Brasil tem maior nível de emissão de gases de efeito estufa desde 2006, diz relatório

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A dead caiman is pictured in an area that was burnt in a fire in the Pantanal, the world's largest wetland, in Pocone, Mato Grosso state, Brazil, August 31, 2020. REUTERS/Amanda Perobelli SEARCH
Queimada no Pantanal em 2020. Foto: REUTERS/Amanda Perobelli.
  • Documento é o Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa do Observatório do Clima

  • Agropecuária está no centro da crise climática brasileira

  • Dados são divulgados na véspera do COP26, que irá avaliar cumprimento do Acordo de Paris

A nova edição do relatório Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa do Observatório do Clima (SEEG) revelou que o Brasil segue aumentando sua emissão de gás carbônico (CO2), mesmo tendo assumido há uma década o compromisso de diminuir essa emissão.

Os dados são do ano de 2020 e revelam que o valor de emissões é o maior desde 2006.

"A gente tem um padrão ao longo do tempo das emissões. Olhando de 1990 a 2020, a gente tem um período de crescimento das emissões, que vai de 1990 a 2003, 2004. Depois um período de queda expressiva das emissões, entre 2004 e 2010. E depois a gente volta ao aumento das emissões, que teve um salto importante entre 2019 e 2020. Isso fez com que chegássemos a um valor de emissões que é o maior desde 2006", disse Tasso Azevedo, coordenador do SEEG.

Mesmo com o isolamento pela pandemia de covid-19, o Brasil aumentou em 9,5% sua emissão de gases de efeito estufa em 2020, enquanto globalmente houve uma queda de 7%. Desde 2010, esse aumento no Brasil foi de 23,2%.

A principal justificativa para esse aumento é o desmatamento na Amazônia e no Cerrado. Além disso, entre os cinco setores da economia, a agropecuária, resíduos e mudança no uso de terra tiveram alta nas emissões, enquanto os processos industriais mantiveram níveis anteriores e o setor de energia teve uma queda nas emissões.

Em 2010, o Acordo de Paris foi firmado entre diversas nações para tentar combater a crise climática e seu principal causador, os gases de efeito estufa.

"A janela para que isso ocorra, segundo o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), é estreita: o mundo inteiro precisaria derrubar suas emissões em 7,6% ao ano todos os anos entre 2021 e 2030", disseram os especialistas do SEEG.

O setor de mudança de uso da terra é o que mais atua pelo desmatamento da Amazônia e do Cerrado, também foi o principal responsável pela emissão de gases de efeito estufa no Brasil em 2020.

Agropecuária no centro da crise climática

Se fosse um país, segundo o relatório, a Amazônia seria o maior emissor do mundo, à frente da Alemanha. Se somado ao Cerrado, os biomas emitem mais gases que o Irã, e seriam o oitavo no ranking mundial.

“Dois mil e vinte foi o ano que tivemos as maiores emissões do setor em 11 anos, um reflexo claro do desmonte em curso da política ambiental, que tem favorecido a retomada das altas taxas de desmatamento”, disse Ane Alencar, diretora de Ciência do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), organização responsável pelo cálculo das emissões do setor no SEEG.

De acordo com os cientistas do SEEG, a atividade rural segue responsável pela maior parte das emissões no país. "Quando se soma o total emitido por mudança de uso da terra e as emissões totais da agropecuária, a maior parte delas do rebanho bovino, conclui-se que quase três quartos (74%) das emissões nacionais estão direta ou indiretamente ligadas à produção rural e à especulação com terras", explicam.

Desde 2010, o setor agropecuário teve também o maior aumento na última década. "A crise econômica diminuiu o consumo de carne e isso aumentou em 2,6 milhões de cabeças o rebanho nacional, o que, por sua vez, aumentou também as emissões de metano por fermentação entérica", diz o relatório.

“Embora seja visível o crescimento da implementação de técnicas de agricultura de baixo carbono no Brasil, inclusive com o cumprimento de grande parte das metas do Plano ABC, esse crescimento ainda está aquém dos patamares necessários para que possamos ver a trajetória de emissões do setor ser modificada e demonstrar o real potencial que o Brasil possui em se ter uma agropecuária sustentável e de baixo carbono”, diz Renata Potenza, coordenadora de projetos do Imaflora, organização responsável pelo cálculo das emissões da agropecuária.

Enquanto isso, o setor de energia foi o único que teve queda nas emissões de gases, voltando ao patamar de 2011. Isso pode ser explicado, segundo os especialistas, pela pandemia de coronavírus, que nos primeiros meses reduziu o transporte de passageiros, a produção da indústria e a geração de eletricidade.

Política Nacional sobre Mudança do Clima e COP26

Em relação ao cumprimento da lei da Política Nacional sobre Mudança do Clima (PNMC), o documento avaliou que o Brasil cumpriu a meta, mas com um limite de apenas 1%.

No entanto, a principal meta do PNMC era a redução de 80% na taxa de devastação da Amazônia não foi cumprido. Na verdade, em 2020 foi de 3.925 km2 e o desmate ficou em 10.851 km2, 176% maior.

As informações saem nas vésperas do encontro da COP26, na qual o Brasil terá a segunda maior delegação, que não inclui o presidente Jair Bolsonaro (sem partido). A conferência do clima acontecerá em Glasgow, na Escócia, entre os dias 31 de outubro e 12 de novembro.

O chefe de delegação do Brasil será o ministro do Meio Ambiente, Joaquim Leite. Além dele, estarão presentes também Bento Albuquerque, de Minas e Energia, e Fábio Faria, das Comunicações, e o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. Doze governadores brasileiros também comparecerão ao evento. A delegação brasileira tem o maior número de participantes, apenas atrás dos Estados Unidos.

Peter Wilson, embaixador do Reino Unido no Brasil, avaliou que há três assuntos que devem ser importantes para o Brasil na COP26:

  • Desmatamento,

  • Compromisso do presidente Jair Bolsonaro de zerar as emissões de gases de efeito estufa até 2050

  • Criação de um mercado internacional de carbono

"Acredito que o Brasil tem muito a dizer sobre o crescimento verde. Nós, no Reino Unido, não vemos uma contradição entre crescimento e economia verde", disse Wilson. O principal alvo da COP26 é manter o aumento da média de temperatura global em menos de 1,5ºC, compromisso firmado no Acordo de Paris, em 2015.

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