Brasil despeja 325 mil toneladas de plástico por ano no mar, aponta pesquisa

Renato Grandelle
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Divulgação/Ricardo Gomes/Instituto Mar Urbano

RIO — Um levantamento da ONG Oceana divulgado na última sexta-feira mostra que o Brasil despeja 325 mil toneladas de lixo plástico por ano no mar. O país produz anualmente 500 bilhões de itens descartáveis com o material, o equivalente a 15 mil por segundo, segundo o relatório. A poluição marinha, além de degradar os ecossistemas, está aumentando o rol de espécies ameaçadas de extinção.

Não faltam caminhos para o plástico chegar ao mar — entre seus caminhos estão falhas no sistema de drenagem e emissários, descarte inadequado de produtos industriais e através de córregios e rios. Também é abundante o número de "potenciais poluidores". Segundo o Censo de 2010 do IBGE, cerca de 50 milhões de habitantes do país vivem no litoral, e há diversas cidades à beira de corpos d'água que transportam o plástico.

— Certamente este índice está subestimado. A quantidade de plástico no mar e seu estrago sobre a biosfera são muito maiores que o analisado — ressalta a cientista marinha Lara Ivanick, que assina o estudo e coordena a campanha de Plásticos da Oceana no Brasil. — Por exemplo, apenas 25% de nossa costa, uma faixa do Santa Catarina ao Espírito Santo, tem projetos de monitoramento com coleta e necrópsia de animais que podem ter morrido devido à ingestão de detritos.

Um em cada animais animais que ingeriram plástico morreu - o cálculo abrange aves, répteis e mamíferos marinhos. Entre as vítimas, 85% são indivíduos de espécies ameaçadas de extinção.

A pesquisa brasileira destaca o panorama diagnosticado pela União Internacional para a Conservação da Natureza. Segundo o órgão global, mais de 800 espécies de mamíferos, aves marinhas, peixes e tartarugas estão sendo impactadas pelo emaranhamento em redes de pesca ou pela ingestão do plástico. Dezessete por cento das espécies afetadas pelo poluente são listadas como ameaçadas ou quase ameaçadas de extinção.

Ivanick considera que a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), uma lei sancionada em 2010, precisa rever o seu foco, direcionando-o à redução da oferta e uso do plástico descartável.

— As políticas públicas são focadas em soluções para o momento em que um produto já virou resíduo. O ideal seria pensar em iniciativas que evitem a produção do lixo — explica.

Outra falha da PNRS, segundo Ivanick, é a falta de previsão de responsabilidade ou tratamento diferenciado em relação a produtos de plástico descartável, como talheres, sacolas, pratos e copos.

O estudo ressalta que, "sem valor para o mercado de reciclagem, os produtos descartáveis se tornam rejeitos e representam um custo para o sistema de gestão de resíduos".

— Mais de 40 países, da China ao Quênia, passando por Canadá e Índia, já aprovaram leis para redução do plástico descartável, como a redução da quantidade de sacolas plásticas em supermercados. São iniciativas bastante específicas mas que produzem um ótimo resultado.

Procurado pelo GLOBO, o Ministério do Meio Ambiente não respondeu aos questionamentos dos especialistas sobre a PNRS.

Um estudo internacional publicado em julho na revista "Science" mostrou que a poluição de plástico nos oceanos triplicará até 2040. Ainda não é certo como seria este crescimento no Brasil, já que o despejo de poluentes cresce desproporcionalmente no mundo.