número adequado de imunizantes, a primeira dose já teria sido aplicada em boa parte da população apta a recebê-la. Por enquanto, o país dispõe apenas de duas vacinas liberadas para uso pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa): 

"Nós nunca fizemos uma campanha de vacinação assim na história. Sempre foi com planejamento. O ponto central é que o Brasil tem pouca vacina. No meu ponto de vista, isso é consequência de uma falta de coordenação nacional adequada. Isso foi decisivo no quantitativo baixo de vacinas que temos no momento", diz o epidemiologista.

Erros e dilema na escolha de prioritários

Agentes da CET são vacinados por engano em SP - Foto: Reprodução/TV Globo
Agentes da CET são vacinados por engano em SP - Foto: Reprodução/TV Globo

Questionado sobre os episódios inusitados que o país tem registrado, com profissionais vacinando a população por engano e autoridades liberando imunizantes para categorias que não estavam aptas, Ribeiro considera que são casos pontuais.

"O Brasil tem mais de cinco mil municípios e é óbvio que isso implica em ter um grupo trabalhando exemplarmente e outros nem tanto. Ainda assim, ano passado, vacinamos 80 milhões de pessoas contra a gripe em um mês. Não houve problema algum. Quando há erros e você tem reserva de vacina, você desloca uma equipe e resolve, algo que não é possível hoje com a quantidade de vacinas contra Covid-19 que temos", explica Ribeiro, que é Professor Emérito da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais.

Outra questão que se tornou disputa quando se fala de vacinação contra Covid-19 em âmbito nacional é a definição dos grupos prioritários. Algumas categorias, como a dos agentes de segurança, são vistas como favorecidas por terem força política, em detrimento de outras como a dos trabalhadores da limpeza urbana, por exemplo.

"Os grupos prioritários sempre foram escolhidos com base em parâmetros epidemiológicos. Não é exatamente quem tem mais risco, mas quem não pode adoecer durante uma pandemia. Depois, você vai olhar para a taxa de mortalidade, qual categoria tem mais risco de ser hospitalizada, daí por diante, tudo baseado em dados. Nesta pandemia, porém, vemos pessoas que jamais trabalharam com imunização se metendo a dar palpite em campanha de vacinação", criticou Ribeiro.

Para o epidemiologista, essa disputa criada em torno dos grupos prioritário é mais um reflexo da frágil coordenação federal promovida pelo governo de Jair Bolsonaro (sem partido) durante a crise sanitária.

"Com a coordenação nacional enfraquecida, você vê isso: cada estado faz o seu. Um imuniza policial, outro imuniza professor. Mas não há como fugir do 'cobertor curto'. O que eu questiono é: será que tem gente com formação adequada em saúde coletiva respaldando essas decisões?", pondera o docente.

Covid-19 e Influenza: Vacinação simultânea será desafio nacional

Mesmo com o país todo com os olhos voltados para a vacinação contra a Covid-19, o especialista alerta para a importância extra que a imunização contra a chamada "gripe comum", que começou na semana passada em todo o território nacional, adquiriu no cenário atual de pandemia.

"Nunca a vacinação contra a gripe foi tão importante como é hoje. Além da Influenza também levar a hospitalização, ela tem quadro clínico que pode ser confundido com o da Covid-19. Sabemos das dificuldades laboratoriais que temos no país. Se não tivermos os índices de Covid controlados, podemos ter mais sofrimento para o nosso sistema de saúde com uma eventual explosão de casos de gripe", explica Ribeiro, que admite preocupação diante da vacinação simultânea promovida no país.

"Ano passado tivemos sorte, digamos assim, de não termos tido muitos casos de gripe justamente porque havia também uma parte maior da população em isolamento. Contudo, quando voltarem as aulas, há uma preocupação com o fato das crianças serem grandes dispersoras de gripe na comunidade".

O especialista prega "enorme esforço" das autoridades para que as duas campanhas de imunização sejam conduzidas de forma eficaz. "Temo que caia nossa cobertura vacinal para gripe e, ao chegarmos no inverno, assistamos a um somatório das duas doenças [Influenza e Covid-19", destaca.

Vale lembrar que, exatamente pela realização simultânea das duas campanhas de imunização, os grupos prioritários da vacina contra Influenza sofreram uma alteração. 

Confira, abaixo, a divisão do calendário geral:

  • 1ª etapa - de 12/04 a 10/05: crianças, gestantes, puérperas, povos indígenas e trabalhadores da saúde

  • 2ª etapa - de 11/05 a 08/06: idosos e professores

  • 3ª etapa - de 09/06 a 09/07: demais grupos

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