Brasil é ‘manancial do mundo’, mas ainda enfrenta acesso precário à água e esgoto

No Parque Mandacaru, em Petrolina (PE), moradores estão há quase um ano sem pressão suficiente para levar água às torneiras  (Getty Images)
No Parque Mandacaru, em Petrolina (PE), moradores estão há quase um ano sem pressão suficiente para levar água às torneiras

(Getty Images)

  • Com 13,7% de toda a água doce no planeta, Brasil é considerado 'manancial do mundo';

  • País poderia ajudar a resolver entraves externos, mas precisa focar primeiro em sua população;

  • Hoje, 35 milhões não possuem acesso à água potável e 100 milhões estão sem saneamento.

Todos os dias, a esperança é sempre a mesma: abrir a torneira da pia e ver água limpa jorrando, abundante. Há quase um ano que essa cena, sem maiores entraves, não acontece na casa de Ana Taise Barbosa, de 36 anos de idade. Quase 365 dias de espera pelo momento em que matar a sede e completar os afazeres domésticos não renda um capítulo de novela.

Foi em julho de 2021 que a auxiliar de limpeza percebeu os primeiros indícios do problema em sua casa, no bairro Parque Mandacaru, localizado em Petrolina (PE). Naquele dia, as vizinhas bateram em sua porta perguntando se ela ainda tinha água, mas como possuía caixa de mil litros, demorou algum tempo até ser afetada pela situação. “Todo mundo louco por água e não tinha água nas torneiras”, relembra.

Ana explica que o ponto não era a falta do recurso em si; ele está lá, nos canos. Mas desde aquele mês, não tem pressão suficiente para subir. Apesar das diversas denúncias feitas por equipes de reportagem e até mesmo dos moradores junto à Compesa, empresa que administra os serviços de saneamento básico em Pernambuco, nada foi feito até o momento.

“Na época, eu tinha terminado de fazer uma cirurgia, histerectomia total, e sofri bastante, porque teve dias em que tinha que tomar banho com potinho de manteiga de 3 kg”, lamenta. “Louça foi se ajuntando, muito prato, muita roupa... Tem morador que até hoje não lava roupa em casa porque não tem água. Aí leva para casa de parentes”.

Brasil é uma potência no setor hídrico

A situação vivida por Ana é sofrida, mas nas estatísticas ela não está só. É acompanhada por outros 35 milhões de brasileiros, que correspondem a 16% da população que, em pleno século XXI, não têm acesso à água potável. Quem olha para os números pode até pensar que o recurso natural é escasso no Brasil, mas se engana. O país possui 13,7% de toda a água doce e 20% das águas subterrâneas do planeta. É por isso que é conhecido como ‘o manancial do mundo’.

“O Brasil é um país que tem uma riqueza hídrica, mas também uma realidade muito difícil no que se refere ao saneamento básico”, explica Luana Siewert Pretto, presidente executiva do Instituto Trata Brasil. “Para que toda a nossa população possa atingir a sua totalidade em termos de acesso à agua e saneamento, a gente precisaria ter um nível de investimento muito maior”.

Pretto explica que, enquanto as 20 melhores cidades destinam, por habitante, cerca de R$ 138 por ano, as 20 piores cidades do país usam apenas R$ 48. O ideal, segundo ela, seria um investimento na casa de R$ 115 anuais, para cada pessoa.

Na ONU (Organização das Nações Unidas), a questão é tratada com seriedade. Na agenda 2030 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), alcançar acesso universal e equitativo de água potável e segura para todos é a sexta das 17 metas citadas. Afinal, uma em cada três pessoas no mundo não dispõe do mais básico dos recursos.

Como detentor de uma vasta rede hidrográfica, com muita água doce, o Brasil tem um papel chave no cuidado com o recurso de forma global, mas não deve esquecer que ainda há muito a ser feito ‘dentro de casa’. “Hoje, precisamos ser um país que primeiro trate as suas questões de saneamento básico internamente, para depois pensar em exportar essa agua tratada para outros países”, aponta a presidente do Trata Brasil.

Por que falar de água é falar de esgoto?

É impossível tratar de acesso à água sem mencionar saneamento básico, já que um tema está intimamente ligado com o outro. Atualmente, cerca de 100 milhões de brasileiros não têm coleta e tratamento adequado de esgoto, o que quer dizer que quase metade da população ainda lança resíduos de forma errada nos rios.

“Isso acaba comprometendo toda a qualidade desses mananciais, toda a fauna, toda a flora, e também a qualidade de vida e desenvolvimento daquela população, com doenças de veiculação hídrica, questões relacionadas a piora no rendimento escolar e o próprio desenvolvimento econômico da região”, explica Pretto.

No Parque Mandacaru, onde Ana Taise mora, o cenário não é diferente. “Aqui é esgoto a céu aberto. Tem crateras de esgoto no meio da rua, esgoto puro mesmo”, informa. Uma rápida pesquisa no Google Maps basta para saber que o bairro, ainda tão precário em infraestrutura, fica ao lado do centro da cidade: não chega a demorar 20 minutos de carro para ir de um ponto a outro, distantes cerca de 5 quilômetros.

Para resolver a situação, Pretto relembra a importância de ampliar obras que criem estações de tratamento e adutoras de água – que nada mais são do que conjuntos de tubulações, dispositivos e outras peças que garantem escoamento e transporte do recurso natural.

Além disso, é fundamental investir em tecnologias capazes de suprir com a demanda da população em questão. Há diversas maneiras de garantir água potável, seja tratando-a por meios físicos ou químicos em estações ou até em poços cavados.

Afinal, conforme pontua Pretto, “cada região precisa entender qual a melhor solução que se adequa, dependendo da distância que está de um centro ou não, e dependendo da quantidade e qualidade da água que existe em cada uma dessas regiões”.

“Só sabe quem passa”

Ana conta que, assim que os moradores de Parque Mandacaru ficaram sem água encanada, a alternativa foi recorrer à compra de garrafas no supermercado. “Até banho de água mineral a gente tinha que tomar, porque não tinha de onde tirar água”.

A próxima solução foi cavar buracos na rua para então pegar a água com balde. Hoje, boa parte dos vizinhos de Ana só consegue ter o recurso nas pias e chuveiros graças à aquisição de bombas. “É a forma que a gente está se virando. Abriu um buraco na rua, botou uma caixa dentro e como o encanamento é bem baixo, vai chegando água na caixa. E aí liga a bomba” para fazer a água subir, explica.

Ana diz que os moradores não pagam conta de água, já que existe esse problema, mas em compensação, os gastos com energia elétrica, devido à bomba, estão nas alturas. Não é à toa que agradece por morar apenas com seu marido, já que casas com mais pessoas acabam tendo mais dificuldade em lidar com a situação. Ela afirma, inclusive, que uma das vizinhas, já na velhice, pegou um empréstimo para instalar uma rede de canos. O valor teria ficado em torno dos R$ 2 mil.

Fora os custos com luz, há os com água mineral, já que não dá mais para beber diretamente da torneira. “Quando puxa a água na bomba, sempre vem escura, com terra. Se você beber, dá diarreia, da vômito... É uma coisa que uma pessoa assalariada não tem condições de manter”, critica. “Muito difícil, viu. Só sabe quem passa”.

O Yahoo Finanças tentou contato com a Compesa, mas até o momento da publicação desta matéria não obteve respostas.

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