Brasil ganhou 100 novas livrarias em quase dois anos: veja como o setor ganha fôlego

O setor de livrarias, fortemente afetado pela pandemia e pelo avanço das gigantes do e-commerce, já começou a se recuperar. Dados da Associação Nacional de Livrarias (ANL) apontam que, entre abril de 2021 e novembro de 2022, surgiram cem novas livrarias no país. Hoje, há cerca de 2.700 — um número ainda baixo, mas que representa uma retomada após 20% dos estabelecimentos terem fechado durante a pandemia, segundo a ANL.

Para fazer frente aos preços competitivos do e-commerce, os livreiros menores recorrem a lançamentos, clubes de leitura, debates, criação de conteúdo digital, curadoria e oferta de espaços acolhedores.

Para o editor e diretor institucional da ANL, Bernardo Gurbanov, o setor já passava por um processo de mudança antes mesmo da pandemia:

— É fruto de uma crise que houve em 2018, com os problemas que as redes Saraiva e Cultura tiveram. No pós-pandemia, o que está funcionando como reforço é o encontro das pessoas. A livraria como um espaço de encontro, de promoção de eventos.

Até 7 de novembro de 2022, o saldo de vendas no ano era de 47,65 milhões de livros, alta de 4% em relação ao mesmo período de 2021, que já havia sido melhor do que 2020. O faturamento totalizou R$ 2,06 bilhões, avanço de 8,59% na base anual, segundo dados do 11º Painel do Varejo de Livros no Brasil em 2022, levantamento da Nielsen Book do Brasil para o Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel).

Uma das redes que conseguiu crescer, apesar das dificuldades do mercado, foi a Livraria Leitura. Fundada em 1967 em Belo Horizonte, a rede saltou de 67 lojas há três anos para 99 ao fim de 2022. Este ano, prevê abrir mais cinco unidades.

Uma das estratégias da Leitura é a descentralização, tanto territorial, com lojas fora do eixo Rio-São Paulo, quanto de administração. A empresa convida gerentes que se destacam para abrir, como sócios, novas unidades, de preferência onde há pouca concorrência. Esses sócios têm ampla liberdade para moldar a livraria ao gosto da clientela da região.

— Esse gerente tem um mínimo de 10% e máximo de 49% de participação. A maior parte do controle acionário fica na família. A Leitura era uma empresa que não tinha dívidas e, com os próprios sócios trabalhando, conseguiu crescer mesmo em momentos ruins de mercado — afirma o presidente da Livraria Leitura e da ANL, Marcus Teles.

Depois de crescer em Brasília e nas regiões Norte e Nordeste, a rede decidiu aproveitar oportunidades no Rio de Janeiro e São Paulo, com foco em lojas de tamanho intermediário, entre 300 e 500 metros quadrados.

Outra que vem crescendo é a Livraria da Vila. Já conhecida do público paulistano, a Vila saltou de 10 para 18 lojas nos últimos três anos, incluindo uma unidade em Brasília.

O presidente da Vila, Samuel Seibel, destaca que a pandemia mostrou a resiliência do livro e das livrarias. A rede segurou todos os funcionários, mesmo no período mais rígido das restrições sanitárias, e depois passou a contratar.

— Tivemos de aprender a trabalhar de outra maneira, fora do espaço físico, com as vendas on-line e atendendo o cliente por WhatsApp. Isso nem passava pela cabeça — conta Seibel.

Tanto a Leitura como a Vila aproveitaram o espaço deixado por grandes redes, como Saraiva e Cultura. No Centro do Rio, por exemplo, uma antiga Saraiva Megastore é hoje uma unidade da Leitura.

Em recuperação judicial desde 2018, a Saraiva fez uma reestruturação em 2021 a fim de estabilizar seu caixa. Das 73 lojas existentes em 2020, ficaram 33.

De acordo com o CEO da Saraiva, Marcos Guedes, a empresa tem buscado capital para melhorar seu sortimento de livros. Além da redução no número de lojas, a rede hoje ocupa espaços menores, de 200 a 300 metros quadrados, e fora dos shoppings e do eixo Rio-São Paulo.

A Saraiva também vai relançar a marca Siciliano, que comprou em 2008. A nova empresa será e funcionará com sistema de franquias. A expectativa é ter 80 lojas nos primeiros anos, entre espaços novos e conversões.

— Essa nova companhia tem o objetivo de trazer para a ponta, para as pequenas cidades, tecnologia e capacidade de acervo, além de um contrato direto com a editora, não através das distribuidoras. Uma livraria menor em uma cidade pequena às vezes não sabe o que foi lançado e não tem acesso direto às editoras. Ela não sabe que editora atende melhor a região dela — diz Guedes.

Ele explica que a saída da recuperação judicial ainda depende de processos pendentes na Justiça, mas que pode ocorrer em meados deste ano:

— A loja vende bem, mas a capacidade financeira da Saraiva limita o aumento do acervo. Estamos buscando um investidor, uma linha de crédito para melhorar a situação financeira de curto prazo.