Brasil registra, pela primeira vez, mais de 2 mil mortos por Covid-19 em um dia

Daniel Gullino, Evelin Azevedo, Jussara Soares, Julia Lindner e Rafael Garcia
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RIO, SÃO PAULO e BRASÍLIA — O Brasil registrou nesta quarta-feira, pela primeira vez, mais de 2 mil mortes por Covid-19 em 24 horas. O recorde ocorreu na véspera de um ano da classificação da crise sanitária global como pandemia — a declaração foi feita pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 11 de março de 2020.

O país contabilizou, nas últimas 24 horas, 2.349 óbitos por Covid-19; desde o início da pandemia, já foram 270.917 vidas perdidas.

A média móvel de mortes bateu recorde pelo 12º dia consecutivo, chegando a 1.645, um avanço de 43% em relação ao registrado duas semanas atrás.

Desde 20h de terça-feira, 80.955 novos casos de Covid-19 foram registrados, totalizando 11.205.972 infectados pelo vírus Sars-CoV-2. A média móvel foi de 69.107 diagnósticos positivos, 32% maior do que o cálculo de 14 dias atrás.

Os dados são do consórcio formado por O GLOBO, Extra, G1, Folha de S.Paulo, UOL e O Estado de S. Paulo e reúne informações das secretarias estaduais de Saúde divulgadas diariamente até as 20h. A iniciativa dos veículos da mídia foi criada a partir de inconsistências nos dados apresentados pelo Ministério da Saúde. O governo do Distrito Federal não divulgou o seu boletim nesta quarta-feira.

Cientistas condenam 'fracasso' do governo

Para a epidemiologista Gulnar Azevedo, presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), os números atuais da pandemia são reflexo do "fracasso" da resposta do governo federal à pandemia.

— Não era para o Brasil estar nesta situação. Essa quantidade de óbitos é inaceitável — condena. — Já vínhamos alertando há muito tempo sobre o crescimento deste índice.

A associação defende um lockdown de rigor máximo para combater a pandemia no país.

— Precisamos de pelo menos 14 dias de restrições fortes para conseguirmos ter um quadro menor (de casos e infecções) dentro de algumas semanas — diz. — Mas não estamos vendo medidas restritivas organizadas e bem feitas. Não há sequer uma campanha forte de comunicação mostrando que este momento é gravissimo, e que só devemos sair de casa em caso de última necessidade.

Para a microbiologista Natalia Pasternak, presidente do Instituto Questão de Ciência e colunista do GLOBO, a campanha de vacinação não deve ter efeito na taxa de infecção da Covid-19 em curto prazo no Brasil. Até o momento, o Brasil imunizou apenas 4,26% de sua população com a primeira dose (9.013.639 aplicadas). Somente 1,5% tomou a segunda dose (3.166.189), de acordo com o boletim da imprensa.

— Nossa campanha de vacinação ainda está muito incipiente, porque não temos doses suficientes. Precisamos pressionar o governo para comprar mais vacinas ou destitui-lo dessa função.

Para a microbiologista, novas variantes mais transmissíveis do coronavírus podem ter influenciado as estatísticas, mas não está claro qual seria o seu peso.

Os relatos e dados regionais que indicam uma maior contaminação de jovens por Covid-19 podem não estar relacionados a novas variantes como a P1, mas a um recorte de idade entre os infectados, avalia Pasternak.

— Pode ser que tenha havido uma maior exposição ao vírus entre quem frequentou carnaval ou balada nesse período — cogita. — É uma questão de probabilidade. Se temos mais jovens contaminados, então haverá mais jovens internados.

Bolsonaro muda de postura

Na tarde desta quarta-feira, em cerimônia no Palácio do Planalto, o presidente Jair Bolsonaro, habitual crítico de políticas de isolamento social, afirmou que o governo federal chegou a adotá-las no início da pandemia. Usando máscara, ele sancionou, em uma cerimônia no Palácio do Planalto, projetos que facilitam e aceleram a compra de imunizantes.

— Fomos e somos incansáveis desde o primeiro momento na luta contra a pandemia. Desde o início, do resgate de brasileiros que estavam em Wuhan (China), fomos um exemplo para o mundo. Várias medidas tomamos em 2020. A política de lockdown adotada no passado, o isolamento, o confinamento, visava tão somente dar tempo para que os hospitais fossem aparelhados com leitos de UTI e respiradores.

No entanto, menos de três horas depois, Bolsonaro voltou a condenar as medidas de distanciamento. Segundo ele, a maioria dos governadores alinhados ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva optou por fechar o comércio e "só sabe a política do fica em casa".

— Não faltou (sic) recursos. O governo federal fez a sua parte até demais. Então não justifica essa crítica do ex-presidente Lula, que agora inicia uma campanha. E como não tem nada para mostrar de bom, a campanha é baseada em criticar, mentir e desinformar. Nada mais além disso — declarou o presidente, que estendeu a crítica aos ge stores estaduais. — Esses governadores, não são todos, só sabem essa política do fica em casa. Não deu certo ano passado, mortes tivemos, mortes continuamos tendo. Infelizmente, de uma forma ou de outra, mortes continuarão acontecendo.

Em um discurso nesta quarta-freira, o ex-presidente Luiz Inacio Lula da Silva, que já se apresenta como presidenciável e potencial rival de Bolsonaro na eleição do ano que vem, defendeu a imunização e atacou seu concorrente: "Não siga nenhuma decisão imbecil do presidente da República ou do ministro da Saúde. Tome vacina".