O Brasil que tem fome deixou o combate à corrupção para depois

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Homeless men queue to receive a meal from members of the project Covid Sem Fome (Covid Without Hunger) at the internationally renown tourist attraction of the Lapa Arches, in downtown Rio de Janeiro, Brazil, on May 05, 2021. (Photo by MAURO PIMENTEL / AFP) (Photo by MAURO PIMENTEL/AFP via Getty Images)
Pessoas entram na fila da marmita durante mutirão do projeto Covid Sem Fome, em maio, no Rio. Foto: Mauro Pimentel / AFP (via Getty Images)

No último domingo, um antigo professor e amigo contou, em sua página de Facebook, que entrou em um bar para comprar cigarros e ouviu o grito de uma mulher.

“Eu tenho fome. Eu quero um prato de comida”.

O tom da voz não era de quem cobra piedade, mas ação. A mulher tinha fome e pressa. Tinha raiva.

Um homem que jantava ali com seu filho pediu para o garçom embalar as sobras de seu petisco e entregar para a mulher, que se afastava. O empregado correu para alcançá-la. Os gritos cessaram.

“Foi assustador”, descreveu.

Cenas assim têm sido recorrentes pelas cidades. Basta sair do supermercado para observar as mãos estendidas para a caridade. Estamos falando de São Paulo, a maior e mais rica cidade do país.

No Rio Grande do Norte, a repórter Renata Moura descreve na Folha de S.Paulo uma dura realidade no semiárido. A estiagem, o desemprego e a falta de apoio governamental tem levado moradores do interior a se alimentar de lagartos para tapear a fome. Um entrevistado contou que já tem um mês que comeu carne pela última vez. Foi quando ajudou a arrancar o couro de uma vaca morta.

Uma estudo da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional mostrou que atualmente 19 milhões de brasileiros (o equivalente à população do Chile, como mostrou uma reportagem da revista piauí) passam fome e que mais da metade da população sofre com algum nível de insegurança alimentar.

O quadro ajuda a ilustrar por que, em uma pesquisa Ipec divulgada em novembro, a fome e a pobreza saltaram para as primeiras preocupações de jovens entre 16 e 34 anos na hora de definir seu voto nas eleições do ano que vem. Outros pontos de destaque na pesquisa são a geração de empregos e a preservação do meio ambiente.

No levantamento, um em cada três entrevistados citou o combate à fome e à pobreza como tarefa primordial do próximo presidente. Outros 16% disseram esperar uma economia forte, com geração de empregos.

A tendência é que o assunto siga na lista de prioridades quanto menos farta for a mesa dos brasileiros.

Nas últimas eleições, o candidato vencedor da corrida presidencial levou a melhor ao pautar os debates em torno da luta contra a corrupção, que só enxergava nos adversários, e da pauta de costumes, como se o grande problema do país fosse a distribuição de um inexistente kit gay nas escolas.

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Na falta de problemas reais, que o então favorito da disputa se negava a enfrentar nos debates, parte dos eleitores se deixou pautar por problemas que só existiam na cabeça do futuro líder.

Resultado: a realidade se deteriorou e galgou posições na lista das urgências nacionais. A fome voltou ao mapa e hoje ocupa o centro das preocupações.

Em 2022, quem quiser assumir o desafio de governar o país pelos próximos anos terá de mostrar aos eleitores que tem um plano para enfrentar a situação.

Jair Bolsonaro sabe disso e vai apostar todas as fichas nos programas sociais aprovados a fórceps no Congresso. Na eleição, terá a chance de mostrar como bancar e como transformar políticas como o Auxílio Brasil em programas permanentes. 

A dica, para o eleitor, é observar com lupas a manutenção de sua base de apoio, hoje alimentada pelas emendas de relator, moedas de troca e cooptação de aliados novamente liberadas por ordem de Rosa Weber, do STF.

A falta de critério na distribuição de recursos é um dos muitos nós políticos que hoje resultam na deterioração do quadro social. 

O pagamento das primeiras parcelas do Auxílio Brasil irá testar a manutenção ou não do apoio dos eleitores mais pobres, que recebem até dois salários mínimos, em Luiz Inácio Lula da Silva, favorito de seis em cada dez pessoas do segmento.

O embate em torno da fome e da miséria está desenhado entre os dois candidatos hoje à frente das pesquisas.

Enquanto eles pintam o rosto para a guerra, Sergio Moro, certamente o nome mais promissor para trafegar na (ainda estreita) margem da terceira via, apresenta até aqui um figurino de paladino do combate à corrupção que já não tem o mesmo eco de outros tempos –mais por desencanto do que pela sensação de que este é um problema solucionado.

O discurso anticorrupção encarnado pelo ex-juiz, desacreditado por ter servido a Bolsonaro e pelo teor das mensagens reveladas na Vaza Jato, poderia fazer estrago em 2018. Hoje não provoca arranhão.

O Brasil tem outra urgência. O Brasil tem fome. E ninguém será eleito se não disser o que fazer para botar comida à mesa de quem hoje grita.

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