Brasileiro é perseguido e agredido na Argentina após atentado a Cristina Kirchner

Pessoas participam de uma manifestação em apoio à vice-presidente argentina Cristina Fernandez de Kirchner na Plaza de Mayo, em Buenos Aires, em 2 de setembro de 2022. (Foto de Emiliano Lasalvia/AFP) (Foto de EMILIANO LASALVIA/AFP via Getty Images)
Pessoas participam de uma manifestação em apoio à vice-presidente argentina Cristina Fernandez de Kirchner na Plaza de Mayo, em Buenos Aires, em 2 de setembro de 2022. (Foto de Emiliano Lasalvia/AFP) (Foto de EMILIANO LASALVIA/AFP via Getty Images)

por Débora Oliveira

Na manhã desta sexta-feira (2), o graduando de medicina da Universidade Nacional de La Plata (UNLP), capital da província de Buenos Aires, Leo Souza (30), denunciou ter sido agredido e xingado em um açougue argentino.

Segundo o estudante, ao tentar comprar frango no estabelecimento, o dono do lugar o cuspiu e o chamou de “lixo” e “sujo” e disse que na Argentina ele “não teria direitos”, porque lá não é seu país. O ataque acontece um dia após a tentativa de atentado cometido por um brasileiro contra a vice-presidente Cristina Kirchner.

De acordo com a transcrição da denúncia prestada à Nona delegacia de Polícia de La Plata, o argentino ainda ameaçou bater no estudante caso este volte ao açougue que costumava frequentar todos os dias.

Leo Souza é paraibano e formado em matemática no Brasil, já fez mestrado no Peru e doutorado na Universidade de Granada, na Espanha. De volta ao país, decidiu cursar medicina na Argentina. “Até então levo muito bem a graduação aqui. Em relação a isso está tudo certo, venho aprendendo mais a cada dia”, diz o estudante.

Segundo o graduando, a discussão começou após ele pedir 3kg de frango, que custaria 2.100 pesos. O comerciante colocou um pouco mais (cerca de 2.220 pesos) e por não ter o valor adicional, Souza pediu para retirar um pouco do frango, o que irritou o argentino.

“A partir daí, ele começou a me agredir verbalmente, gritar, dizendo que aqui não era meu país, que eu não tinha direito de reclamar de nada, que no país dele eu não iria fazer isso porque eu não tinha direitos”, relata o estudante, “para evitar a confusão, eu saí”.

Ao se afastar do local, o vendedor veio ao seu encontro, lhe empurrou, cuspiu e agarrou o seu braço. “Quando fui para fora, as pessoas da fila me perguntaram o que estava acontecendo e eu relatei. Nisso, ele atravessa a bancada e vem pra cima de mim com agressões. Me empurrando, arrastando e falando que eu não era deste país, por isso não podia reclamar. Me xingou das palavras mais baixas que existem, sujo, lixo. Disse que eu não deveria estar na Argentina”, conta.

Leia mais sobre a tentativa de atentado contra Cristina Kirchner

Após ter a ajuda de uma mulher desconhecida, Souza prestou queixa na Nona Delegacia de Polícia de La Plata. Segundo ele, outros argentinos que presenciaram a agressão teriam ligado para a delegacia antes que ele fizesse a denúncia. “A polícia pediu para eu ficar em casa, não sair muito e comunicar qualquer movimentação suspeita”.

Em seu Instagram pessoal, o estudante relatou o ocorrido e pediu apoio ao Centro de Estudantes de Medicina da UNLP e aos perfis oficiais da instituição. “Eu já falei com a Justiça, também tenho que falar com o Consulado brasileiro sobre essas questões, porque nunca se sabe. Ele estava com uma faca e se eu não tivesse corrido, acho que ele poderia ter feito algo bem pior”.

Só em 2019, 60% do quadro de estudantes estrangeiros de medicina na UNLP era formado por brasileiros. A cidade e outras que sediam as maiores universidades da Argentina são destinos comuns de quem busca cursar medicina a preços mais acessíveis, sem necessidade de prestar vestibular.

Dentre as 131 universidades existentes e credenciadas na Argentina, 66 são públicas e gratuitas – 80% dos alunos argentinos estudam de graça nestas instituições, segundo dados do Estudar Fora, da Fundação Estudar. A Universidade de Buenos Aires (UBA) está entre as 100 melhores no mundo, de acordo com o QS World University Ranking de 2021.

Quem é Fernando Montiel?

Fernando André Sabag Montiel possui antecedentes criminais envolvendo armas: foi acusado, em março de 2021, por contravenção pelo porte de arma não convencional, no bairro de La Paternal, onde possuiria residência.

Na ocasião, o brasileiro foi flagrado com uma faca e alegou às autoridades na época que era para uso e defesa pessoal.

Nesta quinta-feira, ele foi preso após apontar uma arma de fogo para o rosto de Cristina Kirchner, no momento em que a vice-presidente se aproximava de apoiadores em frente à sua casa, no bairro da Recoleta.

Nos registos comerciais, o brasileiro possui inscrição profissional de "serviço de transporte automóvel urbano e suburbano não regular de passageiros gratuitos; exceto através de táxis e remisses, aluguel de automóveis com condutor e transporte escolar".

Na Argentina, a categoria corresponde ao registro de motoristas de aplicativos. Ele teria um carro Chevrolet Prisma registrado para utilizar no trabalho.

Ele não possui impostos ativos, não registra relação de dependência ou contas bancárias, conforme revelado por um registro preliminar, segundo informações da Polícia Federal.

Um apoiador da vice-presidente da Argentina, Cristina Fernández de Kirchner, fica perto da casa de Fernández de Kirchner, depois que o vice-presidente foi ameaçado por um agressor não identificado com uma arma na noite de quinta-feira, segundo imagens da televisão local, em Buenos Aires, Argentina. 1º de setembro de 2022. REUTERS/Agustín Marcariano
Um apoiador da vice-presidente da Argentina, Cristina Fernández de Kirchner, fica perto da casa de Fernández de Kirchner, depois que o vice-presidente foi ameaçado por um agressor não identificado com uma arma na noite de quinta-feira, segundo imagens da televisão local, em Buenos Aires, Argentina. 1º de setembro de 2022. REUTERS/Agustín Marcariano