Desaparecida em 2016 e procurada pela Interpol, brasileira está presa em campo na Síria como integrante do EI

Mulher caminha no campo de Al Hol, onde está a brasileira Karina Ailyn Raiol Barbosa (Foto: Yan Boechat)

por Yan Boechat

A brasileira Karina Ailyn Raiol Barbosa, de 23 anos, está detida como integrante do Estado Islâmico em um campo de prisioneiros controlado pelas milícias curdas no Norte da Síria. Karina está presa junto com seu filho, que teria entre um e dois anos de idade, em uma área destinada apenas às mulheres estrangeiras que se juntaram ao califado criado pelo líder iraquiano Abu Bakar Al Baghdadi em uma vasta região entre a Síria e o Iraque. De acordo com autoridades curdas que controlam o campo onde Karina e seu filho estão detidos, outras seis mulheres de nacionalidade brasileira também estão presas, com um número não definidos de crianças.

A área em que as brasileiras estão é um dos pontos de maior tensão dessa nova fase da Guerra da Síria, iniciada no começo de outubro após os Estados Unidos decidirem retirar suas tropas do país. A polêmica decisão de Donald Trump abriu espaço para que a Turquia invadisse o Norte da Síria atacando as milícias curdas que eram apoiadas pelos Estados Unidos.

Localização do campo de Al-Hol, no Norte da Síria, muito próximo à fronteira com a Turquia, onde está a brasileira Karina Ailyn Raiol Barbosa (Reprodução/Google Maps)

São os curdos os responsáveis por por administrar uma série de centros de detenção espalhados por todo o Norte da Síria onde estão cerca de 100 mil apoiadores e ex-combatentes do Estado Islâmico. Desde o início dessa nova guerra, os curdos transferiram boa parte de seu efetivo de segurança para o fronte de batalha e diferentes prisões ao longo do território registraram a fuga de centenas de apoiadores do Estado Islâmico.

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Todas as brasileiras estão detidas no campo de Al-Hol, uma gigantesca prisão no Nordeste da Síria, nas proximidades da fronteira com o Iraque, onde estão presas mais de 70 mil pessoas. Quase todas elas são mulheres ou viúvas de combatentes do Estado Islâmico com seus filhos. A maior parte estava vivendo nos últimos redutos dos jihadistas na Síria, no Vale do Rio Eufrates, para onde os extremistas recuaram após terem sido expulsos pelas tropas curdas de Raqqa, a capital do Califado, há cerca de dois anos. De acordo com as autoridades curdas Karina, seu filho, e as demais mulheres brasileiras foram presas ao tentar escapar da cidade de Baghuz no início desse ano. Elas, como a maior parte das mulheres e crianças que vivem em Al Hol, fugiam das intensas batalhas que colocaram um fim oficial ao Califado do grupo extremista em março desse ano.

Crianças no campo de Al-Hol; elas são as maiores vítimas das condições precárias do local (Foto: Yan Boechat)

O Itamaraty tem conhecimento de que Karina está detida no Norte da Síria, mas não iniciou nenhuma tratativa com as autoridades de Rojava, a região semi-autônoma controlada pelos curdos no Norte da Síria, para repatriá-la em conjunto com seu filho. De acordo com as autoridades curdas, nenhum representante do governo brasileiro buscou contato a respeito da situação de Karina. Também não houve nenhum movimento de Brasília na tentativa de identificar quem são as outras seis brasileiras - e seus filhos - que estão detidas em Al Hol, de acordo com as mesmas autoridades curdas. “Nunca nos procuraram, nós gostaríamos muito que os países dessas pessoas as levassem de volta, elas são perigosas e não são um problema apenas nosso”, diz Leilah Rizgar, a diretora da ala internacional de Al Hol, onde Karina e as demais seis brasileiras e seus filhos estão detidas. De acordo com ela, pelas leis vigentes em Rojava, a identidade das demais brasileiras só pode ser divulgada se as mesmas aceitarem ser identificadas ou se o governo brasileiro o fizer, após buscar informações junto às autoridades curdas. “São sete, todas com filhos”, diz a diretora.

Em nota enviada por email ao Yahoo Notícias, o Itamaraty apenas confirmou que tem conhecimento da situação de Karina. De acordo com o texto, foi a própria brasileira quem buscou as autoridades consulares para informar sua situação e pedir ajuda. O Ministério das Relações Exteriores, no entanto, não informou se tem conhecimento sobre as outras seis mulheres que seguem presas com Karina. Na nota, assinada apenas pelo departamento de imprensa, o Itamaraty fez questão de ressaltar que tem dificuldades em prestar apoio a Karina e às outras brasileiras por conta de “a Embaixada - brasileira - em Damasco enfrentar óbvias dificuldades em prestar assistência consular nesses casos por tratar-se de área de guerra, de acesso remoto e sem estruturas centralizadas de governo.”

Moradias precárias e falta de comida, condições básicas de higiene e o clima de guerra fazem das crianças as maiores vítimas do campo de Al-Hol (Foto: Yan Boechat)

Procurada, a embaixada brasileira em Damasco afirmou que não comentaria o caso e que qualquer informação sobre a situação de brasileiros no exterior só pode ser fornecida por Brasília. De acordo com um diplomata brasileiro baseado no Oriente Médio a par da situação, o Itamaraty decidiu tratar do caso apenas com o governo sírio, por meio do Ministério das Relações exteriores da Síria em Damasco. Desde o início da guerra civil, em 2011, o governo de Bashar Al Assad perdeu o controle sobre o Norte da Síria. Desde então toda a região conhecida como Rojava tem sido administrada e controlada pelas forças curdas, que até poucas semanas tinham o apoio dos Estados Unidos. Após não conseguirem impedir o avanço dos turcos as milícias curdas selaram um acordo com o governo de Bashar Al Assad e com a Rússia.

Até esse momento, não haviam relações oficiais entre as autoridades curdas e o governo central de Damasco, o que tornava praticamente inócua qualquer ação brasileira na tentativa de auxiliar Karina e seu filho buscando os canais oficiais sírios. De acordo com o mesmo diplomata brasileiro baseado em um país árabe da região, o Itamaraty não tem praticamente nenhuma informação sobre as condições de Karina, de seu filho e dos demais cidadãos brasileiros presos aqui no Norte da Síria. “Não há qualquer informação sobre essas supostas outras seis mulheres que estariam detidas na Síria, o corpo diplomático brasileiro na região não tem conhecimento disso”, afirmou.

Depois que os Estados Unidos deixaram o Norte da Síria, ofensiva turca tornou a vida no campo ainda pior (Foto: Yan Boechat)

Al Hol como boa parte dos outros campos onde estão detidas dezenas de milhares ex-esposas de combatentes do Estado Islâmico e seus filhos vive uma crise humanitária de grandes proporções. Há pouca comida, pouca água e pouco atendimento médico nos campos superlotados. Desde o início do ano quase 500 pessoas já perderam a vida nessas instalações, a maior parte delas crianças entre 0 e 5 anos de idade, quase sempre devido às péssimas condições de higiene e falta de atendimento médico.

A situação agravou-se ainda mais após a ofensiva turca. Praticamente todas as Organizações Não Governamentais estrangeiras que prestavam serviço de atendimento básico nos campos deixaram a Síria. Além disso, a situação de segurança nos campos deteriorou-se profundamente nas últimas semanas. “Perdemos o controle interno, a única coisa que conseguimos fazer é impedir que essas mulheres fujam”, diz Leilah, a diretora da ala internacional de Al-Hol. Segundo ela, é ali que estão as mulheres mais fiéis às idéias do Califado.

A população de Al-Hol atingiu 74 mil pessoas em 2019, das quais 90% são mulheres e crianças (Foto: Yan Boechat)

Karina deixou o Brasil em abril de 2016 de forma misteriosa. Moradora de Belém e ex-estudante de jornalismo da Universidade Federal do Pará, a jovem tomou um voo para Istanbul e desapareceu. Um ano antes Karina havia se convertido ao islamismo e no início de 2016 abandonou a faculdade sem trancar a matrícula e sem contar a seus familiares. Desde então ela é procurada pela Polícia Federal e pela Interpol. Assim como milhares de mulheres de mais de 80 países do mundo, acredita-se que Karina e as demais seis brasileiras decidiram se juntar ao Estado Islâmico aliciadas por uma eficaz rede internacional que procurava seduzir jovens para juntarem-se ao Califado. De acordo com as autoridades curdas, Karina teria se casado com um combatente do grupo jihadista, de quem teve um filho.

Tímida, a jovem aproximou-se do islamismo em 2014, após iniciar um curso de árabe na Universidade Federal do Pará. Em julho do ano seguinte ela converteu-se ao islã em uma mesquita de Belém. Em dezembro de 2015 ela tirou pela primeira vez seu passaporte, escondida da família. A última vez que Karina foi vista por seus pais foi no dia 4 de abril de 2016, quando ela saiu de casa afirmando que iria para a universidade fazer um trabalho escolar.