Brasileiro foi alvo de novo assessor de Donald Trump

PATRÍCIA CAMPOS MELLO

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O diplomata brasileiro José Maurício Bustani, 72, lembra-se do dia em que John Bolton entrou em sua sala e afirmou: "Vim aqui com instruções do vice-presidente [dos EUA], Dick Cheney, para lhe informar que você tem 24 horas para pedir demissão e ir embora."

Era março de 2002, e Bustani era diretor-geral da Opaq (Organização para a Proibição de Armas Químicas), em Haia, na Holanda. Bolton era subsecretário de Estado americano para controle de armas e segurança internacional no governo de George W Bush.

Posicionava-se como um dos principais defensores da tese de que o ditador iraquiano Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa e de que isso justificava uma invasão do país pelos EUA, o que acabou ocorrendo em 2003. Posteriormente, ficou provado que o Iraque não tinha esses armamentos.

Hoje, Bolton está prestes a assumir um dos cargos mais importantes da política externa dos EUA "-será conselheiro de segurança nacional do presidente Donald Trump.

"É muito preocupante", disse à Folha de S.Paulo o embaixador Bustani, que está aposentado e vive no Rio. "Espero que ele não cause nenhuma outra guerra."

Quando era diretor-geral da Opaq, entre 1997 e 2002, Bustani tentou ampliar ao máximo o número de países-membros da organização, que acabara de ser criada.

O maior desafio, segundo ele, era convencer países árabes ou do Oriente Médio a se filiarem à organização ""muitos viam armas químicas como uma forma essencial de se proteger contra Israel.

A função da entidade era determinar que países tinham armas químicas ou capacidade para fabricá-las, e convencê-los a destruí-las. Os membros concordavam em passar por inspeções e em declarar arsenais.

Bustani passou a negociar a entrada do Iraque e da Líbia na Opaq. Em novembro de 2001, segundo o diplomata, os países se disseram prontos para as inspeções e para se filiarem ao órgão.

"Quando anunciei que teríamos dois novos membros, Iraque e Líbia, os americanos ficaram alucinados. Eles sabiam que faríamos inspeções e que isso demonstraria que Saddam não tinha armas químicas. Como já tinham planos de invadir o país, disseram-me que eu não tinha direito de aceitar os países sem antes consultá-los", lembra.

Em um documento interno do Departamento de Estado, Bolton afirmou que Bustani estava querendo ter "um papel não apropriado" no Iraque, e que a questão deveria ficar a cargo do Conselho de Segurança da ONU ""onde os EUA têm poder de veto.

Os americanos começaram a fazer campanha para derrubar Bustani, dizendo que o estilo de gerenciamento dele era inaceitável -embora o brasileiro tivesse sido reeleito com os votos de todos os membros da Opaq, inclusive o dos EUA.

"Quando Bush assumiu, tudo mudou. Ele não admitia que eu tivesse autonomia", diz. Segundo o diplomata, o governo americano entrou em contato com autoridades brasileiras, pedindo a cabeça dele. "Eu me senti traído. O governo brasileiro não queria desagradar os EUA, então não me defendeu."

No entanto, na votação final que determinou a saída do embaixador, em abril de 2002, o Brasil foi um dos votos contrários.

Em seu livro, "Surrender is not an Option" (Se render não é uma opção), Bolton relembra a visita que fez a Bustani na sede da Opaq, em Haia.

"Eu me encontrei com Bustani e disse que ele deveria se demitir. Se ele fosse embora no ato, faríamos tudo para dar a ele uma saída graciosa e digna. Se não, nós o demitiríamos." Segundo Bolton, Bustani era incompetente.

O diplomata teme que seu antagonista, de volta ao poder, siga a mesma linha com a Síria e o Irã. Nesse segundo caso, o americano se opõe ao acordo de troca de combustível nuclear assinado em 2015, no governo Obama, apesar de a Agência Internacional de Energia Atômica dizer que Teerã cumpre as determinações.

Em relatório desta semana, Cliff Kupchan, presidente do conselho da consultoria de risco político Eurasia Group, afirma que há uma probabilidade de 65% de os EUA se retirarem do acordo nuclear com o Irã. O presidente Trump precisaria recertificar o acordo em maio, atestando que o Irã vem cumprindo as determinações. Para Kupchan, a nomeação de Bolton e a de Mike Pompeo para o cargo de secretário de Estado "ameaçam o acordo".

O colapso do acerto traria de volta as sanções secundárias. Essas punições afetam terceiros países, ou seja, os EUA voltariam a impor penalidades a empresas ou governos de outros países que fazem negócios com o Irã

DEMISSÃO

Bustani entrou com uma ação na OIT (Organização Internacional do Trabalho) contra sua demissão. O órgão deu ganho de causa ao diplomata, afirmando que a ação foi injustificada e que servidores públicos não devem ficar "vulneráveis a pressões e mudanças políticas".

A OIT determinou que a Opaq pagasse todos os salários que ele teria recebido se tivesse ficado no cargo até o fim de seu mandato, em 2005, e mais US$ 61.500 (R$ 203 mil) em danos morais.