Brasileiras se adaptam à cultura e empreendem no Catar

Quando se fala em Oriente Médio, muitos generalizam e repetem algo que se tornou um verdadeiro estereótipo: nos países dessa região, as mulheres sofrem com restrições em uma cultura patriarcal e são proibidas de trabalhar e prosperar por conta própria.

É verdade que, entre os seguidores da religião islâmica, o homem é tido como o provedor, e ainda há muitas famílias conservadoras, que não estão acostumadas a verem a mulher exercer sua profissão e até impedem que isso aconteça.

Mas nem sempre é assim. Pelo menos não no Catar, o que mostra que a cultura varia de país para país. O pequeno emirado de cerca de 3 milhões de habitantes, que será o centro das atenções com a realização da Copa do Mundo, há anos atrai empreendedores do mundo todo, sejam eles homens, ou mulheres.

Brasileiras estão entre os que trilharam essa trajetória de ousadia e sucesso, embora não tenha sido fácil.

Em um primeiro momento, foi necessário um processo de adaptação à cultura local. Leila Martinez, de 56 anos, nascida em Porto Alegre, é fisioterapeuta, artista plástica e tinha uma empresa de eventos. Mudou de vida, porém, quando surgiu, em 2013, a oportunidade de trabalhar como guia de turismo no Catar. À época, essa profissão não era regularizada no país.

“Comecei a estudar sobre a cultura do Catar sozinha. Passava tardes nas bibliotecas e museus e fui criando um manual cultural sobre o Catar. Passei a receber turistas brasileiros e, em 2017, o governo regularizou a profissão de guia. Já recebi mais de 3 mil brasileiros durante esse período todo em que estou aqui”, lembra a gaúcha que tem uma página no Instagram chamada "Turistando em Doha", com mais de 46 mil seguidores, na qual dá dicas e informações para os visitantes.

- ‘Adoram futebol e o povo brasileiro’ –

A paulistana Maura Regina Moraes Carneiro, de 56 anos, também é guia de turismo no Catar, onde mora há sete anos, além de trabalhar na área de educação com crianças com necessidades especiais. E ela ainda tem tempo para exercer outra paixão: a de cantora. Maura garante que foi recebida de braços abertos pelo país.

“Nunca tive problema de nenhuma espécie por ser mulher. Nem com os cataris, nem com os estrangeiros. As pessoas desconhecem a grandeza e a hospitalidade do Catar”, diz ela, com um forte sentimento de gratidão.

“Eles realmente admiram o povo brasileiro, nossa música, nossa alegria. Adoram futebol. Quando você conversa com alguém aqui e diz que é brasileira, eles abrem um sorriso e respondem ‘Oh! Ronaldo! Romário! Neymar!’. Ser brasileira aqui já me abriu muitas portas por eles terem um grande carinho pelo Brasil”, conta Maura.

“Eu me surpreendi no Catar. Foi uma grata surpresa, porque vim preparada para um estilo mais próximo do da Arábia Saudita, de mudanças de hábitos, de restrições. Mas não tive nenhum choque cultural. Só pediam discrição nas roupas e de evitar demonstrações de afeto em público. Nada além disso. É mais uma questão de respeito”, explica a paulistana.

Maura garante que empreender no Catar não é um privilégio dado somente às mulheres não muçulmanas.

"Nós temos hoje um governo que apoia as mulheres a irem trabalhar. Elas também são extremamente apoiadas para terem seu próprio negócio. O governo se preocupa muito com a autonomia da mulher aqui no Catar”, completou.

De acordo com o site do Departamento de Planejamento e Estatísticas do governo catariano, há no país 555.242 mulheres acima de 15 anos de idade. Desse total, 337 mil estão empregadas, conforme dados do segundo trimestre de 2022.

A paulistana também elogia o sistema de saúde do país, pelo qual ela fez cirurgias e vem recebendo tratamento de dois cânceres detectados já quando morava no Catar.

“Os hospitais são de alto padrão. O sistema é 90% subsidiado pelo governo. Pagamos o equivalente a 100 riais por ano (cerca de R$ 150) e temos direito a todos os serviços”, diz ela, lembrando que o sistema também atende os trabalhadores indianos e nepaleses “com a mesma dignidade e bondade”.

- Apaixonada pelo Catar –

A carioca Adriana Meyer, de 47 anos, mudou-se para o Catar com o marido há quase quatro anos, depois de viver dez anos nos Emirados Árabes Unidos e dois em Portugal. Com mestrado em psicologia das organizações e "coaching", ela chegou ao Catar ainda sem emprego, mas com disposição de sobra.

“Foi uma fase importante da minha vida, de redefinir uma nova identidade. Você tem que se readaptar. Sempre agarrando as oportunidades que surgem”, lembra Adriana.

Ela conta que a área do turismo chegou por acaso. Durante um churrasco de família, sugeriram ao seu filho fazer um curso de guia, tendo em vista o potencial gerado pela realização da Copa do Mundo.

“Acompanhei meu filho ao Ministério do Turismo, e a moça que cuidava da inscrição me perguntou se eu também gostaria de fazer o curso junto com ele”, lembra Adriana, que adorou a ideia.

Hoje, os dois são parceiros de profissão. A carioca, que tem a página "visitexploredoha" no Instagram, também é empreendedora na área de networking para mulheres e abriu uma plataforma dedicada ao público feminino. E a Copa do Mundo promete uma abertura ainda maior.

“Nós vamos ter agora um festival internacional de negócios, o IBF (International Business Festival) num ‘coworking space’ durante todos os dias da Copa com o objetivo de promover a interação entre as pessoas do mundo todo que vão estar aqui. Com certeza esse evento vai abrir muitas portas”.

Adriana Meyer conta que se adaptou bem aos costumes locais. “Se você convive e respeita, em harmonia com essa cultura, você não vai ter problema nenhum”, diz ela.

“É um país que está abrindo espaço para o novo. Temos a 'sheikha' Mozah, que é mãe do Emir do Catar [Tamim bin Hamad Al-Thani]. Ela é muito ativa na área da educação, saúde e cultura. Ela abraça isso tudo e traz para o país uma certa modernidade. É um país em que a gente pode ter liberdade de ir e vir e liberdade de escolha”, garante Adriana.

Depois de anos de adaptação e muito trabalho, ela diz ter certeza de que fez a escolha certa.

“Eu realmente sou apaixonada pelo Catar, a minha experiência aqui é maravilhosa. E o que a gente não pode ter aqui a gente respeita”, conclui.

aam/tt