Brasil vive maior divisão da história, e Lula ganhou aval limitado das urnas, diz Paulo Hartung

***ARQUIVO***VITÓRIA, ES, 10.02.2017 - O ex-governador do Espírito Santo e economista Paulo Hartung. (Foto: Joel Silva/Folhapress)
***ARQUIVO***VITÓRIA, ES, 10.02.2017 - O ex-governador do Espírito Santo e economista Paulo Hartung. (Foto: Joel Silva/Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Tendo ingressado na política como líder estudantil na ditadura militar (1964-1985), o ex-governador do Espírito Santo e economista Paulo Hartung, 65, diz não ver em toda a história nacional um momento de tamanha divisão no país como o atual.

"Em momento algum eu vi e li nada que chegasse a esse tipo de divisão que o país está vivendo hoje. É muito profunda essa divisão", afirma Hartung, que atualmente preside a Ibá (Indústria Brasileira de Árvores) e integra os conselhos do RenovaBR e do Todos pela Educação.

De acordo com ele, o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ganhou uma autorização limitada das urnas devido à estreita margem de sua vitória. Hartung diz ainda que o petista não dá sinais, neste primeiro momento, de ter entendido os recados dados pelo eleitorado.

Hartung, hoje sem partido, militou politicamente a favor de uma terceira via que não vingou nas eleições.

PERGUNTA- A terceira via não conseguiu decolar por causa do caráter plebiscitário desta eleição?

PAULO HARTUNG - O processo de polarização se fez de uma maneira resiliente e dificultou que outras alternativas ganhassem escala no processo eleitoral. Ciro Gomes [PDT] tentou. Antes da Simone Tebet [MDB], outros tentaram e ficaram pelo meio do caminho.

Isso é um fenômeno que a gente está assistindo nas democracias, inclusive nas maduras. Eu insisti na alternativa, porque a vida é como a ação do produtor rural, só colhe quem planta. Só terá chance de disputar com sucesso uma eleição no futuro se participar desta e colocar a pauta que se diferencia da polarização. Eu acho que valeu a semeadura.

Qual diagnóstico o sr. enxerga no resultado das urnas?

P. H. - Eu estou na política desde menino, no movimento estudantil lutando pela democratização no país. Percorri todo esse processo de democratização do país até agora, e sou um leitor dedicado, gosto muito de história, então acho que eu tenho um depoimento para dar com clareza. Em momento algum eu vi e li nada que chegasse a esse tipo de divisão que o país está vivendo hoje. É muito profunda essa divisão.

Nem no período Vargas?

P. H. - Não, eu li e estudei muito esse período. É a maior divisão da história do nosso país. Essa é a minha visão, estou cravando.

É uma divisão regional, profundamente escancarada. É econômica. Vou dar um exemplo: o agronegócio brasileiro, que tem um papel estratégico na economia brasileira hoje. Até no campo da religião, você encontra uma divisão profunda no país. No campo militar. Os sinais têm sido dados, mas a análise política não está conseguindo captar isso.

Eu queria dizer que a gente precisa ter humildade. Nós ainda não compreendemos o que está se passando. Eu vejo muitos analistas com visões definitivas sobre isso, aí bota carimbo, carimbo, carimbo. E carimbo não dá conta disso.

Há um crescente incômodo do cidadão brasileiro com a ineficiência do governo. Isso está lá em 2013 [manifestações de rua], esse é um sinal. Acho que as pessoas não querem mais aquela história de mais governo, querem um governo melhor, eficiente.

Quando você vê que uma frase que bate no brasileiro, assim, olha: "tem que tirar um governo do cangote de quem trabalha e produz". Aí vê como esse troço repercute no Brasil.

Essa é uma frase muito usada pelos apoiadores do Bolsonaro...

P. H. - Eu vou chegar lá. Eu vi isso há muitos anos em um aeroporto, eu passando e uma pessoa na minha frente falou assim: "Menos Brasília e mais Brasil". Quem estava do lado aplaudiu o cara. Tem sinais que indicam que o país mudou e está mudando muito e velozmente.

Tem um outro brasileiro aí na pista. E as grandes lideranças do Brasil não estão compreendendo isso, e os analistas não estão captando isso. Tem um choque de capitalismo e de valores capitalistas, mas reitero que isso não é uma análise definitiva, também estou buscando entender. As pessoas precisam compreender isso para não ir para um caminho que seja o contrário de um movimento que está gerando uma aspiração na sociedade. Eu acho que esse é o grande desafio do Brasil hoje.

Da mesma forma que há esse fenômeno que ainda precisa ser compreendido, também há do outro lado um contingente muito expressivo --que venceu essas eleições-- que talvez rejeite cabalmente reflexões como essa. Isso não tem que ser levado em conta?

P. H. - Claro. Eu sempre achei que as posições extremadas não são boas, né? Eu tenho até uma frase de que extremismo não dá camisa a ninguém. Se bobear, tira a pouca que o cidadão tem.

Mas eu acho que você precisa compreender os movimentos que estão em curso na sociedade. Não adianta carimbar quem não votou como você de fascista. Não é. Você vai olhar o 7 de Setembro, é uma manifestação muito grande, robusta. Precisa ser compreendido por que tanta gente se dispõe a sair de casa, vestir roupa e se manifestar.

Você tem aí para o próximo ciclo no Brasil três tarefas que eu considero fundamentais.

Precisa buscar entender o outro e buscar uns níveis de pacificação no país. Não pacificação com instituições, é com a rua, com a sociedade. Precisa estabilizar as expectativas. As expectativas econômicas do país de novo desancoraram. E você precisa fazer essas duas coisas cuidando de uma terceira, que é enfrentar o problema da pobreza.

O mundo não é o mundo de 2002, quando o Lula se elegeu presidente e eu me elegi governador do Espírito Santo. O mundo lá era o mundo com vento nas costas. Agora é um mundo com vento no peito. A crise energética na Europa, a inflação nos Estados Unidos, a diminuição do dinamismo econômico da Ásia da China.

"Ah, mas tem muitas oportunidades internacionais". Tem, é só ver que é repercussão da eleição brasileira.

Foi muito forte, só tem um período de comparação de tudo que eu vi e li. É doutor Tancredo Neves, quando se elegeu no Colégio Eleitoral [em 1985]. Ali teve uma repercussão no mundo. O mundo queria consumir o Brasil democratizado. Hoje o mundo nos quer cuidando do meio ambiente.

O governo eleito, com base nos primeiros sinais dados, caminha para cumprir essas três tarefas?

P. H. - Não. Mas está amadurecendo. As eleições trazem duas coisas. Primeiro, um tipo de autorização. A segunda, o recado das urnas. Qual foi a autorização que o brasileiro deu? Uma autorização limitada. Quem foi eleito não compreendeu isso e precisa compreender. Não tem cheque em branco.

A segunda coisa, tem recados muito fortes para quem ganhou e para quem perdeu.

Gasto não é vida. Pode ser inflação, corrosão da renda das famílias, desemprego. Nós estamos num ciclo de desemprego no país. O Banco Central agiu na frente dos bancos centrais, deu um passo importante mostrando que a autonomia foi um acerto.

Então, os primeiros sinais são na direção das tarefas que nós temos? Não, na minha visão. Mas eu não fecho a porta. O governo não é sozinho em campo, não tem W.O, tem a sociedade, cobrando, fazendo o debate.

São sinais que precisam ser vistos. Como a eleição norte-americana [midterms, eleições de meio de mandato nos EUA]. Ela mandou um resultado ao incumbente com a inflação cobrando um preço; e também ao grupo trumpista, por [eles] terem ido para a realidade paralela, negar o resultado da inflação, invadir Capitólio.

O sr. considera que a cúpula do Congresso e os partidos estão fazendo um debate qualificado com o novo governo sobre isso?

P. H. - Congresso não é obstáculo no presidencialismo brasileiro para um governante que tenha clareza do que ele precisa fazer. É conversar, negociar e montar uma base de sustentação antes de tomar posse. É só ver o que o atual presidente, o erro de só montar a base no meio do governo e pagou caro.

A outra parte da resposta é o seguinte. O Parlamento topa qualquer gasto. Por isso a autoridade de um ministro é tão importante. É preciso alguém dizer não, dizer que isso quebra o país, que é dar ao pobre com uma mão e tirar com a outra, tirar mais do que está dando.

Não tem espaço para a gente fazer um experimento de política, de política econômica que já deu errado na América Latina, que já deu errado no Brasil. Tenha dó, isso vai custar caro do ponto de vista político, que é a linguagem que muitas vezes é entendida. Daqui a pouco o bom e ótimo [nas pesquisas] desaba e as pessoas não vão saber porque desabou.

Além da economia, quais outros campos cruciais necessitam de uma ação essencial do governo?

P. H. - Uma outra ação é pela educação. Hoje temos experiências exitosas Brasil afora que precisam ser escaladas no Brasil. E precisa de Ministério da Educação, o que nós não tivemos nesses últimos tempos.

Nós temos a experiência do Sistema Único de Saúde, atravessando essa pandemia. Está claro que precisamos robustecer o SUS, melhorar a gestão.

Outra questão fundamental que é combater a violência no país. Não dá para ter esse número de homicídios, isso e guerra civil. Tem que colocar o governo federal nesse jogo e não adianta empurrar isso para conta do governo estadual. Precisamos é fazer o que os outros países fizeram, um sistema único de Segurança Pública que envolva União, estados e municípios.

E quando falamos isso, todo mundo já pensa com a cabeça da minha geração de estudante. Mais verba, mais verba, mais verba. Podemos até colocar mais verba, mas vai primeiro precisa melhorar a qualidade da gestão, que é pré-histórica no Brasil.

Raio X

PAULO HARTUNG

Economista de 65 anos, é presidente-executivo da Ibá e membro dos conselhos do RenovaBR e do Todos pela Educação. Presidiu o Diretório Central dos Estudantes da Ufes (Universidade Federal do Espírito Santo) no final dos anos 70. Foi deputado estadual por dois mandatos, deputado federal em 1991 e 1992, prefeito de Vitória (1993-1997), senador (1999-2002) e governador do Espírito Santo por três mandatos (2003-10 e 2015-18).