Brasil se destaca como ativo para a transição do mundo para um futuro de baixo carbono

Poucas questões atraem mais o interesse global do que a conservação da Amazônia. Segundo o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), a área de floresta derrubada na Amazônia Legal já ultrapassou os 9.000 km² este ano e é maior desmatada em 15 anos.

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Nessa situação, os créditos de carbono surgem como uma alternativa para evitar a emissão do gás carbônico (CO₂). Esses créditos serão gerados pelo desenvolvimento de fontes de energia renovável e em projetos de preservação e regeneração de áreas florestais. De acordo com a consultoria McKinsey, o Brasil é dono de 15% do potencial global de geração de créditos por soluções naturais.

Outro relatório, o “The Amazon’s Marathon: Brazil to lead a low-carbon economy from the Amazon to the world”, produzido pela consultoria Systemiq e o hub AYA e apresentado na COP27, aponta que o Brasil tem potencial para se tornar o primeiro país a alcançar a neutralidade de carbono.

Neste contexto, o Carbon Press Morning, evento promovido pela Carbon Future e pela FSB Comunicação no início do mês, se propôs a discutir as oportunidades do mercado voluntário, a geração e a comercialização de créditos de carbono, as estratégias para mobilizar o financiamento do setor privado, o financiamento necessário para atingir o net zero (emissões líquidas neutras) e as expectativas para a COP-27, que vem acontecendo desde a semana passada no Egito.

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Para Denise Hills, diretora de Sustentabilidade da Natura &Co, as iniciativas para a preservação ambiental já conquistaram o mercado:

- O que mudou nos últimos anos, inclusive para a Amazônia, talvez porque os brasileiros entenderam o valor do bioma, foi que as empresas conseguiram mostrar soluções que possam facilitar escolhas de compra. Uma floresta em pé precisa existir e tem soluções para essa floresta ser preservada de uma forma legal, rentável, valorizando o papel das marcas.

Hills também defende que é preciso gerar valor sem perder valor. Ou seja, transformar desafios socioambientais em grandes oportunidades de negócio para o setor privado:

- Hoje, em geral, cada vez mais os consumidores são mais conscientes, seja porque estão pressionados pelos efeitos das mudanças climáticas, seja porque eles entendem que estão patrocinando uma coisa mais ética, mais cuidadosa.

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A executiva explica que a Natura tem uma estratégia de potencializar a consciência do consumidor:

- A Natura está a mais de 20 anos na Amazônia. O que a gente vê nesse histórico é que o compromisso em promover soluções que são mais sustentáveis para a escolha dos clientes acelera essa percepção de valor. O próprio consumidor está mais consciente, sabe que pode comprar um refil ao invés de um produto mais caro e que isso [essa escolha] tem um impacto agregado, por exemplo.

Para acompanhar seu trabalho na região, a Natura desenvolveu uma métrica chamada Integrated Profit and Loss (IP&L) , que é aplicada em todas as comunidades em que ela trabalha.

- O IP&L é uma metodologia que faz o cálculo para que esses impactos sejam traduzidos em valores econômicos. Para cada R$ 1 real em receita com vendas de produtos, ela gera R$ 1,5 em benefícios socioambientais - diz Hills, que defende mensurações do tipo para ajudar a ver evolução e fazer escolhas de investimento.

Outro desafio que o Brasil enfrenta no combate ao desmatamento da região é conciliar as práticas agrícolas com a redução da pegada de carbono.

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Taciano Custódio, líder de Sustentabilidade do banco holandês Rabobank, focado no setor agropecuário, acredita que é possível que a agricultura seja uma aliada da preservação ambiental e que produzir alimentos e recuperar florestas, simultaneamente, já é uma tendência.

- É preciso que os produtores sejam mais eficientes, produzam mais alimentos, conservem mais e tenham mais poder financeiro para investir na conservação de recursos hídricos, da biodiversidade e serem reconhecidos por isso - diz Custódio.

Além disso, para Ticiano muitos produtores rurais já reconhecem a necessidade de preservar.

- O produtor é o primeiro a ser afetado pelas mudanças do clima, então ele depende da saúde do ecossistema que ele vive. Se ele não tem recurso hídrico protegido, se ele não tem vegetação nativa protegida, se ele não tem conformidade com o código florestal, ele está afetando o microclima que está afetando a qualidade da produção dele, a rentabilidade dele - explica.

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O executivo lembra ainda que o artigo 2 do Acordo de Paris, compromisso global de redução de emissões poluentes, prevê que isso seja conciliado com a produção de alimentos.

- Nós temos que reduzir as emissões e não ameaçar a produção de alimentos, ela é prioritária. Eu acredito que o caminho é apoiar os produtores para reduzir essas emissões por meio de práticas mais eficientes de manipulação de território, com a proteção da vegetação nativa e restauração florestal - comenta.

Para o executivo, já há técnicas que permitem, ao mesmo tempo, aumentar o nível de produtividade, a eficiência e aumentar, portanto, a rentabilidade do produtor:

- Aumentando a rentabilidade, ele vai ter mais potencial para investimento, conservação do solo e práticas agrícolas que vão conservar o carbono do solo, práticas agrícolas que vão conservar recursos hídricos ou até mesmo ampliar um objetivo inclusive financeiro de projetos de carbono.

Outro argumento que o executivo do Rabobank aponta é que cada vez mais cresce a exigência de produtos certificados com sustentabilidade, com cadeia de valor mapeada e engajada na temática. Produtores - e também empresários - que quiserem exportar para a Europa deverão, cada vez mais, se atentar a essas demandas. No Brasil, porém, o preço é ainda o principal fator de decisão de compra, reitera ele.