Brasil que dá certo só aparece por iniciativas individuais em meio a “tsunami” de burrice e descaso

Regis Tadeu

Dias atrás, soube de uma notícia que me deixou deveras feliz e entristecido ao mesmo tempo. Feliz porque existe uma equipe de estudantes adolescentes brasileiros que vai participar de uma competição organizada pela NASA, a agência espacial americana, pois conseguiram construir – acredite se quiser! -, um veículo “rover” que pode ser usado na exploração de Marte em uma escola em São Gonçalo (RJ). Triste porque os seis integrantes da equipe cujos nomes faço questão de publicar  – Rafaela Bastos, Nathália Pires,  Fellipe Franco, Alexandre Rodrigues, Larissa Perrone e Yago Dutra -, precisam arrecadar R$ 40 mil reais para viajar até os Estados Unidos para participar do evento e NINGUÉM do governo brasileiro sequer enviou um telegrama de “boa sorte” aos jovens, quanto mais uma grana que desobrigasse a turma de fazer uma urgentíssima “vaquinha virtual” – que pode ser acessada aqui – , pois a competição vai rolar agora, entre 30 de março e 1º de abril. Alguns são medalhistas de Olimpíadas internacionais de Matemática, Química e Robótica, outro é multinstrumentista, poliglota e campeão de xadrez… Tudo sem a ajuda governamental, bancando seus próprios custos com a ajuda da família e de amigos.

Talvez você não preste atenção ou sequer dê importância a isso, mas de tempos em tempos recebemos notícias de abnegados e dedicados estudantes brasileiros que são bem sucedidos por se tornarem exceções no vastíssimo oceano de ignorância débil mental em que se transformou a juventude brasileira. Como foi o caso das trigêmeas Loterio – Fábia, Fabiele e Fabíola -, que moravam em uma casa sem internet na zona rural de Santa Leopoldina (ES) e que todo dia percorriam 21 quilômetros para ir até a sua escola. As meninas, estimuladas por uma professora não menos incansável e dedicada – Andréia Biasutti -, conseguiram a façanha de faturaram medalha de prata e duas de bronze na Olimpíada de Matemática de 2015.

Agora imagine a cena: três filhas de um casal de agricultores capixabas – o pai Paulo e a mãe Lauriza -, contra todos os prognósticos e a total falta de recursos, conseguiu tal façanha. Agora olhe para o seu filho/filha que passa o dia inteiro no celular ‘tuítando’ merdas, ‘xingando muito’ quem fala mal da Rihanna, Lady Gaga, Beyoncé e de quem mais você imaginar, sempre usando termos ‘inteligentíssimos’ como “lacrou, biba!”, “quem é você na fila do pão” e outras cretinices. Diga a verdade: você chora copiosamente embaixo do chuveiro, né? Não sou pai, mas entendo a sua dor…
Meninos e meninas vencendo Olimpíadas de Matemática continuam a mostrar que o Brasil poderia ser uma nação com padrões de Primeiro Mundo caso nossos governantes parassem de atirar em nós buscando acertar qualquer traço de inteligência e capacidade de raciocínio que se erga perante tantas dificuldades criadas por eles mesmos.

E não pense que isso só acontece com adolescentes. Alguém aí ficou sabendo da história de Lucy Maria Degli Esposti Pereira, uma ex-freira de 27 anos que decidiu voltar a estudar em colégio de Bom Jesus do Itabapoana (RJ) e que conseguiu uma medalha de ouro na Olimpíada de 2014? Não, né? Pois saiba que ela ficou dois meses sem aulas de seu curso noturno no ano seguinte por causa de uma greve de motoristas de transporte escolar. Para quem estudava à noite porque ajudava o pai em serviços de pedreiro durante o dia, era a morte de uma trajetória de vida, certo? Errado! Ela se dedicou ainda mais e ganhou outra medalha de ouro na Olimpíada de 2015!!! Alguém tem alguma dúvida de que ela tem todas as condições intelectuais para se tornar uma engenheira de construção civil?

Escrevo tudo isso para louvar a sabedoria de minha querida mãezinha – a honorável e saudosa Dona Irene -, que nunca deixou faltar livros em casa para o seu menino aqui, sempre repetindo uma espécie de “mantra” que, basicamente, dizia “Quem estuda, tudo consegue”. Você pode pensar que isso é um pensamento convencional, mas eu afirmo que é isso que faz com que muita gente, de todas as idades, escape das armadilhas que uma sociedade cada vez mais deteriorada prepara em cada esquina e diariamente. Se nossos governantes deixarem de sabotar a vida da molecada de São Gonçalo, das trigêmeas capixabas, da ex-freira Lucy e de toda a juventude que insiste em nadar contra o tsunami de burrice que varre o Brasil há décadas, teremos muito mais que ótimas alunas anônimas espalhadas pelo interior do Brasil.

Agora olhe novamente para os seus filhos e pense no que acabei de escrever. O que você sente? Orgulho ou vontade de chorar embaixo do chuveiro?