Brasil terá reunião com Rússia e ignora Ucrânia em Assembleia da ONU

***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 25.01.2022 - O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Carlos França. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 25.01.2022 - O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Carlos França. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

NOVA YORK, EUA (FOLHAPRESS) - O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Carlos França, vai se encontrar com o chanceler russo, Serguei Lavrov, em reunião bilateral nesta quarta-feira (21), às margens da 77ª Assembleia-Geral da ONU.

Lavrov é alvo de sanções de uma série de países do Ocidente e teve seu visto para entrar nos Estados Unidos aprovado de última hora, em meio a tensões com o país, levadas ao extremo após a eclosão da Guerra da Ucrânia.

Não há nenhuma agenda prevista da diplomacia brasileira com representantes da Ucrânia. Sob Jair Bolsonaro (PL), o país vem defendendo o que seria uma posição de neutralidade no conflito no Leste Europeu —de olho, em especial, em exportações russas, notadamente de fertilizantes e combustíveis. A posição foi questionada por países ocidentais e pelo ucraniano Volodimir Zelenski.

Além de Lavrov, França deve reunir também com o chanceler da Belarus na sexta-feira (23), ditadura que se alinha automaticamente ao Kremlin.

Há reuniões previstas também com uma série de outros países: Guiné-Bissau, El Salvador, Senegal, Camboja, Emirados Árabes Unidos, Japão, Sérvia, Bahrein, Suriname, Turquia, Guatemala, Irã, Guiana e Indonésia. O chanceler ainda tem encontros multilaterais com homólogos da Liga dos Estados Árabes, de Brics e Ibas (Índia, Brasil e África do Sul), do Segib (Secretariado Geral Ibero-Americano) e com o chamado G4, grupo que reúne Brasil, Alemanha, Japão e Índia, países que pleiteiam assento fixo no Conselho de Segurança.

A agenda cheia contrasta com a do presidente, que tinha quatro reuniões bilaterais previstas, mas cancelou duas (com os presidentes guatemalteco, Alejandro Giammatei, e sérvio, Aleksandar Vucic). Bolsonaro deve ter encontros com o polonês Andrzej Duda e o equatoriano Guillermo Lasso.

Com o presidente da Polônia, o brasileiro deve assinar dois acordos: sobre Troca e Proteção Mútua de Informações Classificadas e para a Eliminação da Dupla Tributação em Relação aos Tributos sobre a Renda e a Prevenção da Evasão e da Elisão Fiscais.

A menos de duas semanas das eleições presidenciais, em um momento em que aparece em segundo lugar nas pesquisas, Bolsonaro passará menos de 24 horas em Nova York. Ele chega à cidade por volta das 19h e deve ter um evento privado ainda nesta segunda.

Na terça pela manhã, o presidente segue para a ONU, onde abrirá os discursos da Assembleia-Geral, antes de almoçar com apoiadores que viajaram em esquema de caravana de outras cidades em uma churrascaria brasileira. Enquanto isso, Michelle Bolsonaro almoçará com representantes da Alma, aliança de primeiras-damas da qual ocupa a coordenação.

À tarde a comitiva deve voltar ao Brasil.

Espera-se que a Guerra da Ucrânia monopolize os debates do evento das Nações Unidas —seja pela busca da paz, seja por seus efeitos diretos, como a alta global nos preços de energia e combustível. O grande objetivo da ONU nas discussões que envolvem o conflito é expandir o acordo que permite o comércio de grãos da Ucrânia, aumentando também as exportações de fertilizantes da Rússia em meio à crise de escassez de alimentos.

Esta será a primeira edição totalmente presencial desde a eclosão da pandemia de Covid-19, em 2020. Naquele ano, líderes mundiais discursaram de forma totalmente remota, sem que nenhum viajasse a Nova York. Em 2021, parte deles falou de forma presencial, como Bolsonaro, e parte enviou um vídeo, como o líder chinês, Xi Jinping.

A participação remota não estava prevista para a edição deste ano. Houve, no entanto, uma exceção para que o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, possa enviar um vídeo gravado previamente e exibi-lo no plenário. A exceção foi aprovada pela Assembleia-Geral com 101 votos a favor e 7 contra, incluindo o da Rússia, que tentou barrar a medida. O Brasil se absteve, votando a favor de uma emenda rejeitada da Belarus para que não só Zelenski mas qualquer autoridade de país em guerra possa participar de forma remota —o que não foi aceito.