Brasil iria de pária a bode expiatório do clima com vitória democrata

MARCELO LEITE
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SANTO ANTÔNIO DO PINHAL, SP (FOLHAPRESS) - O chanceler Ernesto Araújo diz sentir-se bem na condição de pária internacional, acompanhado dos EUA de Donald Trump. Se Joe Biden vencer nesta terça-feira (3), seu orgulho nacionalista sofrerá um teste de estresse, começando pelo aumento das pressões para o presidente Jair Bolsonaro reverter sua política de desmonte ambiental. Sem o apoio de Trump, Bolsonaro terá de continuar falando sozinho, no teatro global, ao negar a importância das mudanças climáticas. Ou quando muito, na companhia dos líderes mais retrógrados do planeta, como aqueles com que se alinhou --vários potentados árabes do petróleo, não por acaso-- para assinar declaração sobre saúde da mulher incompatível até com leis brasileiras. Até o conturbado primeiro debate com Trump, em 29 de setembro, Biden parecia ignorar a Amazônia. Surpreendeu então com a promessa de reunir outros países e com eles oferecer US$ 20 bilhões ao Brasil para interromper a derrubada de florestas tropicais, caso contrário o país iria sofrer "consequências econômicas significativas". Bolsonaro reagiu como sabe, de modo agressivo. Numa rede social, escreveu em maiúsculas que a soberania brasileira não era negociável, que não aceitaria suborno nem ameaças. Nada a estranhar, para um presidente que teve a imprudência diplomática de declarar torcida pela vitória de Trump. Há razões para duvidar que se realize a promessa financeira de Biden. Na página em que expõe seus planos para ambiente e clima (joebiden.com/climate-plan), o candidato democrata não menciona Brasil nem Amazônia, embora cite Chile, Canadá e Caribe, nem se oferece para custear diretamente a redução de desmatamento (fala só em cumprir compromisso financeiro dos EUA para resolver o aquecimento global, posto no congelador por Trump). O vice-presidente de Barack Obama se limita a ameaçar, em seu programa, "nomear e responsabilizar os fora-da-lei do clima global". Em um governo democrata, criaria relatório para apontar os países que faltam com seus compromissos no Acordo de Paris, a exemplo do que já fazem os EUA com rankings de direitos humanos e tráfico de pessoas. Falar é fácil, pagar são outros 500. Países mais ricos nunca chegaram a cumprir a meta assumida em 2009 de desembolsar US$ 100 bilhões anuais para nações em desenvolvimento enfrentarem a mudança climática, objetivo a ser alcançado neste 2020. Em 6 dos 10 anos transcorridos, o presidente americano era Obama, e Biden, seu vice. A cenoura fantasiosa dos US$ 20 bilhões para a Amazônia veio acompanhada da exibição do porrete usual em política externa americana, democrata ou republicana, as "consequências econômicas" (a exemplo das que o amigo Trump infligiu ao Brasil sob Bolsonaro). Biden não hesitaria em erguer barreiras a produtos brasileiros, ainda mais se isso lhe permitisse perfilar-se como durão e virtuoso diante de predadores da natureza. Mesmo que sanções não venham, a guerrilha retórica contra o fora-da-lei já provoca e provocará mais dano à economia nacional. Não é outra a razão para setores mais modernizados do agronegócio exportador e grandes bancos terem descido do muro e passado a defender o fim da política de lesa-ambiente. As vantagens esperadas de um acordo da União Europeia com o Mercosul estão por um fio precisamente por causa da insistência do governo Bolsonaro em tratar o desmatamento como questão de relações públicas, ou problema de imagem --quando as imagens que importam chegam de satélites. A doutrina militar de que as denúncias de destruição fazem parte de conspiração para internacionalizar a Amazônia e ganhar acesso a riquezas naturais não resiste às lentes do sensoriamento remoto. Não será um sobrevoo sobre a selva que mudará a visão de estrangeiros sobre o desmatamento, pois os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) estão disponíveis para quem não se nega a encarar a realidade. Trump e Bolsonaro vivem e atuam em outro mundo; Biden, não. O retorno nos EUA a uma prática política mais fundada em evidências, não só em construções ideológicas, poderá dar novo impulso para as negociações internacionais sobre mudança do clima que se arrastam desde a cúpula ambiental de 1992 no Rio. Poderia ser uma boa notícia para o Brasil, mas sob Bolsonaro o país fez meia volta e renunciou ao protagonismo exercido até a Conferência de Paris (2015). Pior, negligencia e até fomenta a destruição da floresta amazônica e de outros biomas, como cerrado e Pantanal. A política comandada pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, reacendeu a fornalha que faz da mudança do uso da terra --a conversão de matas em pastos-- a principal fonte nacional de emissões de carbono. Como resultado, multiplicam-se as iniciativas de boicote a commodities brasileiras, como soja e carne bovina. Com Trump mantido no poder, o Brasil ainda poderia contar com a conivência política e a miragem de benefícios econômicos que a parceria ideológica nunca materializa. Com a eventual vitória de Biden, o pária se transformará num bode expiatório para a comunidade internacional fazer parecer que enfim se mobiliza perante o desafio da mudança climática.