Brasil deve ultrapassar França e Itália em casos de Covid-19 nos próximos dias

Leandro Prazeres, Renata Mariz, André de Souza, Victor Farias, Renato Grandelle e Cleide Carvalho
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Pacientes com Covid-19 na UTI do Hospital Sancta Maggiore, em São Paulo

O número de mortes em decorrência do novo coronavírus bateu mais um recorde ontem no Brasil, com 881 óbitos. Ainda segundo o Ministério da Saúde, 9.258 novos casos foram registrados — já são 177.589. Com isso, o Brasil chegou a 12.400 mortes e tornou-se o sétimo país com mais casos confirmados de Covid-19 no mundo, ultrapassando a Alemanha (173.034). No ritmo atual, o Brasil deve deixar para trás a França e a Itália nos próximos dias.

De acordo com o balanço divulgado pelo ministério, o crescimento no número de casos foi de 5,4%. Em relação ao número de mortes, o aumento foi de 7,6%.

O ministério indica ainda que 40,9% do total de infectados até o momento — o que corresponde a 72.597 pessoas — estão recuperados da doença, enquanto 92.593 (52,1%) estão em acompanhamento. Os 7% restantes são os óbitos. Há 2.050 mortes em investigação.

Isolamento longe do ideal

Presidente do comitê científico da Sociedade Brasileira de Imunologia, João Viola acredita que o Brasil chegará à segunda posição entre os países com mais casos confirmados e óbitos, atrás apenas dos EUA.

— A subnotificação esconde nosso atual panorama: diversas estatísticas mostram que o número de casos é dez a 15 vezes maior do que as ocorrências confirmadas até agora. Portanto, mais de um milhão de brasileiros já contraíram o vírus — alerta o médico. — Oitenta por cento não demonstram sintomas, mas podem infectar outras pessoas.

Segundo Viola, apenas 40 a 50% da população do país têm respeitado o isolamento social. O ideal seria que esse índice fosse de, no mínimo, 70%:

— Se a população respeitar as medidas, chegaremos ao pico de casos em até dez dias. E, 30 ou 40 dias depois, poderemos começar a discutir medidas de flexibilização para circulação de pessoas.

A virologista Giliane de Souza Trindade, da Universidade Federal de Minas Gerais, alerta que a epidemia segue em plena velocidade no Rio e em São Paulo, cidades com maior intercâmbio populacional. Ela afirma que a população de outros estados têm ensaiado um movimento precipitado para deixar o isolamento social.

— O setor econômico pressiona, e os gestores estão cedendo à reabertura do comércio em locais que não estão preparados para o fim do distanciamento. Então, a epidemia ainda está caminhando para o pior. Se continuarmos assim, vamos ultrapassar, em número de casos, os países que tomaram providências tardias contra o coronavírus, como Itália e França — avisa. — Falta uma liderança no governo federal que se manifeste sobre a Covid-19. Hoje, não há divulgação sobre as diretrizes que devemos adotar.

Início antes do divulgado

Em meio ao avanço da doença, o Ministério da Saúde identificou 39 casos suspeitos que teriam surgido no Brasil antes do dia 26 de fevereiro, quando foi confirmada a primeira ocorrência: um homem de 61 anos, diagnosticado em São Paulo. A informação foi dada ontem pelo secretário substituto de Vigilância em Saúde, Eduardo Macário. Segundo ele, o ministério enviou ofícios aos estados para investigar esses casos. Esta é a segunda vez que o governo federal admite que a Covid-19 pode ter chegado ao Brasil antes do divulgado.

De acordo com Macário, dos 39 casos, 25 teriam ocorrido em São Paulo e o restante em outros oito estados.

— São casos de síndrome respiratória aguda grave com confirmação laboratorial por Covid — disse o secretário.

A dúvida que precisa ser esclarecida é se a data em que teriam ocorrido pode ter sido inserida de maneira incorreta no sistema. Macário afirmou que não é possível precisar a data correta do caso mais antigo entre esses 39 registros:

— Encaminhei esses ofícios para que as secretarias façam uma investigação mais detalhada, justamente para identificar se eles realmente tiveram uma transmissão ou sintomas antes do dia 26 de fevereiro.

Segundo o secretário do Ministério da Saúde, a possibilidade de que tenha havido erro de digitação não é descartada, uma vez que os órgãos públicos trabalham com um fluxo muito grande de informações.

Na segunda-feira, um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) indicou a existência de casos da doença em janeiro, antes da confirmação oficial da primeira ocorrência da Covid-19 no país.

Mês trágico em São Paulo

A transmissão do coronavírus e as mortes em decorrência dele no estado de São Paulo atingiram em maio um novo patamar. Nos 12 primeiros dias do mês, foram registrados por dia mais de 1.500 casos. Em média, 131 pessoas morreram. Em menos de duas semanas, maio já acumula 40% das mortes e das infecções registradas desde 26 de fevereiro, quando foi anunciado o primeiro caso. No mês passado, São Paulo registrava menos de mil ocorrências novas por dia e 75 mortes.

São Paulo alcançou ontem 47.711 mil casos, com 3.949 mortes. São 3.818 pessoas internadas em UTIs em todo o estado. Em enfermarias, o número é ainda maior: 6.083.

O recrudescimento da Covid-19 reflete a queda na taxa de isolamento a partir de meados de abril. Segundo dados da empresa In Loco, que mede as taxas de adesão em São Paulo, na segunda quinzena de abril a taxa de isolamento só ficou acima de 50% em três dias.

Em 30 de abril, o índice caiu para 41%. Nos 12 primeiros dias de maio, a situação não mudou muito. Só no feriadão de 1º de Maio os índices ficaram acima de 50%. Nos demais dias, variaram entre 41% e 47%.

Na capital, a In Loco mediu ontem adesão ao isolamento de 49%. No interior, a taxa cai para 47,8%. O estado não tem medidas para evitar o fluxo de pessoas entre cidades. Os meios de transporte estão funcionando, o que facilita a mobilidade das pessoas — e do vírus.

Segundo o secretário de Desenvolvimento Social de São Paulo, Marco Vinholi, o número de casos dobrou no interior do estado neste mês.

A taxa de ocupação de leitos de UTI está em 85,7% na Grande São Paulo e, na média do estado, em 69%. A prefeitura vai começar a usar leitos de hospitais privados. Ontem, lançou edital pedindo cem vagas de UTI, e a estimativa é que sejam necessários pelo menos 800 leitos da rede particular .

Colaboraram Johanns Eller, no Rio, e Paula Ferreira e Daniel Gullino, em Brasília