Brasil se livra do pior da Delta e vê pandemia desacelerar ao se aproximar de 600 mil mortes

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Tributo a vítimas de Covid-19 em Copacabana

Por Pedro Fonseca

RIO DE JANEIRO (Reuters) - O surto trágico causado pela linhagem brasileira P.1 e o avanço da campanha de imunização depois de um início lento ajudaram o Brasil a evitar um impacto pior da temida variante Delta, o que resultou em uma desaceleração nos casos da Covid-19 e uma redução de mais de 80% nas mortes, mas ainda com cerca de 500 vidas perdidas a cada dia e quase 600 mil óbitos desde o início da pandemia.

O Brasil pode se tornar nesta quinta-feira o segundo país do mundo a superar a marca de 600 mil mortes confirmadas por Covid-19, atrás apenas dos Estados Unidos, mas até o momento tem conseguido se livrar da mesma explosão de casos provocada pela Delta, mais transmissível variante, com ocorreu em outros países, e atualmente não figura sequer entre os cinco lugares do mundo com mais casos por dia.

O cenário de viés positivo se explica, de acordo com especialistas, por uma conjunção de fatores, em especial a elevada imunidade temporária de parte da população em decorrência do enorme surto provocado pela variante P.1 (batizada oficialmente de Gama) anteriormente e o avanço da campanha de vacinação justamente no período de disseminação da variante Delta.

"O resultado de problemas que tivemos antes deram para a Delta uma característica diferente no Brasil do que ela foi capaz de fazer em outros lugares", disse o virologista Fernando Spilki, da Universidade Feevale, no Rio Grande do Sul.

"O custo enorme de vidas que tivemos com a Gama resultou em uma parcela da população com uma imunidade parcial quando a Delta se espalhou, e o atraso inicial na vacinação, que só ganhou escala ao redor do fim do primeiro semestre, significa que a população estava com uma imunidade alta também pelas vacinas quando a Delta se espalhou", explicou.

Quando chegou ao Brasil em maio, a variante Delta foi motivo de grande preocupação depois de ter causado aumentos expressivos de casos mesmo em países que estavam com a vacinação mais avançada do que o Brasil, como Estados Unidos e Reino Unido. Hoje o Brasil tem mais de 70% da população vacinada com ao menos uma dose e quase 45% totalmente imunizada, mas à época menos de 20% da população tinha recebido uma injeção.

No entanto, tirando um breve surto localizado no Rio de Janeiro, a linhagem não resultou em uma nova onda de infecções no Brasil, mesmo tendo se tornando a principal variante em circulação no país, responsável por mais de 91% dos casos atualmente.

Para especialistas, a imunidade gerada pelo surto anterior de Gama deu um fôlego ao Brasil para vacinar sua população, enquanto a Delta ainda não era predominante. À medida que a variante se espalhava, a vacinação também cresceu, o que teve como consequência positiva uma imunidade alta da população por ter sido recentemente vacinada, ao contrário do ocorrido em países que tinham vacinado bem antes da chegada da Delta.

"Talvez seja um pequeno efeito positivo dentro de uma tragédia. Como a Gama tinha circulado muito, muita gente tinha a imunidade temporária, que até o terceiro mês fornece uma grande proteção, e a gente também já estava com um bom percentual da população vacinada, portanto uma imunidade híbrida", disse Alexandre Naime Barbosa, chefe da infectologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia.

Originada em Manaus no fim do ano passado, a variante Gama transformou o Brasil no epicentro da pandemia em abril, quando a média diária de mortes chegou a 3.000, com um recorde de mais de 4.200 óbitos registrados em um único dia. Cerca de 350 mil dos 600 mil óbitos por Covid no país ocorreram durante a prevalência da variante Gama.

A média de mortes dos últimos 7 dias, no entanto, está abaixo de 500, uma redução de mais de 80% em relação ao pico. Com 599.359 óbitos até o momento, o país pode atingir a marca de 600 mil óbitos nesta quinta, levando 109 dias para acumular 100 mil mortes, o que representa mais que o dobro do tempo em relação aos 100 mil anteriores e três vezes mais dias do que entre 300 mil e 400 mil.

Outro importante indicador da redução da pandemia no país é a taxa de positividade, ou seja, o percentual de exames positivos para Covid-19 entre todos os realizados no país, que caiu de um pico em 2021 de 36% para menos de 14% atualmente.

A média atual de casos por dia é de cerca de 18.000, ante quase 75.000 em junho.

"Nós tivemos ao longo de 2020 uma experiência forte, você criou um exército de pessoas parcialmente protegidas contra a Covid através da infecção natural, e em 2021 com a disseminação violenta da Gama essa quantidade aumentou e foi lacrada pela vacinação em massa que avançou", disse o epidemiologista Jesem Orellana, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em Manaus.

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