Brasil vai na contramão do mundo e cai intenção de se vacinar contra Covid no país, diz pesquisa

***ARQUIVO*** SÃO PAULO, SP, 09.11.2022 - Fila de vacinação contra a Covid-19 na UBS Nossa Senhora do Brasil, na Bela Vista. Nova onda da doença traz corrida aos postos de saúde para tomar a dose de reforço. (Foto: Danilo Verpa/Folhapress)
***ARQUIVO*** SÃO PAULO, SP, 09.11.2022 - Fila de vacinação contra a Covid-19 na UBS Nossa Senhora do Brasil, na Bela Vista. Nova onda da doença traz corrida aos postos de saúde para tomar a dose de reforço. (Foto: Danilo Verpa/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Na contramão da tendência mundial, o Brasil apresentou queda na aceitação da vacinação contra a Covid no último ano.

Em todo o mundo, o desejo de se vacinar contra a Covid subiu 5,2%, passando de 75,2%, em 2021, para 79,1%, em 2022, segundo pesquisa com 23 países conduzida pelo Instituto Global de Saúde de Barcelona (ISGlobal).

Já no Brasil, o número de respondentes que disseram concordar com a vacinação caiu 3,3% em relação a 2021, de 90,5% para 87,2% em 2022. Apesar disso, o Brasil mantém uma alta cobertura vacinal com duas doses (mais de 81% até o último dia 6).

Além do Brasil, os outros países que tiveram queda na aceitação da vacina contra a Covid foram Reino Unido (-1%), China (-1%), Turquia (-2,7%), Quênia (-8,5%), México (-9,4%), Gana (-13,8%) e África do Sul (-21,1%).

A pesquisa intitulada "Um inquérito de aceitação vacinal da Covid-19 em 23 países em 2022" foi publicada nesta segunda (9) na revista especializada Nature Medicine. Além do ISGlobal, o estudo conta com a participação de cientistas da Escola de Medicina Tropical e Higiene de Londres, da Universidade da Cidade de NY (Cuny) e do Instituto de Métricas e Avaliação em Saúde (IHME) da Universidade de Washington, entre outros.

Os dados foram coletados de 29 de junho a 10 de julho de 2022. Foram ouvidos mil cidadãos em cada um dos 23 países, com 18 anos de idade ou mais, totalizando 23 mil participantes. Do total, 50,3% eram mulheres e 45,6% relataram ter um rendimento médio mensal acima da renda per capita do país.

Os países foram selecionados segundo o peso global de morbidade e mortalidade por Covid no primeiro ano da pandemia. Também foram feitos inquéritos para avaliar a aceitação vacinal em 2020 e em 2021.

A pesquisa avaliou ainda a aceitação da vacina entre aqueles que são responsáveis por crianças e adolescentes com menos de 18 anos, incluindo aqueles que receberam pelo menos uma dose.

O Brasil apresentou índice elevado de pais que têm medo de vacinar seus filhos, com um aumento de 56,3% na hesitação de 2021 para 2022 (de 8,7% para 13,6%). Quando considerados os que receberam pelo menos uma dose, porém, 5,4% relataram hesitação de vacinar os filhos.

Em relação às doses de reforço, o estudo encontrou menores taxas de hesitação em países de renda baixa e média em comparação àqueles de maior renda. No Brasil, só 3,6% dos respondentes disseram hesitar em receber reforços da Covid, ocupando assim a terceira posição entre os que mais acreditam no reforço vacinal. Já Rússia (28,9%), França (26,1%), África do Sul (18,9%) e Canadá (17,6%) apresentam as taxas mais elevadas de hesitação.

O Brasil ainda tem cerca de 100 milhões de pessoas que não buscaram um ou mais reforços da Covid, segundo nota divulgada pelo Ministério da Saúde na última semana.

De acordo com as informações da RNDS (Rede Nacional de Dados em Saúde) divulgadas pela pasta, 69 milhões de brasileiros ainda estão com a terceira dose (ou primeiro reforço) da vacina em atraso e outros 30 milhões que já poderiam receber a quarta dose (ou segundo reforço) não o fizeram.

Segundo o estudo do ISGlobal, 12,1% dos participantes que disseram estar vacinados mostraram hesitação em relação às doses adicionais. Os dados revelam uma intenção inicial positiva quanto à vacinação contra a Covid, especialmente em 2020 e 2021, mas uma queda na confiança global dos imunizantes diante da necessidade de novos reforços e do surgimento de novas variantes. Os achados corroboram outras pesquisas que apontaram menores índice de escolaridade e de renda como fatores ligados à hesitação vacinal.

Outro dado preocupante da pesquisa é que, apesar de serem contraindicados pela OMS (Organização Mundial da Saúde) e por demais entidades de saúde para tratamento de Covid, 27% dos participantes que disseram ter se infectado no último ano relataram uso de ivermectina ao primeiro sinal dos sintomas. No Brasil, o dado é ainda mais alarmante: 79,5% daqueles que disseram ter se medicado para tratar a Covid fizeram uso de ivermectina.

Com o aumento de casos nas últimas semanas em locais como China, Estados Unidos e Europa, os pesquisadores alertam para a importância de buscar informações confiáveis sobre a Covid. De acordo com a pesquisa, quase dois terços (38,6%) dos participantes disseram que prestavam menos atenção às notícias relacionadas ao coronavírus do que no ano anterior.

Os pesquisadores do levantamento publicaram, em novembro, uma carta listando os principais consensos médicos para a Covid e como eles podem auxiliar na tomada de decisões.

Segundo Jeffrey Lazarus, coordenador do levantamento do ISGlobal, é preciso entender os efeitos localmente para combater a hesitação vacinal em cada país.

"Há uma percepção de que a pandemia acabou porque a Covid não é tão mortal quanto antes, em parte porque as pessoas estão vacinadas. Isso é um grande erro, pois ignora a realidade da pós-Covid que afeta milhões em todo o mundo", afirmou.

Ainda segundo o pesquisador, existe uma ligação entre as falas das autoridades e a iniciativa da população de se vacinar.

"Isso ocorreu em parte da população, com as falas contrárias do ex-presidente Donald Trump, nos EUA, e de Bolsonaro, no Brasil. Com o retorno de Lula [à presidência], eu espero que a aceitação da vacinação aumente e que ela também se torne mais acessível, buscando populações marginalizadas que não foram procuradas pela administração anterior."