Brasil queima, por ano, uma área equivalente a Inglaterra desde 1986

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Área de floresta Amazônica é incendiado em região rural do município de Novo Progresso, no sul do Pará, no entorno da Floresta Nacional do Jamanxim. Novo Progresso/PA, 31.ago.2019 - (Foto: Gustavo Basso / Yahoo Notícias)
Área de floresta Amazônica é incendiado em região rural do município de Novo Progresso, no sul do Pará, no entorno da Floresta Nacional do Jamanxim. Novo Progresso/PA, 31.ago.2019 - (Foto: Gustavo Basso / Yahoo Notícias)

Todos os anos, uma área maior que a Inglaterra queima no Brasil, sobretudo nos meses mais secos, entre agosto e outubro. 

É o que revela o maior levantamento já feito sobre cicatrizes de queimadas, elaborado pela rede de pesquisadores que compõem o MapBiomas. 

Foram analisadas imagens de satélites dos últimos 36 anos que revelam que 20% do país queimou ao menos uma vez nesse período. É como se toda a região Nordeste com seus nove Estados houvesse sido dizimada pelo fogo desde 1986.

Fogo acumulado no Brasil ao longo dos anos, entre 1986 e 2020, segundo a análise do MapBiomas – Mapeamento das áreas queimadas no Brasil. (Imagem: MapBiomas / Divulgação)
Fogo acumulado no Brasil ao longo dos anos, entre 1986 e 2020, segundo a análise do MapBiomas – Mapeamento das áreas queimadas no Brasil. (Imagem: MapBiomas / Divulgação)

“Posso afirmar que 100% dos incêndios na Amazônia foram causados por humanos”, alerta a geógrafa Ane Alencar, diretora de ciência do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e coordenadora do Map Biomas Fogo. 

Para ela, mesmo em biomas mais adaptados às chamas, como Cerrado e Pantanal, a época em que as queimadas se concentram ao longo desses 36 anos denuncia a ação do homem: “O grande causador de fogo na natureza são os relâmpagos, mas como iniciador de incêndios eles ocorrem quase exclusivamente no início e fim da época chuvosa, e o que vemos é queimadas concentradas justamente nos meses mais secos do ano, o que leva a crer que o homem é o maior responsável por elas”.

No ano passado o Pantanal sofreu com a maior onda de incêndios florestais de sua história: 26% de todo o bioma, que possui a maior densidade de espécies de mamíferos do mundo, com uma concentração nove vezes maior que a vizinha Amazônia, foi consumido pelo fogo, concentrado sobretudo entre os meses de agosto e setembro. 

Incêndio florestal fora de controle consome área de vegetação nativa do Pantanal em Mato Grosso. Ao longo de 2020, quase metade da área do bioma no Estado foi queimado pelos incêndios, muitos iniciados em áreas de fazendas particulares, agravados pela seca recorde na região. Poconé/MT - 19.ago.2020 - (Foto: Gustavo Basso / Yahoo Notícias)
Incêndio florestal fora de controle consome área de vegetação nativa do Pantanal em Mato Grosso. Ao longo de 2020, quase metade da área do bioma no Estado foi queimado pelos incêndios, muitos iniciados em áreas de fazendas particulares, agravados pela seca recorde na região. Poconé/MT - 19.ago.2020 - (Foto: Gustavo Basso / Yahoo Notícias)

Em Mato Grosso, onde fica cerca de um terço do bioma, quase metade da área foi queimada.

Dentro do período analisado, 2007 foi o ano mais grave, com mais de 230.000 km2 queimados pelo país - área equivalente ao Estado de Rondônia. Uma das grandes fronteiras agrárias na floresta Amazônica, Rondônia é atualmente vice-campeão de desmatamento da floresta em números relativos. 

Entre Agosto de 2020 e Março de 2021, quase 0,3% do Estado perdeu a cobertura da floresta. Junto com Acre, vice-campeão, um Rio de Janeiro inteiro de floresta Amazônica foi ao chão, segundo dados do Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia).

Em número absolutos, a derrubada só é superada pelos gigantes Mato Grosso, Pará e Amazonas, que tiveram uma média de 0,1% de desmatamento. Este processo de derrubada da floresta está diretamente relacionado com as queimadas. 

“Tanto na Amazônia quanto no Cerrado, quando as pessoas usam o chamado correntão e derrubam a cobertura florestal, esse material é queimado depois para limpeza do terreno”, explica Ane, que questiona: “Qual o intuito de desflorestal senão passar aquela cobertura para outra utilização, nem que seja especulação?”.

Ciclo Vicioso

Vera Arruda, pesquisadora do IPAM, destaca que o fogo também tem uma utilização prática, como para o manejo de áreas de pasto e proteção de áreas de conservação. “Muitas unidades protegidas usam este fogo para diminuir a quantidade de material combustível para um eventual incêndio que fuja do controle”, afirma a engenheira florestal.

Com o uso disseminado do fogo para a prática agrária junto dos desmatamentos e incêndios florestais como os ocorridos no Pantanal em 2020, o Brasil é o serxto maior emissor de gases causadores do efeito estufa, apesar de o país estar na 16ª posição em produção industrial. Quase metade dessas emissões - 44% - são originadas do desmatamento do país. 

Trecho da floresta Amazônica queima no município de Novo Progresso, no sul do Pará, nos dias que se seguiram ao ‘Dia do Fogo’, quando fazendeiros da cidade atearam 124 focos de incêndio, contra  42 no dia anterior. Novo Progresso/PA, 29.ago.2019 - (Foto: Gustavo Basso / Yahoo Notícias)
Trecho da floresta Amazônica queima no município de Novo Progresso, no sul do Pará, nos dias que se seguiram ao ‘Dia do Fogo’, quando fazendeiros da cidade atearam 124 focos de incêndio, contra 42 no dia anterior. Novo Progresso/PA, 29.ago.2019 - (Foto: Gustavo Basso / Yahoo Notícias)

A queima de florestas, provocadas ou não por ação humana, não entra nesta conta, assim como o fogo para limpeza de pastos, prática comum em todo o Brasil. 

“Há uma polêmica em torno disso, porque muitos alegam que em outros países a floresta também é queimada de forma natural, ela queima e se recupera; no entanto isso não acontece no Brasil; o processo de recuperação desse carbono queimado em uma floresta como a Amazônia é muito mais lento, além de tornar a queimar com mais facilidade.”, aponta Ane. 

“Não estamos contabilizando uma fonte de emissão muito importante para o nosso cálculo e que estimamos que equivale ao cálculo de desmatamento, o que dobraria o volume que emitimos com queimadas”, avalia a pesquisadora.

Membros do Prevfogo combatem queimada em assentamento rural na cidade de Altamira com auxílio de militares. Os cortes orçamentais do governo Bolsonaro desde Janeiro de 2019 afectaram severamente as brigadas, que foram reduzidas em regiões críticas, como a Amazónia. Altamira/PA, 3.set.2019 - (Foto: Gustavo Basso / Yahoo Notícias)
Membros do Prevfogo combatem queimada em assentamento rural na cidade de Altamira com auxílio de militares. Os cortes orçamentais do governo Bolsonaro desde Janeiro de 2019 afectaram severamente as brigadas, que foram reduzidas em regiões críticas, como a Amazónia. Altamira/PA, 3.set.2019 - (Foto: Gustavo Basso / Yahoo Notícias)

Enquanto o desmatamento e as queimadas colaboram com o câmbio climático e a falta de chuvas no Sudeste, apontados como alguns dos dos causadores da atual crise hídrica, eles são afetados pelas mudanças, em um ciclo vicioso. 

“As emissões por fogo contribuem com o aquecimento global e, logo, com as mudanças climáticas, enquanto as mudanças aumentam a inflamabilidade e potência das queimadas porque elas exageram eventos extremos e a ocorrência do fogo”, ressalta Ane.

Neste ano, o Centro-Sul vive a pior seca nos seus rios e reservatórios em 91 anos de registros, enquanto os rios do Pantanal apresentam o menor nível em 50 anos, o que em uma decisão inédita na história, fará com que o transporte de cargas no Rio Paraguai, entre Brasil, Paraguai, Bolívia e Argentina, seja suspenso por dois anos seguintes.

Mais de 80% da RPPN (Reserva Particular do Património Natural) Sesc Pantanal - a maior do género do Brasil - foi queimada em agosto e setembro de 2020, afetando mais de 72 mil hectares. Ao todo, o Pantanal perdeu 26% de sua vegetação para o fogo em 2020. Barão de Melgaço/MT - 27.ago.2020 - (Foto: Gustavo Basso / Yahoo Notícias)
Mais de 80% da RPPN (Reserva Particular do Património Natural) Sesc Pantanal - a maior do género do Brasil - foi queimada em agosto e setembro de 2020, afetando mais de 72 mil hectares. Ao todo, o Pantanal perdeu 26% de sua vegetação para o fogo em 2020. Barão de Melgaço/MT - 27.ago.2020 - (Foto: Gustavo Basso / Yahoo Notícias)

Nesta semana, a Companhia de Saneamento do Estado de São Paulo (Sabesp) comunicou que o Sistema Cantareira atingiu um volume útil de 39,2%, que já configura sistema de alerta. 

De acordo com o professor do Instituto de Estudos Avançados da USP, Pedro Cortes, a situação é muito difícil. “A primavera deve ser menos chuvosa do que o usual, o mesmo durante o verão, o que amplia a fase crítica para o segundo semestre e o ano que vem”.

Neste verão o La Ninã continuará em atividade, provocando estiagem na região sul do país, enquanto a Amazônia deve receber menos chuva, além de liberar menos umidade por conta do desmatamento, ameaçando a recarga dos rios subterrâneos e abertos no centro-sul e agravando a atual crise hídrica.

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