Brasil começa atordoado o pior mês de sua história recente

Matheus Pichonelli
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A demonstrator takes part in a protest against Brazil's President Jair Bolsonaro and his handling of the coronavirus disease (COVID-19) crisis, in Brasilia, Brazil, January 31, 2021. REUTERS/Ueslei Marcelino     TPX IMAGES OF THE DAY
Muher protesta contra política de combate ao coronavírus do presidente Jair Bolsonaro em janeiro de 2021, em Brasília. Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

Luiz Felipe Scolari, esteja onde estiver, já pode fazer um busto em homenagem a Jair Bolsonaro.

Nesses meses sob o comando do capitão, se algum brasileiro ainda se lembra dos 7 a 1, retumbante derrota sofrida na Copa de 2014 contra a Alemanha, é com saudade dos bons e velhos tempos em que o futebol servia de expiação para todas as dores e feridas no plano moral. De lá pra cá não teve brasileiro que não se converteu em David Luiz, o zagueiro que só queria dar alegria para seu povo enquanto via zonzo e sem reação o ataque alemão enfileirar gol atrás de gol.

Como quem assiste aflito à maior derrota de sua história, acompanhar as notícias sobre como o Brasil tem atuado em seu maior desafio no século traz um misto de esperança por reação e súplicas para que o jogo termine logo.

Na vida real, ninguém sabe quando acaba a sacolejada ou quando adversário, já pelejando entre destroços, começa a sentir pena e tocar a bola de lado para evitar uma humilhação ainda maior.

Até outro dia, achava que esse momento, o tal fundo do poço, tinha chegado quando o Ministério da Saúde, sob a tutela do general especialista em logística Eduardo Pazuello, enviou para o Amazonas os lotes de vacina do Amapá e para o Amapá os lotes do Amazonas —estado mais populoso e em situação mais grave do que o vizinho separado por uma letra da abreviação e uma distância de mais ou menos 1.000 quilômetros entre as capitais. Quem nunca?

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Quem imaginava que a confusão fechava a conta da goleada se enganou. Tudo indica que o erro era apenas o primeiro gol do Khedira. Era melhor não voltar ao segundo tempo.

Entre tantas baixas, não é possível ainda vivenciar o luto e contabilizar nossos mortos sem a sensação de que o pior está por vir. “Teremos o março mais triste de nossas vidas”, prevê a médica e pesquisadora da Fiocruz Margareth Dalcolmo em entrevista à BBC Brasil.

Quem achava que o pior da história havia ficado em fevereiro foi dormir na última terça-feira, 2 de março, com uma notícia devastadora: o país acabava de bater seu recorde de óbitos por covid-19 em um único dia. Foram 1.726 vítimas contabilizadas em 24 horas. Mais de uma pessoa por minuto. Quase um Boeing 737 caindo por hora em território nacional.

Em reunião com prefeitos, o próprio governador João Doria (PSDB-SP), que hesitou em adotar medidas mais duras para conter a circulação de pessoas no estado, admitiu que as duas piores semanas da pandemia estão por vir.

Sim, depois de um 2020 que poucos terão motivos para se lembrar, chegamos só agora ao pior momento de uma pandemia que já era traumática e dolorosa para todo mundo que perdeu amigos, parentes ou vizinhos. De uns dias pra cá, abrir as redes sociais é praticamente se deparar com um obituário: todo dia, a toda hora, tem alguém se despedindo de alguém.

Os indicadores não permitem alento. O plano de vacinação patina. Dez capitais do país já têm UTIs com mais de 90% de ocupação. Hospitais da rede privada em São Paulo estão no limite.

Após todas as reações e todos os boicotes, gestores estaduais e municipais não veem outra solução para tirar o vírus de circulação do que adotar medidas drásticas, como o lockdown.

São mais de 40 dias com média superior a 1.000 mortes. Pior: com viés de alta e sem hora pra acabar.

As medidas, se funcionarem, já chegam com atraso. Com um país em luto, cansado de guerra, celebrando o auxílio-emergencial como quem celebra o gol do Oscar e os índices de desemprego batendo recordes.

A aposta na imunidade do rebanho, apregoada pelo presidente da República, para quem a melhor vacina era pegar o vírus, foi praticamente soterrada pelas novas cepas espalhadas literalmente pelos ares nos regabofes e retomadas de uma suposta normalidade, com ônibus e metrôs lotados, do fim do ano para cá. Mas quem ligasse o alerta lá atrás era acusado de tramar contra o país, torcer pelo quanto pior melhor, dessacralizar a liberdade de ir e vir dos brasileiros escalados para salvar CNPJs às custas do próprio CPF.

“Vitória”, anunciaram os áulicos bolsonaristas, parte deles com mandatos eletivos, ao saber que o governador do Amazonas recuou do duro e necessário lockdown em seu estado no fim do ano. Deu no que deu.

A tragédia do coronavírus no Brasil é uma tragédia que não permite especular quando termina. Apenas em que momento começou. Mas nem isso é consenso.

Um ano atrás, em 4 de março de 2020, com o mundo escancarando sinais da hecatombe e os primeiros óbitos registrados por aqui, Jair Bolsonaro escalou um palhaço e dublê de comediante para lançar bananas aos jornalistas que queriam repercutir os números medíocres do PIB do ano anterior e divulgados naquele dia. (Um ano depois, o tombo é de 4,1%).

De lá pra cá já teve churrasco, passeio de jet ski, cavalgada, reunião escabrosa, fritura de ministro, ingerência indevida em estruturas públicas e teoricamente autônomas, campanha anti-vacina, estímulo a aglomerações, demonização de protocolos sanitários, ataques à ciência, aos médicos, ao STF e ao Congresso, hoje domesticado e ocupado com assuntos urgentes como a PEC da Im(p)unidade ou em saber se seu novo presidente é réu ou não por corrupção e pode ou não entrar na linha sucessória. E pensar que até pouco tempo havia quem achasse que o marco do planejamento catastrófico do país era escalar o franzino Bernard para amedrontar o meio-campo alemão.

Hoje a principal carta na manga do presidente, mais confiante e iludido da própria força do que zagueiro brasileira na Copa de 2014, é um ataque gratuito, eivado de má-fé e desinformação, a governadores, que tentam fazer o que podem, revidam, levam o país a uma crise inédita entre entes federativos e à perda inacreditável de tempo e energia com a última groselha do tal líder da nação. É como dançar à beira do precipício.

No horizonte, não há sinal de mudança de postura, comunicação de crise ou algum acordo entre alertas e negacionismos, estes patrocinados por quem chegou ao poder como anedota e que há um ano tenta gerenciar o desafio histórico com os estilingues e as bolinhas de papel dos moleques da quinta série.

Neste campo não há jogadores e torcida. Apenas cúmplices. 7 a 1 foi pouco.