Brasil quase dobra apreensões de cocaína no primeiro semestre do ano

Por Valeria PACHECO
Foto fornecida pelo serviço de alfândega francês mostra pacotes contendo 1,6 tonelada de cocaína, apreendida em Caen, norte da França, em 6 de dezembro de 2018, após ter sido encontrada escondida em pallets de madeira em um navio de carga procedente do Brasil

As autoridades apreenderam 25,3 toneladas de cocaína no primeiro semestre de 2019, destinadas a Europa e África, 91,7% a mais que o mesmo período de 2018, devido principalmente a um aumento de controles nas fronteiras.

"No ano passado apreendemos 31,4 toneladas [de cocaína], este ano vai sem dúvida bater recorde", afirmou o coordenador-geral do combate ao contrabando da Receita Federal, Arthur Cazella.

O dado confirma efetivamente o aumento exponencial das apreensões nos últimos anos: de 958 quilos em 2014 e 2,5 toneladas em 2015, passaram para mais de 15 toneladas em 2016 e 18,07 toneladas em 2017.

Do total apreendido até junho, a metade (12,1 toneladas) foi apreendida no porto de Santos e 6,9 toneladas no de Paranaguá, os dois maiores pontos de saída de mercadorias do país.

As apreensões de maconha, por sua vez, passaram de 3,9 toneladas para 10,2 toneladas no primeiro semestre, detalhou o funcionário.

Com uma fronteira terrestre de 17.000 km e marítima de 8.000 km, o Brasil registra um importante trânsito de drogas produzidas em Colômbia, Bolívia, Venezuela e Paraguai, destinadas a países europeus: Bélgica, Holanda, Espanha, França e Itália, principalmente.

"E já está contando com algumas rotas para a África", disse Cazella.

- Maior produção -

As autoridades detectaram cocaína camuflada em todo tipo de mercadorias, de exportações de fígado de frango, tratores, madeira ou carros.

Em 8 de julho, a Polícia Federal deteve dois supostos membros da Ndrangheta calabresa, uma das maiores organizações do crime organizado do mundo, à qual se atribui o controle de 40% dos envios mundiais de cocaína.

O aumento das apreensões se deve, em parte, a uma melhor coordenação entre as forças públicas e à implementação de programas de gestão de risco, inteligência e vigilância nos pontos de saída do país, disse Cazella.

"Os nossos procedimentos de controle, vigilância e repressão estão evoluindo a uma velocidade muito grande", observou.

A Receita Federal, explicou, busca detectar carga de alto risco ou transferências de dinheiro suspeitas, assim como fazer uma vigilância com câmeras e escâneres nos diversos pontos de saída de drogas do país.

Mas a tarefa se complica em grande parte pelas extensas fronteiras brasileiras. Se os Estados Unidos têm "um superproblema para controlar 3.000 km [de fronteira com o México], imagina a gente para controla 17.000 km".

"Você não consegue reprimir [o narcotráfico] o tempo todo em todo lugar", afirmou o funcionário.

- Migração de quadrilhas -

Um aumento das apreensões em Brasil e Europa, somado à queda no preço da cocaína no velho continente, devido ao aumento da oferta não antecipa nenhuma melhora, diz Cazella, para quem isto significa que a produção está aumentando.

"Na verdade, na minha opinião, a situação está piorando porque os nossos grupos criminosos estão começando a migrar para os países vizinhos", como Paraguai, Bolívia e Venezuela, advertiu o funcionário, admitindo que a autoridade que mais pode falar de combate ao crime é a Polícia.

As principais facções de narcotraficantes no país são o paulista Primeiro Comando da Capital (PCC) e o carioca Comando Vermelho (CV).

"Os nossos grupos criminosos estão começando a migrar para os países vizinhos", associando-se a quadrilhas nos países produtores ou inclusive tomando o seu lugar.

"Eles são grandes gerentes do crime e a partir da hora que eles começam a gerenciar o crime ao redor do Brasil, a situação vai piorando com certeza", afirmou Cazella.