Brasil foi 'central de criação' de mutações do coronavírus, afirma estudo

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Consumers flock to popular shopping streets in Sao Paulo, Brazil, on July 31, 2021. Brazil counted 910 deaths by covid-19 in the last 24 hours, according to the balance on July 31, 2021 of the Conass (National Council of Health Secretaries). With this number, the total number of deaths in Brazil in this pandemic reaches 556,370. 37,582 new cases were also reported, with a total of 19,917,855 infections.  (Photo by Cris Faga/NurPhoto via Getty Images)
Aglomeração em rua de comércio na cidade de São Paulo. (Foto: Cris Faga/NurPhoto via Getty Images)
  • Situação foi causada pela falta de medidas efetivas para conter disseminação

  • Outro país preocupante é a África do Sul

  • Variantes são hoje principal fonte de contaminação

Um novo estudo mostrou que as faltas de medidas eficazes para conter a disseminação do coronavírus no Brasil colocou o país, junto com a África do Sul, como principal local de mutação do SARS-CoV-2 em todo o mundo.

A pesquisa feita por seis cientistas brasileiros foi publicada na revista Viruses na última sexta-feira (10). O estudo foi realizado com amostras das cinco regiões brasileiras coletadas entre março de 2020 e junho de 2021, que foram comparadas com o restante do mundo.

"Mutações virais são eventos probabilísticos devido à transmissão aleatória de um vírus entre pessoas infectadas. A carga viral é variável e depende de fatores como o curso de infecção e imunidade do hospedeiro. Alguns indivíduos são 'super espalhadores', o que significa que as variáveis comportamentais e ambientais são relevantes para a infecciosidade, aumentando o sucesso da transmissão", afirma o estudo.

Segundo a pesquisa, uma nova linhagem do vírus foi encontrada em cada 278 amostras no Brasil. Para se ter uma ideia, na Europa esse número foi de uma a cada 1.046 amostras.

As mutações brasileiras do SARS-CoV-2 foram classificadas em nove clados - agrupamentos que incluem um ancestral comum e todos os seus descendentes vivos e extintos.

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“Com o vírus tendo todo o espaço disponível para se multiplicar e infectar pessoas, a gente tem visto que isso acaba se refletindo em um registro de uma diversidade maior. Foi o caso que o estudo encontrou particularmente do Brasil. De tanto a gente ter diversidade, enxergamos a geração de um número de mutações bastante grande; e essas mutações podem dar origem ao longo do tempo a novas variantes, que foi o que aconteceu no caso brasileiro”, explicou Fernando Spilki, que é pesquisador do Laboratório de Microbiologia Molecular da Universidade Feevale, em Novo Hamburgo (RS).

Algumas mutações ocorridas no Brasil se tornaram linhagens ou até variantes (que representam mudanças mais acentuadas que as linhagens. No começo da pandemia, as linhagens B.1.1.28 e B.1.1.33 dominaram no país.

No final do ano passado, a P.2 passou a ter mais predominância e gerou um aumento nas infecções por coronavírus.

Já em janeiro de 2021, a P.1, também conhecida como Gamma, se tornou dominante e foi responsável por 100% dos casos em diversos estados brasileiros, durante o período chamado de segunda onda. A P.1 foi isolada primeiro no Amazonas e é uma variante que carrega maior número de mutações, o que a torna mais transmissível.

"A gente foi capaz de descrever uma série de variantes que ficaram, que permaneceram; e outras que foram transitórias nesse período, demonstrando que o Brasil —por não ter adotado medidas mais restritivas de circulação de pessoas— permitiu que a circulação do vírus acontecesse", afirma Spilki.

Segundo o estudo, até junho de 2021 o país teve a presença de 61 linhagens do coronavírus nas cinco regiões, com alta predominância da variante Gamma.

Segundo Spilki, o número achado chocou os pesquisadores.

“Em termos de acúmulo de mutações é notável o nosso número. É impressionante como esses países [Brasil e África do Sul] conseguiram, ao longo do tempo, permitir um acúmulo de mutações maior que a média, em um processo que leva à formação de variantes”, disse.

O pesquisador avalia que as mutações são reflexo da presença de cidades populosas em ambos países, os quais também não adotaram medidas efetivas para combater a disseminação do vírus.

"Tivemos sistemas de distanciamento social parciais, e isso acaba propiciando esses eventos de mutação —que precisam de muitos hospedeiros para que eles ocorram", sentencia Spilki.

Situação na Índia

Além de Brasil e África do Sul, o estudo apontou a Índia como um foco de produção de mutações. No país asiático surgiu a variante Delta, que hoje domina a pandemia em todo o mundo.

"Os números indicam que tais regiões são realmente hotspots (berçário, na tradução ao português) para o surgimento de novos variantes, especialmente quando as restrições sociais não são aplicadas estritamente, levando a um aumento circulação viral", aponta o artigo.

Existem hoje quatro variantes de preocupação (VOCs) no mundo, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). Dessas, três surgiram no Brasil, Índia e África do Sul. A quarta, chamada Alfa, teve sua origem no Reino Unido.

Esta variante inglesa ainda não teve grande impacto no Brasil, segundo Spilki, principalmente por conta do avanço da vacinação. Além disso, o pico da segunda onda significou um alto número de contaminações, o que gerou uma imunidade temporária, que ainda está em vigor.

O pesquisador alerta, no entanto, que essa situação pode se vir a se reverter. "O número de suscetíveis nesse momento pode ser relativamente baixo, mas essa situação pode se alterar ao longo do tempo", finaliza.

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