Brasil espera manter exportações de soja para China

Por Morgann Jezequel
(Arquivo) Cultivos de soja em Campo Novo do Parecis, no estado de Mato Grosso, em 27 de março de 2012

O Brasil, principal exportador de soja do mundo, espera manter suas vendas para a China, seu principal cliente, apesar da pandemia de coronavírus, da trégua na guerra comercial entre o país asiático e os Estados Unidos e das tensões diplomáticas entre Brasília e Beijing.

Em 4 de abril, o jornal de Pequim "Xin Jing Bao" relatou "preocupações" das autoridades chinesas com a possibilidade de as importações brasileiras de soja serem "afetadas" pela propagação da COVID-19 na América do Sul.

O comentário foi interpretado pela mídia brasileira como uma ameaça velada de retaliação, depois de vários aliados do presidente Jair Bolsonaro terem atacado a China por seu papel durante a pandemia.

Em meados de março, o deputado Eduardo Bolsonaro, filho do presidente, acusou a "ditadura" chinesa no Twitter de ocultar informações sobre o novo coronavírus.

O ministro da Educação, Abraham Weintraub, sugeriu em um tuíte que a pandemia era o plano do país asiático de "dominar o mundo".

As exportações brasileiras de soja para a China, que caíram em janeiro e fevereiro em relação aos mesmos meses de 2019, retomaram o caminho de crescimento em março, atingindo um nível recorde de 13,3 milhões de toneladas no trimestre como um todo (+9% interanual), de acordo com dados do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços.

"Tivemos pequenos problemas de escoamento no começo da epidemia porque os caminhoneiros que levavam a soja até os portos não conseguiam achar serviços abertos na beira de estrada e porque tinha que preparar protocolo de segurança nos portos", explicou à AFP o diretor-geral da Associação Nacional dos Exportadores de Cereais, Sérgio Mendes.

Além disso, "as fortes chuvas de fevereiro atrasaram o embarque das mercadorias. Mas tudo já voltou ao normal", acrescentou.

- Soja competitiva -

Em 2020, "a tendência é que a demanda chinesa de soja brasileira seja um pouco menor ou igual" a 2019, quando o Brasil exportou 58 milhões de toneladas de oleaginosas para o país asiático, de acordo com Luiz Fernando Gutierrez, analista da consultoria Safras e Mercado.

Se essa previsão se confirmar, o nível seria menor do que em 2018, ano em que foi atingido um recorde de 68,6 milhões de toneladas exportadas, mas excederia os níveis pré-guerra comercial entre China e Estados Unidos.

A China reduziu sua demanda global no ano passado, devido à peste suína que dizimou seu gado. O principal importador de soja do mundo gasta quase metade do que compra na sua produção de porcos, de acordo com um relatório da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO).

O setor brasileiro de soja está confiante em sua capacidade de resistir, apesar do compromisso da China de comprar US$ 32 bilhões a mais em produtos agrícolas dos EUA por dois anos, pelo acordo que Washington e Pequim assinaram em janeiro para suspender sua guerra comercial.

"A soja brasileira é mais competitiva, e a China é pragmática. Só deve comprar dos Estados Unidos o que for necessário para honrar o acordo", afirmou Gutierrez.

Essa competitividade é resultado do colapso do real em relação ao dólar, que passou de 3,95 reais há um ano para 5,40 reais agora, uma queda de mais de 36%.

"Nossas exportações são consolidadas, bem como nosso modelo de produção e nosso sistema logístico", afirmou o presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja), Bartolomeu Braz Pereira.

"Aliás, 35% da soja que vamos plantar já é negociada, sobretudo com a China", apontou.

A produção de soja nos EUA, que caiu este ano, provavelmente será superada pelo Brasil, que prevê uma produção recorde de 122,1 milhões de toneladas em 2020.

A soja é o principal produto exportado pelo Brasil e, juntamente com seus derivados, representa 14% de todas as exportações.