Brasileiro: mesmo sem pré-temporada, principais clubes apostam na mudança de técnicos

Tatiana Furtado
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A dança das cadeiras dos técnicos é algo inerente ao futebol brasileiro, sobretudo ao fim da temporada. Um ano ruim ou objetivos não alcançados geralmente são as deixas para recomeçar o trabalho do zero, com uma cara nova, após as férias. A pandemia do coronavírus, no entanto, subverteu a lógica. Estendeu o calendário até fevereiro — invadindo março por causa da Copa do Brasil —, acabou com o período de descanso e levou clubes a uma constante troca de treinadores ao longo da temporada, nem sempre motivados pelos resultados e sem tempo de preparação. Mesmo assim, dos nove primeiros colocados do Brasileirão, apenas o Palmeiras, campeão da Libertadores, confirmou a permanência de Abel Ferreira no cargo.

Dos oito clubes restantes, São Paulo e Fluminense se anteciparam. Antes mesmo do fim do campeonato, anunciaram novos treinadores oficialmente ou apalavrados, mas que só estreiam nos estaduais. Nos demais, ronda a incerteza de quem estará à frente do time no início da próxima temporada.

Não seria um problema tão grande se estivéssemos em início de dezembro, com pré-temporada marcada para janeiro e os primeiros jogos confirmados para o fim do mês. A realidade é bem diferente. Metade dos times do alto da tabela, como Internacional, Atlético-MG e São Paulo, estreia nos campeonatos regionais apenas três dias depois do encerramento do Brasileiro. Ao que tudo indica, todos eles com novos comandantes.

— Ano passado foi um ano atípico. Mas, independentemente disso, é sempre melhor manter o trabalho. É mais produtivo, menos desgastante, a comissão técnica e o elenco já se conhecem. A mudança nem sempre é garantia de sucesso. É uma incógnita, uma aposta. Sempre que há trocas de comissão técnica e muitas mudanças no elenco, fica mais difícil de o trabalho encaixar — argumenta Paulo Pelaipe, que dirigiu o departamento de futebol de clubes como Flamengo e Grêmio.

O Palmeiras é a exceção que confirma a regra de que há muitas variantes nos rumos tomados pelas diretorias dos clubes. O português Abel Ferreira assumiu em outubro, com contrato até 2022, e alcançou a principal meta da temporada. Trabalho mantido sem dúvidas.

Os outros, no entanto, não seguem exatamente o padrão de “vamos mudar porque não deu certo”. Caso do Fluminense. Nem mesmo a conquista da vaga na Libertadores foi suficiente para que Marcão, interino que deu sequência ao trabalho de Odair Helmann, desde dezembro, fosse fosse mantido. O tricolor optou por Roger Machado, que ainda não foi anunciado oficialmente, e só assumirá no Estadual. Se o time confirmar presença apenas na fase 2 da competição continental, o novo técnico terá duas semanas de trabalho para um jogo já decisivo.

Já o São Paulo, também garantido na Libertadores, preferiu reformular todo o trabalho tirando Fernando Diniz, que estava à frente do time desde setembro de 2019. Trouxe Hernan Crespo que só assumirá o cargo no Paulista, três dias depois de o interino Marcos Vizolli comandar o tricolor paulista diante do Flamengo.

Atlético-MG e Santos passarão por reformulações mais por causa dos temperamentos e das relações estremecidas com seus técnicos do que apenas pelos resultados em campo. Tanto Jorge Sampaoli quanto Cuca não pretendem ficar nos respectivos clubes após o Brasileiro. O argentino, inclusive, tem proposta do Olympique de Marselha e precisa pagar a multa contratual pois tem vínculo até dezembro deste ano.

Longevidade no cargo pode mudar de mãos

A dez dias do início da próxima temporada, nenhum dos clubes fechou oficialmente um nome para os substitutos. Os paulistas estão apalavrados com Ariel Holan. Os mineiros estão de olho em Renato Gaúcho, o técnico mais longevo da Série A. Desde setembro de 2016 no Grêmio, seu contrato termina em fevereiro — terá de fazer uma pequena extensão para poder comandar o time na final da Copa do Brasil.

O treinador ainda não disse se fica ou se sai. Seu destino só será resolvido após os dois jogos com o Palmeiras (dias 28 e 7 de março). Caso deixe o clube gaúcho, Lisca, que comanda o América-MG desde janeiro de 2020, terá o trabalho mais longo da Série A. Seguido de Umberto Louzer, na Chapecoense desde fevereiro do ano passado; e de Guto Ferreira, que assumiu o Ceará em março passado. Ou seja, apenas uma temporada.

No Flamengo, a permanência de Rogerio Ceni está atrelada ao título brasileiro. Se não vier, a tendência é ele sair após três meses de trabalho. O caso mais inusitado é o de Abel Braga, do Internacional, que está a uma vitória da conquista. Abel chegou em novembro para ocupar a vaga deixada por Coudet, já informado de que o clube estava acertado com Miguel Ángel Ramirez para 2021. Porém, a diretoria agora evita bater o martelo da mudança de comando.

— Se o Abel for campeão e tirarem ele, é um risco muito grande. Vai trocar um treinador que conquistou os maiores títulos da história do clube e acabou com o jejum do Brasileiro por uma aposta — diz Pelaipe.