Brasil perde 43 mil empregos em um mês. Mas "problema" é turismo gay e propaganda sobre diversidade

Propaganda do Banco do Brasil vetada por Bolsonaro

Pelo que leio e ouço por ai, a reforma da Previdência é não só a reforma das reformas.

É a cura para todas as nossas dores, da alma e às unhas encravadas.

Não que eu duvide. Em sã consciência, ninguém pode minimizar a importância de se repensar o modelo de aposentadorias num país onde quem está na ativa contribui para o sustento de quem se aposentou – um país com uma curva de envelhecimento ascendente.

Me pergunto apenas se não seria, talvez, todavia, contudo e com todo respeito aos analistas, mais urgente pensar quem restará para contar história e contribuir com o sistema, ou com um modelo complementar de previdência, se alguns números decrescentes seguirem a toada.

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Durante a semana, soubemos, por exemplo, que a economia brasileira fechou 43.196 empregos com carteira assinada em março. No período, houve 1.216.177 contratações e 1.304.373 demissões. O baque foi maior no setor de comércio, que perdeu 28,8 mil postos.

Nada, nada, são 43 mil pessoas, em apenas um mês, deixando de contribuir para o sistema que se quer reformar.

No Brasil, 12% da população (mais de 12,7 milhões de pessoas) está desempregada e ninguém sabe exatamente dizer se o viés é de alta ou de baixa. Não é que o ministro do Trabalho, autoridade do assunto, esteja em silêncio: ele simplesmente não existe. O cargo é um dos muitos postos cortados no novo governo.

Em 2018, 57,8 milhões de eleitores deram a Jair Bolsonaro o voto de confiança para tirar o país do buraco de uma das maiores recessões de sua história.

O resumo da semana presidencial, no entanto, ajuda a dimensionar onde os esforços estão sendo aplicados. Nos últimos dias, o presidente gastou sola, e verbo, para apaziguar os ânimos entre os familiares e seu vice, general Mourão; para retomar a senha do Twitter que seu filho sequestrou sem dar notícia do paradeiro; para cortar verba de curso de humanas; para desestimular parte dos turistas a visitarem o Brasil em nome da família; para meter o bedelho na propaganda de um banco público do qual não poderia ter ingerência.

Duas considerações sobre as duas últimas iniciativas.

Em café com jornalistas, o presidente se disse empenhado em evitar que o Brasil se tornasse um país do mundo gay, de turismo gay – somos, afinal, uma casa de família, e governada por uma, inclusive.

Não é preciso entender de economia ou atoleiros para imaginar como a declaração afeta a decisão de milhares de estrangeiros que são ou tenham gays na família em passar as férias e despejar dinheiro em um país onde não são bem-vindos.

O mesmo não se pode dizer sobre quem “quiser vir aqui fazer sexo com uma mulher". “Fique à vontade”, disse o presidente.

Com um garoto-propaganda assim, quem precisa de ministro do Turismo? O nosso, afinal, está ocupado em responder as acusações de candidatas-laranja e supostas ameaças de morte. Coisas de família – e da mais alta qualificação técnica.

A estreiteza do pensamento não é só questão de opinião, como querem fazer crer os que insistem em dizer que “o que uma pessoa pensa é problema dela”.

A pessoa, no caso, é presidente da República, e um presidente da República devidamente ocupado com as macroquestões conseguiu arrumar tempo, na última semana, para interferir em uma propaganda do Banco do Brasil marcada pela diversidade e focada no público jovem e mandar tirar do ar.

Nada mal para quem vestiu a camisa do liberalismo e prometeu não intervir em questões econômicas estratégicas (o preço do diesel, por exemplo). Em um país de 12 milhões de desempregados, a canetada do presidente acaba de produzir mais um: o diretor de Comunicação e Marketing, Delano Valentim, acaba de entrar na fila do seguro-desemprego.